"A paixão do aço"
"Pata Lenta" vem confirmar a singularidade de Norberto Lobo, um guitarrista que toca quem o ouve
Norberto Lobo é a pessoa mais feliz do mundo por poder tocar guitarra e por o mundo estar cheio de "fixes" que gostam dele e da sua música. Entre os que gostam dele e da sua música estão as 400 pessoas que esgotaram no dia 5 de Junho a Casa do Alentejo, em Lisboa, para o primeiro concerto de apresentação de "Pata Lenta"; e estão os que já tocaram com ele e fizeram questão de deixar comentários no seu MySpace, como o alaúdista holandês Jozef van Wissem: "It's all good"; ou o compositor americano Rhys Chatham: "Thanks for the beautiful music"; ou Gary Lucas (guitarrista de Captain Beefheart e co-compositor de "Grace" de Jeff Buckley), que o comentou no seu próprio blogue: "Jammed with a fantastic Portuguese acoustic guitarist Norberto Lobo."
Impressionante? Não. Impressionante é que seja necessário puxar por ele para que fale dos outros. Por exemplo, o violoncelista Ernst Reijseger: "É um músico fora de série. É só ouvidos e mãos, aquele homem. Foi na Holanda, no backstage, depois de um concerto. Foi um momento muito mágico"; Devendra Banhart: "Toquei com ele no Sudoeste e na Aula Magna. É um fixe"; Larkin Grimm: "Fizemos juntos uma tour. Eu fazia a primeira parte e depois tocava umas músicas com ela"; Lhasa: "É a maior do mundo. Foi no Canadá. Toquei num festival onde ia abrir para ela. Como ela gostou, toquei três vezes. Adoro a Lhasa. Quando a vi, fiquei petrificado"; Jack Rose e Steffen Basho-Junghans: "São dois músicos com quem aprendi muito só de ouvi-los falar. São pessoas que já têm uma visão muito avançada do instrumento e da música. E são muito generosas no que diz respeito a partilhar. Não têm aquela ideia de 'sou o melhor guitarrista do mundo e não digo os meus segredos a ninguém'."
Norberto Lobo tem 27 anos, nasceu em Lisboa, o pai é são-tomense e a mãe é do Porto. Tem três irmãos músicos e recebeu a primeira guitarra num Natal, quando tinha 8 ou 9 anos. Começou a tocar em família, passou para as bandas de garagem e daí para os concertos no liceu. As primeiras vezes que gravou foi com a The Grey Blues Bend. Primeiro em 2003 num disco de 14 minutos apresentado ao Festival de Música Phono'03, da Fonoteca Municipal de Lisboa, depois em 2004 com dois temas na colectânea "CD1MH", da Bor Land, e finalmente em 2005 com o EP "Four Songs", editado pela Fonoteca.
Entretanto já tocava nos Norman, com o irmão mais velho, Manuel (teclas e baixo), e o baterista João Lobo. "É uma jam band, instrumental. Como o João não mora cá, encontramos-nos cerca de três vezes por ano. É uma coisa mais do coração." Os Norman editaram um tema na colectânea "Novos Talentos Fnac 2008" e têm um álbum pronto para sair este ano pela Skinpin Records.
Além das bandas, Norberto tem mantido alguma produção de música para cinema. Estreou-se em 2002 (com o irmão Manuel) na banda sonora da curta "A Última de Seia", de Gil Ferreira, e recentemente musicou o documentário "Visita Guiada", de Tiago Hespanha. Também este ano tornou-se actor em "Canção de Amor e Saúde", de João Nicolau (músico dos München, banda com a qual tem tocado ao vivo).
Em 2006 começou a dar concertos sozinho, em 2007 editou o seu primeiro disco a solo, "Mudar de Bina", pela Bor Land, e este ano o segundo, "Pata Lenta".
E é em "Pata Lenta" que tudo ganha sentido. É nesta música, umas vezes vertiginosa, outras dolente, doce e abstracta, melodiosa e profunda, que qualquer ouvinte consegue encontrar o que o encante. "Pata Lenta" é uma mise en abyme, uma vertigem de música dentro da música. Tudo o que ele ouviu, toda a gente com quem ele toca, o seu reportório retrabalhado, uma melodia que a memória levou aos dedos, a energia do dia em que o gravou. O mistério da música de Norberto é que atrai quem sabe tocar a querer tocar com ele e quem não sabe a querer partilhar o espaço sonoro do disco ou o espaço físico de um concerto.
E a entrevista? Norberto não explica nada. Só lhe saem frases melódicas:
"O Coltrane está ao nível do Paredes como influência na minha vida, em todos os sentidos."
"Não penso no que estou a fazer como folk."
"Sempre fui mais de ouvir o músico do que o estilo. Gosto de beber água de diferentes rios."
"Não ouvi muito John Fahey. Nunca ouvi Robbie Basho na vida."
"É uma relação muito promíscua, a da minha guitarra com outros instrumentos."
"As pessoas, quando vivem no som, vivem mesmo no som."
"A interpretação é a composição, e vice-versa. Nascem ao mesmo tempo e crescem juntas. Umas vezes zangam-se e outras vezes ficam amigas."
"Os guitarristas, como todos os instrumentistas, têm um bocado a tendência para o desenho. Gosto muito de tocar por desenhos, de fazer desenhos com as mãos, que são ao mesmo tempo ideias melódicas."
"Nas bandas sempre fui para a eléctrica, porque não tenho guitarra semiacústica, e para tocar com os bateristas tens de ter volume. Adoro tocar guitarra eléctrica e ando a explorar coisas a solo para ela. Normalmente, toco com uma guitarra acústica de cordas de aço, por cujo som me apaixonei. É uma guitarra que comprei na Holanda, muito velha, mas com um som muito especial. O instrumento também condiciona a criação, porque as cordas de nylon puxam para outra linguagem, mas foi a paixão do aço."
Esclarecidos?
P.S. - Esta semana, Naná Vasconcelos (o percussionista brasileiro que gravou com Jon Hassell, Jan Garbarek, Don Cherry e outros) conheceu-o em Vila do Conde e já não o larga. Rui Tentúgal