25/05/2012 atualizado às 0:15

Critica de Música de 10 a 16 de Abril de 2010

Luisa Amaral (www.expresso.pt)
17:30 Sexta feira, 9 de abril de 2010
Orelha Negra

Arthouse/Compact

Há quem diga que uma palavra é só uma palavra. Lendo Pessoa e Wilde ficar-se-á, porém, com outra ideia. Mas não será necessário ir tão longe. Tome-se o caso de supergrupo. Não passa, ainda, de uma palavra; mas nunca quis dizer nada de bom. No essencial, gente muito cheia de si própria (embora nem sempre desprovida de talento) fazendo valer o seu nome nas margens do vazio estético. Todas as épocas tiveram neste fenómeno a sua ilusão de zénite e nem Portugal constitui excepção. Que pensar, agora, de um quinteto que reúne - entre outros - Sam The Kid, João Gomes e Francisco Rebelo? Resistência para a geração do groove? Convirá, então, que se comece por fechar as portas ao preconceito. E, sobretudo, que se oiça o álbum. Porque já não se pode dizer de um disco que não passa disso e que não tem uma história para contar. Mas terá mesmo? Por certo que sim. Mas reconheça-se que poucas vezes vai muito além do respectivo conceito em matéria de criação de mais-valia estética. De uma síntese da memória (soul, funk, banda sonora e fusão) em contexto contemporâneo de matriz hip-hop e dinâmica live se trata. Na verdade, de uma sábia releitura de capítulos do passado imbuída de espírito fortemente afirmativo. À qual, contudo, sobra em destreza orquestral o que lhe escasseia em invenção melódica e - em parte - diversidade cénica. E, no entanto, move-se. Por vezes, o futuro nasce da memória.Ricardo Saló


Devil s Halo

Meshell Ndegeocello

Downtown/Nuevos Medios

Que nunca se saiba que esperar de Meshell tem que se lhe diga. Porque é a melhor notícia para o melómano ávido de emoções e a pior para a indústria de um mundo em play list. Será a sua maior virtude. Pelo que significa em matéria de liberdade criativa e de capacidade de decisão estética em cada momento. Mas há o outro lado: estará a cantora negra nascida em Berlim em dia de marcar a pop com um facto que fará desta uma realidade diferente ou terá acordado minada pela indolência da qual brota o espírito de obrigação contratual? E esta é a questão de "Devil s Halo". Embora continue a ter do seu lado a evidência de que nunca um disco mau lhe saiu da mesa de mistura, o oitavo álbum mostra Meshell muito longe da ousadia que levou "The World Has Made Me the Man of My Dreams" da vertigem rock/ drum n bass para a falsa quietude da balada soul pela leitura arrojada de tudo o que fica entre uma coisa e outra. Na verdade, há, aqui, um regresso ao mainstream de "Comfort Woman" (que, pelo uso e abuso da malha do rock FM, ultrapassa pela direita), pouco mais restando que a entrega a um repertório demasiado mediano para quem tratou de pulverizar as convenções logo no disco de estreia ("Plantation Lullabies") e ainda agora parecia ter abraçado as delícias da aventura na complexidade contemporânea. E não é pela ligeira respiração a meio da acção que - do fastio estético ao som final - deixa de lembrar um disco dos U2. R.S.


Fall of Spring

LonelyDrifter Karen

Crammed/Megamúsica

Explicar por que motivo Clare & The Reasons estão um milímetro para o lado errado do cute e Lonely Drifter Karen - em boa verdade, vizinhos do mesmo condomínio estético - se situam no ponto exactamente simétrico não é a tarefa mais simples deste mundo. Talvez se trate apenas de uma gestão de equilíbrios: se, em ambas, tudo acontece no interior daquele perímetro onde o (frequentemente perigosíssimo) bom gosto convive com uma certa ideia de boémia-BCBG - a saber: canção-pop de fino recorte nos arranjos, entre o classicismo beatleano, o cabaret, a old-time-music e uma versão domesticada do aventureirismo sonoro de Tom Waits -, no caso da banda de Tanja Frinta, o ângulo inclina-se, no sentido por onde caminham também Jolie Holland e a Björk mais pop e não tanto para o lado the-hills-are-alive-with-the-sound-of-music (o que não deixa de ter piada quando se sabe que Julie Andrews foi o primeiro amor de Tanja). Nada de muito novo em relação a "Grass Is Singing" (2008), mas igualmente simpático.João Lisboa


The Magician s Private Library

Holly Miranda

XL/Popstock

No papel, até pareciam existir muitos dos ingredientes para uma óptima história: jovem vítima da tirania teológica de uma família fundamentalista escapa-se das masmorras domésticas, abdica de dissimular a sua preferência lésbica, chega à Brooklyn-onde-tudo-acontece, e é acolhida pelos TV On The Radio. David Sitek produz-lhe o álbum de estreia com o resto da banda e elementos da Antibalas Afrobeat Orchestra a oferecer os sopros. O próprio nome - Holly Miranda - era bom e a pinta de P.J. Harvey barely legal ajudava. O necessário para um disco promissor é que, afinal, faltava: a confessada tendência de Sitek para o overproducing submerge todos os temas naquele tipo de espessa neblina que poderia ocorrer se Angelo Badalamenti e os Cocteau Twins soprassem, em simultâneo, sobre o Hudson, e a pesada quadratura rítmica liquida qualquer hipótese que Holly poderia ter de sonhar com o estatuto de suplente de Hope Sandoval. Na realidade, descobri-la e às canções por entre cenário tão sobrecarregado é missão praticamente impossível. J.L.


