Critica de música de 27 de Março a 1 de Abril de 2010
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Luisa Amaral
17:30 Sexta feira, 26 de março de 2010
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Terra incógnica
O Duo The Knife cruza os caminhos da ópera e da pop numa celebração a Darwin: o resultado é esta obra monumental.
Posto que muitos pontos sejam ainda bastante obscuros e assim ainda permanecerão durante muito tempo, vejo-me, contudo, após os estudos mais profundos e uma apreciação fria e imparcial, forçado a sustentar que a opinião defendida até muito recentemente pela maioria dos naturalistas, opinião que eu próprio partilhei, isto é, que cada espécie foi objecto de uma criação independente, é absolutamente errónea. Estou plenamente convencido que as espécies não são imutáveis; estou convencido que as espécies que pertencem ao mesmo 'género' derivam directamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas dessa espécie, seja qual for, derivam directamente dessa espécie; estou convencido, enfim, que a selecção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies". Escrita, em 1859, na introdução de "Sobre a Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural", este é o género de declaração que permite afirmar que, se Deus morreu, Marx morreu e nós próprios não nos sentimos mesmo nada bem, Charles Darwin não poderia estar mais vivo. E -como uma inquietante multidão de criacionistas parece apostada em demonstrá-lo todos os dias - ainda capaz de continuar a provocar sobressaltos num mundo em que o pensamento pré-científico permanece mais enraizado do que gostaríamos de imaginar. Daí que todas as celebrações que ocorreram em 2009, por ocasião do 150º aniversário da publicação da obra fundadora do neto do não menos fascinante Erasmus Darwin, não tenham sido demais. Em particular, aquelas que aconteceram fora do âmbito estritamente científico, como é o caso deste "Tomorrow, In A Year", ópera/performance encomendada pela companhia de teatro dinamarquesa Hotel Pro Forma ao duo electro sueco The Knife.
Estreada em 2 de Setembro passado no Teatro Real de Copenhaga e dirigida por Ralf Richardt Strøbech e Kirsten Dehlholm, pretendia mostrar "o mundo visto através dos olhos de Charles Darwin" e, ao mesmo tempo - tomando "o género operático como ADN" -, investigar "as relações entre imagem, narrativa, movimento e música" no sentido da criação de "uma nova espécie de electro-ópera". O terreno não é virgem: desde "United States I-IV", de Laurie Anderson, às colaborações de David Byrne ou Tom Waits com Robert Wilson, os caminhos da ópera e da pop-e-tudo-à-volta, para o melhor e para o pior, já se cruzaram um razoável número de vezes. Mas, provavelmente, um tal projecto nunca terá sido entregue aos cuidados de alguém como Olof Dreijer (a metade masculina de The Knife, irmão da outra metade, Karin Dreijer Andersson) que, candidamente, confessa "nunca ter assistido a uma ópera e desconhecer mesmo o que a palavra 'libreto' significava". Não foi, porém, obstáculo inultrapassável. Olof e Karin aplicaram-se na escuta de Meredith Monk, Luigi Nono, Diamanda Galas, Joan La Barbara, Klaus Nomi, Penderecki e Stockhausen, muniram-se de field recordings de sons da Amazónia e Islândia, desmembraram e atonalizaram radicalmente o perfil musical que lhes conhecíamos de "Silent Shout" ou da aventura colateral de Karin, "Fever Ray", recorreram às vozes da cantora lírica Kristina Wahlin, da actriz Laerke Winther e do singer-songwriter Jonathan Johansson, praticaram um exercício de quase cut-up sobre os textos de Darwin e - não esquecendo que apenas temos acesso ao registo sonoro de um espectáculo de teatro, dança e música -edificaram uma obra monumental de música electrónica-concreta-electro-pop que reivindica ser digerida em regime de dedicação exclusiva. Não de forma tão extrema como (as proto-óperas) "Tilt" ou "The Drift" de Scott Walker (aqui, ainda se encontram bússolas orientadoras para esta expedição por terra incógnita), mas não menos exigente do que a aventura do Beagle. João Lisboa
