Porta do Coração
Ricardo Ribeiro
EMI
Melodias tradicionais com poemas inéditos. É assim o segundo disco de fados de Ricardo Ribeiro (o primeiro é "Ricardo Ribeiro", CNM, 2003). O fadista não teme entoações, estilos e improvisos. Pega com o mesmo à-vontade em 'A Minha Oração', imortalizado por Fernando Maurício, como em 'Moreninha da Travessa', um Fado Vadio de Filipe Pinto com letra de Jorge Rosa e que serve de single ao álbum. Acelera mais ainda o Fado Corrido em 'Sonho Fadista', transforma o 'Bairro Afamado' em 'Fama de Alfama' num jeito castiço inigualável. Tudo isto com uma capacidade vocal fora do normal. Aquela que lhe permite ser genuíno em cada tema, interpretar cada fado de forma diversa, ater-se a pormenores para soltar emoções, estados de espírito, fazer acontecer o fado. Tal e qual como se estivesse numa casa de fados a sós com ele próprio e de olhos fechados. A valorizá-lo estão os músicos: Pedro de Castro na guitarra portuguesa, Jaime Santos na viola e Joel Pina na viola baixo. Os quatro a funcionarem como um só corpo, no mesmo sítio e na mesma linguagem. Alexandra Carita
Psychedelic Sound Waves
Ride
Rockit Science/ Flur
Portugal sonha - por fim - a cores? É tudo uma questão de tempo. Mas, tendo em conta a trajectória descrita pelo artista-outrora-conhecido-como-Dj-Ride, será mais exacto dizer que tudo leva o seu tempo e tem a sua lógica. E, aqui, surge um ligeiro problema: o sonho será o último lugar para onde a lógica é chamada. O que só adquire significado pelo peso da instância onírica na matriz conceptual que o álbum preconiza e pela circunstância - nunca regra ou dogma - de a música ter mais graça quando tem menos lógica. Porque, na verdade, não promete este dj mais que um disco dedicado a quantos não receiam aventurar-se no desconhecido. E, aqui, já surge um problema menos ligeiro: mesmo que não exista outro álbum como este, não parece que ele seja senão um desfile de clichés - rock, sobretudo - num contexto específico gerado pela cultura hip-hop. "Turntable Food" (2007) movia-se a golpes de imaginação e de verve melódica e não pensava duas vezes antes de abrir a porta ao jazz e ao dub; "Beat Journey" (2009) sabia como extrair novas riquezas de uma linguagem já a resvalar para o virtuosismo de gira-discos. Que este seja o seu tour de force sónico (por vezes, de proporções Black Sabbath), terá lógica e legitimidade. Mas onde pára o valor estético do silêncio e, nessa medida, a respiração da música? Ricardo Saló
Mulatu Steps Ahead
Mulatu Astatke
Strut/Symbiose
Só faltava mais um hardest-working-man-in-the-show-business. Logo quando seguir um terço das nuances da música se tornou num episódio-modelo de "Missão Impossível". E, de novo, facilmente se comprova que esta 'gente' não vive para testar os limites da crítica. Na verdade, e como se não fosse já de pasmar a energia criativa do 'pai' do ethio-jazz à beira dos 70, um semestre bastou para confirmar por meio deste episódio por conta própria que residia no engenho estético, no gosto do risco e no prazer da música grande parte da vertigem aventureira da experiência com The Heliocentrics ("Inspiration Information Vol. 3"). Do mesmo modo que ninguém teve que esperar um trimestre, sequer, para ficar a conhecer a silhueta (e a acção inebriante) da razão da maior afro craze desde Fela Kuti ("New York-Addis-London: The Story of Ethio Jazz 1965-1975"). Mas Mulatu quer mais; e - dirigindo músicos de Boston, Londres e Addis Abeba - anuncia o passo em frente. Ele não virá. E, no entanto, seria leviano menosprezar esta linguagem fluida como água e mais leve que o ar. Que não é senão um jazz que vai da exploração microtonal de "Kind of Blue" (como se - depois de espalhada a história aos sete ventos - se tratasse de dar a conhecer os seus segredos mais íntimos) à descarga latin-jazz mesclada de tradição etíope. Sempre segundo o requinte ellingtoniano reservado aos mestres. R.S.