Afro-Rock Volume One

Vários

Strut/Symbiose

Ninguém dirá que abriu as comportas - pois cedo caiu no esquecimento ou porque "Africafunk" em 1998 e "Club Africa" em 1999 o precederam -, mas, na medida em que existiram músicos que influenciaram mais outros músicos do que a música propriamente dita, não andará longe da verdade quem atribuir ao volume inaugural da Kona Records, em 2001, a inspiração para a subsequente militância da Soundway, Analog Africa, Sterns, Honest Jon's, Vampisoul ou Strut, que agora o reedita e que então o superou com "Nigeria 70". Isto é, para lá da cronologia, "Afro-Rock" comprova a mudança de paradigma - subvertendo perversões conservacionistas - na representação da música africana por editoras europeias. E, valorizando a mais incendiária, subterrânea, frenética e marginal produção queniana, ganesa ou congolesa, actualizou também o dicionário do funk, soul e do próprio afrobeat. Permanece uma extática experiência mas ganha contornos caucionários: aos seus activistas (Ishmael Jingo, Geraldo Pino, Steele Beauttah, etc) só garantiu reconhecimento póstumo.João Santos


Lisgoa

António Chainho

Movieplay

António Chainho assentou arraiais na Índia. O resultado é uma fusão perfeita entre a musicalidade da guitarra portuguesa e a de instrumentos como as tablas, a cítara ou o violino. Uma viagem feita por etapas. Em cada tema de "LisGoa" Chainho dá mais um passo território indiano adentro. Às vezes recua um pouco, volta a avançar, atira-se de cabeça. Veja-se Ao Encontro do Oriente, um casamento perfeito que situa os dois mundos com nitidez entre a guitarra portuguesa, a viola e o piano; oiça-se a seguir Panch Vorsam ou So Ja Rajkumari e já não é só a língua que se perde, a guitarra deixa entrar a tradição goesa em tons festivos. Preste-se atenção ainda a 'Ghar Aaja Pardesi', onde o fado surge mas dá lugar à popularidade das tablas. As influências são mútuas. A sua grandeza, porém, atém-se com mais significado em LisGoa ou Bangalore, onde a cumplicidade entre os músicos atinge o auge. Alexandra Carita


Alone

Marc Copland

Pirouet/Mbari

A verdade deve ser dita sem hesitações: Marc Copland é um dos génios do piano jazz. Sem a projecção de Keith Jarrett ou Brad Mehldau, pouco conhecido nos EUA mas muito considerado na Europa, Copland tem apresentado uma série de obras de um nível absolutamente altíssimo na germânica Pirouet. Este seu terceiro CD a solo (todos em editoras europeias) é uma obra que confirma a sua enorme arte. À partida, para mim, Copland tem uma enorme virtude: não começou a tocar piano em criança e não frequentou conservatórios, fez a sua aprendizagem do instrumento quando descobriu, na década de 70, que muita da música que concebia, não se enquadrava no saxofone que então praticava. Depois, foram anos a aperfeiçoar-se ao piano. Daqui, julgo eu, nasceu uma abordagem do instrumento que não valoriza o virtuosismo ou a velocidade, procura antes uma busca profunda no interior de cada canção. O seu estilo legato, com um trabalho notável dos pedais, vai ao âmago das canções, como poucos pianistas conseguem. Veja-se o caso das três canções de Joni Mitchell que surgem no CD. Herbie Hancock também dedicou um CD à música dela e até ganhou um Grammy, mas nada do que fez se compara à beleza de I Don't Know Where I Stand, Rainy Night House e Michael From Mountains, aqui apresentados. Mas há muitos mais momentos de beleza neste "Alone", da extraordinária versão da peça de Mal Waldron, Soul Eyes, passando por Fall de Wayne Shorter, e por um standard com uma leitura insólita, I Should Care, até ao blues Blackboard. Sem dúvida, piano jazz a solo do outro mundo, sem máscaras algumas. Raul Vaz Bernardo


John Adams:Doctor Atomic Symphony

David Robertson, Saint Louis Symphony Orchestra

Nonesuch/Warner

A partir da ópera estreada em 2005, John Adams (Massachusetts, 1947) escreveu a sinfonia do "Doutor Atómico" inspirada em acontecimentos da vida do físico J. Robert Oppenheimer. Para o compositor norte-americano foi marcante a leitura das obras de Richard Rhodes "The Making of the Atomic Bomb" e "Dark Sun". Peter Sellars assinou o libreto da ópera, utilizando documentos recentemente desclassificados relativos ao "Projecto Manhattan" e à experiência da explosão atómica preparada em segredo em Los Alamos. Os ruídos da chuva, do vento e dos trovões são recriados numa alusão à tempestade que, na noite de 15 para 16 de de Julho de 1945, varreu o local onde iria ser feito o primeiro teste da explosão nuclear. A obsessão com o tempo, com o contar, esperar e calcular, surge através da música que Adams reescreveu nesta sinfonia de 2007 com três andamentos baptizados como O Laboratório, Pânico e Trindade. Na parte final surge novamente o soneto de John Donne Batter my heart, three person d God', um momento que originou uma das partes mais lancinantes da ópera. Numa estadia em França, Adams leu o livro "A Black Guide to Mysterious Provence", o ponto de partida da peça de 2001 "Guide to Strange Places", agora incluída na gravação. Ana Rocha

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