Tomorrow, in a Year
The Knife in collaboration with Mt. Sims and Planningtorock
CD duplo Rabid Records/Nuevos Medios
Have One
On Me
Joanna Newsom
Triplo CD Drag City/Flur
Estou disposto a admitir que o problema é meu. Até porque a explicação alternativa só poderia ir parar a uma teoria da conspiração à la Dan Brown, segundo a qual a Maçonaria, o Clube Bilderberg, a Trilateral, a Opus Dei e os Superiores Ocultos de Agartha se teriam confabulado para que, em uníssono, todas as vozes críticas do universo, rendidas e deslumbradas, entoassem cânticos e louvores à sublime obra de Joanna Newsom. O que, à excepção de um ou outro sniper, é exactamente o que está a acontecer. Como se sabe, não é coisa de agora: tanto "The Milk Eyed Mender" (2004) como "Ys" (2006) foram recebidos como a mais preciosa dádiva do free/freak-folk - o rótulo começa a entrar em desuso mas ainda ajuda a situar -à humanidade carente do Bom e do Belo, e Joanna apresentada como a Sininho hippie por que todos esperávamos para lançar pó-de-estrelas sobre a pop. O problema poderá ser meu, mas, entretanto, darei luta. E direi que "Have One On Me" consegue ser três vezes pior que "Ys": porque é um triplo CD; porque, no anterior, podíamos concentrar-nos nos fabulosos arranjos de Van Dyke Parks e, com esforço, ignorar a existência da Newsom; porque diminuir o teor "puético" de arcaísmos patetas para o substituir por platitudes do género de "Life can be difficult and lonely but we all need love" será, talvez, um início de carreira promissor na indústria da self-help mas não é, propriamente, um progresso. Fica, então, só uma cada vez mais pronunciada aproximação aos maneirismos vocais de gueixa mimada de Kate Bush agrafados aos agudos estridentes da Baez-diva-folk dos primórdios, alguns traços de personalidade de uma Kristin Hersh psicótica mas fofinha e um dilúvio de harpa. Se, nas próximas semanas, eu não voltar a escrever, enviem, por favor, este texto ao Dan Brown. J.L.
A alma por um fio
Reedição (aumentada) do primeiro álbum de João Gilberto.
A música é a melhor coisa depois do silêncio. Mas poucas vezes se tem consciência disso. Só quando ela se organiza nas suas margens e dele se distingue por nada mais que um murmúrio. Mas que transporta consigo toda a riqueza do mundo e assim se faz igual fonte de apaziguamento. E dizer tudo com o ar de que nada se diz não é para qualquer um. É por isso que João Gilberto vale tanto como no primeiro dia, e nenhuma modernidade a sua arte perdeu, volvido meio século. Na verdade, o homem que - de um só golpe - acabou com a saudade e o romantismo clássico, para mais desafinando porque do fundo da imperfeita alma humana vinha o seu canto, ainda hoje disputa com os Young Marble Giants a paternidade do paradigma 'menos é mais'. E, no entanto, há uma diferença crucial que não se prende com o facto de o fio de voz de 'Lobo Bobo' provir de um adepto de Chet Baker e de o trio de Cardiff preferir Booker T. A questão da música minimalista reside, justamente, na forma como se rodeia e ocupa o silêncio. E João Gilberto fê-lo como um mestre, sublinhando a sua quietude, e não caindo nele - ainda que com resultados estéticos notáveis - como mosca na sopa. Para não falar, já, na circunstância de a sua atitude como intérprete antecipar - sem devaneios teóricos - o estatuto de 'não-músico' mais tarde consagrado por Brian Eno.