Brazilian Guitar Fuzz Bananas 1967-1976
Vários
Tropicália in Furs
Por vezes fica no ar a impressão de que a fasquia não pode subir mais. Mas logo nos lembramos que os recordes só servem para ser quebrados. No caso - o da compilação de raridades - tudo é vagamente paroxístico e inflacionário. E só faz jus à fama o que anuncie um novo mundo. Disso saberá Joel Stones, aliás Joel Oliveira, proprietário da Tropicália in Furs (loja de discos na East Village) e responsável por esta selecção. Pois, armado com "uma verdade" (o single enquanto veículo de eleição para experiências estéticas desviantes), para o Brasil viajou com a única missão possível ao arquivista moderno: procurar aquilo que não se sabe existir. Encontrou ié-ié sinestético (Marisa Rossi), garage demente (Célio Balona), soul sideral (Tony Bizarro) e incontáveis variações de ácidos e toxinas como as que levaram os Youngsters aos Beatles, Serguei a cantar "meus cabelos virando jardins", Fábio ao acrónimo 'Lindo Sonho Delirante' ou Ely Barra (Brazilian Bitles) a "fugir à realidade". Tudo inédito em CD e apenas dois nomes (Mac Rybell e Loyce e Os Gnomos) já divulgados em blogues como Mopho ou Brazilian Nuggets. Exemplar.João Santos
I Speak Because I Can
Laura Marling
Virgin/EMI
O título do álbum, reparem no título: "I Speak Because I Can". Apenas dois anos antes, o primeiro (tinha Laura Marling 18 recentíssimos anos) chamava-se "Alas I Cannot Swim". Exactamente o mesmo período de tempo durante o qual Laura foi a musa para "The First Days of Spring", de Noah & The Whale (leia-se, para a alma, por ela devastada, de Charlie Fink, que, qual Petrarca, se viu obrigado a narrar, poética e musicalmente, a perda da amada), e para "Sigh No More", dos Mumford & Sons (aliás, Marcus Mumford, o último fiel depositário dos seus afectos). Se virem bem, está tudo na forma do mesmo verbo, na passagem da negativa para a afirmativa: I cannot e I can. Agora, ela diz que sim, fala 'porque pode' e, de agora em diante, muito difícil será calar esta voz daquilo que - em queda da coisa free-folk -, é capaz de ser bem mais sensato, porque sim, porque podemos, chamar (é só mais um rótulo, este, medianamente aceitável), nu-folk. Pelo único motivo de que só poderá haver uma relação entre a matriz do que o primeiro Donovan (oiçam 'Made By Maid' e 'Ballad of a Crystal Man') e o Dylan fundador de 'It's Alright, Ma' (escutem 'Devil's Spoke') têm a dizer sobre o assunto. Convoquem-se outros como Nick Drake, os espectros iluminadores de Sandy Denny, Joni Mitchell ou Richard Thompson e imaginem que outra matriz - autêntica, sem outro cálculo que não tenha sido o da digestão da necessária aprendizagem - poderia ter estado na origem de canções como as que cospem palavras tais que "no hope in the air, no hope in the water, not even for me, your last serving daughter" ou "Why fear death, be scared of living, hearts are small and forever thinning". Com quase todos os Mumford & Sons na tripulação e alguns Noah & The Whale incluídos como troféus do saque. A jovem diva comanda as operações, decide quando ser Mumford-épica ou apenas acusticamente terra a terra e escolher a ocasião para enviar recados como "the weak need to be lead, and the tender I'll carry to their bed, and it's a pale and cold affair, I'll be damned if I'll be found there". Amem-na muito. João Lisboa
Dear Someone
Anders Christensen Trio
Stunt/Multidisc
Uma obra surpreendente, esta primeira do contrabaixista Anders Christensen. Um músico que no início do século tocou num grupo de Paul Motian e, mais recentemente, no último CD do trompetista polaco Tomasz Stanko, já falado nestas páginas. Christensen, um instrumentista de som e tempo que não desmerece a grande escola dinamarquesa, aparece a liderar um... trio de piano. Rodeia-se dum velho mestre, o baterista Paul Motian, e dum extraordinário novo talento do piano, Aaron Parks. Surge, deste modo, um belo disco que, seguramente, fascinará todos os que o ouvirem. O jovem dinamarquês faz uma selecção cuidada das obras a interpretar mantendo sempre um alto nível de emoção. Começa com a canção que dá o título ao CD, 'Dear Someone', da autoria da cantora folk Gillian Welch, uma daquelas canções que encantam pela simplicidade e lirismo. O trio toca com enorme fluidez e sentimento, embalado pelos címbalos e marcação típica de Motian. Deste músico surgem três composições, das quais destaco a solidez de 'Arabesque', com o baterista a justificar (se alguma vez precisou) porque é o mais subtil músico no instrumento. O trio funciona com unidade e emoção, com um Aaron Parks excepcional nas duas composições introduzidas por solo de contrabaixo com um ambiente de cântico religioso, 'Spend All the Money' e 'The Wedding'. Há ainda dois clássicos do cancioneiro jazz, 'Conception' e o velho 'Stompin' at the Savoy', swingados com excelência, e também o belo standard 'I'll be Seeing You'. Um trio notável! Raul Vaz Bernardo
Crossing Borders: Wagner; Gershwin, Mendelssohn
Orquestra Sinfónica Portuguesa, Jones (d)
Opart
Para que serve este disco - eis a interrogação? Três obras do repertório corrente tocadas por uma orquestra menos que mediana (a nível internacional) e dirigidas por uma maestrina que não tem nada de especial para dizer (em relação às peças escolhidas). Trata-se daquilo a que os ingleses chamam "vanity publishing" (edição vaidosa), para ser consumida (e oferecida) pela gente da casa. A suspeita é acentuada pelo facto de o livreto não ter uma única palavra sobre as obras em execução; apenas a biografia da maestrina, Julia Jones, e a história (curta) da OSP. O concerto - gravado ao vivo em 2009, pela Antena 2 - é mais um daqueles acontecimentos aleatórios. Há várias dezenas de gravações de todas estas peças com grandes orquestras e intérpretes. Não havia necessidade de gastar tanta energia (tempo e dinheiro) num projecto inútil. Depois, há o problema da (má) programação. Que tem a ver a abertura de "O Navio Fantasma" (Wagner) com a suite "Um Americano em Paris" (Gershwin) ou com a "Sinfonia Escocesa" (Mendelssohn)? Infelizmente, pouco se aprendeu com a programação modelar das séries de concertos de Paolo Pinamonti. Dito isto, devo acrescentar que se desejava um "Fliegende Holländer" mais fluido e tenebroso, um "An American in Paris" menos espartilhado e uma "Nº3" mais sedosa e melhor coreografada. Nada disto quer dizer que não haja razão para a OSP fazer gravações apuradas - de música portuguesa, de repertório internacional pouco divulgado, etc. Este disco, é que não. Jorge Calado