Nada mais que uma voz tão fina como um arroio errando por um prado suavemente inclinado e um violão de uma nota só - menos duas, note-se, que os sempre denegridos acordes de que a geração punk precisou para dar algum sentido ao vazio e, de caminho, mudar para sempre o mundo da música pop. Caso contrário, porque havia alguém de se dar ao trabalho de relançar no mercado esta voz que mal se deixa ouvir - e, contudo, imbatível em matéria de transparência - e os acordes (mesmo que secundados por discreto cortinado orquestral) que mal chegam para lhe garantir a posição vertical? Que há efemérides metidas ao barulho (ou, na verdade, à ausência deste), está escrito na contracapa: 50 anos de bossa-nova. Mas que importância material tem isso se cada palavra libertada por tão frágil fonte de murmúrios não adquirisse - num exercício sublime de underacting - redobrada intencionalidade, novo valor semântico e sentido estético desconhecido? Porque o que se ouve (e ainda encanta) nesta reedição (substancialmente aumentada) de "Chega de Saudade" é uma forma única de esculpir o silêncio perpetrada por alguém plenamente consciente de que este é - mesmo - de ouro e de que o desenlace da sua intervenção só faz sentido se também o for. Ricardo Saló
Mango Mangüé
El Gran Fellove
Vampisoul
"Ah Fellove estavam a tocar o teu Mango Mangué no rádio e a música e a velocidade e a noite envolviam-nos como se quisessem proteger-nos ou enlatar-nos no seu vazio e ela ia ao meu lado, a cantar...", escreveu Guillermo Cabrera Infante em "Três Tristes Tigres". E, porque ambos contribuíram para uma certa ideia de diáspora, parece apropriado evocar o nome de um através do outro. Ainda para mais quando representam também uma dimensão relativamente esquecida - se não subestimada - mas essencial na compreensão do sincretismo cubano: a da sátira. Esta antologia de Francisco Fellove Valdés poderá enfim contribuir para a alteração do estatuto do seu titular. Porque, injustamente, permanece uma nota de rodapé nos estudos sobre música latino-americana quem no seu tempo ganhou o epíteto de "El Gran" e, fundamentalmente, porque o que nela se ouve ilustra de forma exemplar décadas de transformação estética. Gravados para a RCA mexicana entre meados dos anos 50 e inícios de 60, estes 21 temas, talvez inadvertidamente, reavivam de forma exaltante velhos cismas nascidos no contínuo frenesi criativo de Havana. E derivam do fundamento rítmico afrocubano para logo trazer à lembrança guarachas de antigas zarzuelas, combinam rumbas ouvidas nas docas com refinados arranjos para orquestra ao estilo dos espectáculos de Xavier Cugat no "Tropicana", cruzam mambo e guaguancó, estilizam o bolero e o cubop (Fellove, antes de abandonar a ilha rumo ao México e Nova Iorque, participava nas famosas descargas organizadas por músicos como Israel Cachao López), agilizam o son montuno de Septeto Habanero ou Sexteto Nacional, abrandam o chachachá e, precocemente, aceleram o boogaloo, ensaiam o doo wop ao jeito dos Zafiros e, essencialmente, servem um vocalista que - entre Louis Armstrong e Cab Calloway - se entregava ao scat como se o tivesse inventado. No mínimo, inesquecível. João Santos
Leoncavallo:
Domingo, Lang Lang, Orch. Teatro Comunale di Bologna, Veronesi (d)
DGG/Universal
Ainda há boas surpresas, e esta "Noite de Maio", gravada por Plácido Domingo em 2007 (mas só agora lançada), é uma delas. Já se sabia que Ruggiero Leoncavallo (1857-1919) tinha uma sólida cultura literária e que a sua produção não se limitava aos "Pagliacci" (a "Bohème" é reposta de vez em quando). "La Nuit de Mai" (1887), um poema sinfónico para tenor e orquestra baseado no poema homónimo (1835) de Alfred de Musset, é um produto dos seus anos parisienses. Num certo sentido, vem na linha de algumas composições de Berlioz e antecipa coisas como o "Poème de l'amour et de la mer" (1893), de Ernest Chausson. Enquanto Musset estruturou o poema num diálogo entre o Poeta e a sua Musa, Leoncavallo optou por um diálogo entre o tenor e a orquestra. Variado no espírito e na maneira, é também um bom exemplo das excelentes qualidades de orquestrador de Leoncavallo (e que fazem de "Pagliacci" uma ópera muito mais interessante do que a irmã gémea "Cavalleria Rusticana", de Pietro Mascagni). As longas estrofes da Musa são distribuídas à orquestra, cabendo 5 (dos 12) números ao tenor (que sobe ao si agudo no #8, quando o Poeta evoca a ascensão da Musa ao firmamento). O refrão da Musa, Poète, prends ton luth, justifica os pizzicati das cordas (e o plangente uso das harpas). É das melhores coisas gravadas por Domingo nos últimos anos, mesmo que tenha tido - ou não - de recorrer ao seu banco de agudos. Completam o disco cinco curtas canções para voz e piano (uma delas, 'La Chanson des yeux', sobre um poema inacabado de André Chénier, lembra o dueto de amor entre Nedda e Silvio, em "Pagliacci"), e duas inconsequentes peças para piano que Lang Lang executa com uma delicadeza invulgar. Jorge Calado
Haunted Gardens
Jeffery Davis Quartet
Tone of a Pitch/ Dargil
No século passado vingaram na Europa músicos americanos que, por diversas razões, decidiam prosseguir as suas carreiras noutra geografia. Grande nomes como Kenny Clarke, Johnny Griffin, Horace Parlan, Dexter Gordon e muitos outros. Que a cena em Portugal também mudou é comprovado pela presença de alguns jovens americanos que, pelos mais diferentes motivos, decidem tocar jazz por cá com os nossos músicos. Evidentemente que a presença de músicos portugueses na cena americana, principalmente para frequentar academias, também fomenta o intercâmbio. Jeffery Davis é um jovem músico americano há algum tempo radicado em Portugal que desenvolve as suas faculdades de jazz na companhia de músicos nacionais. A importância do músico entre nós tem, a nosso ver, um factor de peso: o instrumento que toca, o vibrafone. Saxofonistas portugueses com competência há alguns, guitarristas e pianistas muitos mais, vibrafonistas nenhum. Assim, Jeffery Davis traz consigo uma lufada tímbrica pouco usual no jazz português. Este CD comprova-o. Na companhia de excelentes músicos, Davis assina uma obra altamente louvável. Mais discípulo de Gary Burton do que dos grandes vibrafonistas negros, tem um estilo desenvolto e imaginativo que, no disco, serve de forma brilhante as suas composições. Estas, à partida, têm uma qualidade emocional que diverge das composições habituais de alguns dos nossos jazzmen, muito dados a peças sombrias e melancólicas. João's Café, Haunted Gardens, Darkness e outras, apresentam um universo de exultação recomendável. O trio português - com o imaginativo guitarrista André Fernandes à cabeça mais um duo atento e impetuoso na pele de Nelson Cascais e Marcos Cavaleiro - toca de forma sólida. Jeffery Davis toca a difícil marimba em dois números, The Pittbull's Revenge e Viktoria s Secret, que se revelam os mais dinâmicos. Raul Vaz Bernardo
Blackmagic
José James
Brownswood/ Última
Há transformações que não se vêem todos os dias. E a magia negra nada terá que ver com o assunto. Mas pouco mais de um ano passou desde que "The Dreamer" deu conta da chegada de mais um cantor de veia espiritual disposto a cruzar os mares do jazz modal de Mark Murphy. Talvez tudo tenha que ver com o simples facto de haver quem aprenda depressa e não tarde a encontrar o seu caminho. Porque o que "Blackmagic" vem agora mostrar é um autor maduro e, sobretudo, um sério candidato à condução dessa entidade sincrética a que se dá o nome de neo-soul (em que soul, jazz, funk e hip-hop são uma coisa só) ao respectivo paradigma. Não só este disco se ergue sobre um aliciante compromisso de actividade livede grupo e programação (e, por isso, de apego à memória e consciência do presente) como constitui um exemplo de equilíbrio perfeito de invenção melódica, profundidade espiritual e requinte orquestral. E, porque talvez não se trate de descobrir o novo state of the art da soul, não falta, sequer, o ocasional mergulho destemido nas águas futuristas de um mundo eléctrico nascido na confluência de tecno e jazz ('Warrior'). Mas, sobretudo, continua a impressionar neste cantor de Brooklyn o registo discreto do canto de quem está certo do que sente e mais ainda de como exprimi-lo perante quem o ouve. R.S.
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