25/05/2012 atualizado às 0:15

Critica de livros de 2 a 9 de Abril de 2010

Luisa Amaral
17:30 Quinta feira, 1 de abril de 2010
Sempre radical, nunca coerente 

Desconcertante, intempestivo, implacável: eis o novo livro de um poeta que quer, com ele, revogar tudo o que escreveu antes.

Consuma-se neste livro a mais radical operação poética - e a mais cheia de consequências - da literatura portuguesa das últimas décadas. Falamos de operação poética para designar um gesto violento contra a obra do próprio autor, contra a ideia cumulativa de obra e contra a poesia que lhe é contemporânea. A operação comporta uma dimensão afirmativa (à qual não se acede se nos deixarmos obnubilar ou fascinar pelo escândalo, algo inevitável num primeiro momento), mas actualiza um princípio enunciado por Mandelstam: "Na poesia, é sempre de guerra que se trata."

Uma nota colocada no final do livro exprime a vontade autoral, irrealizável em termos pragmáticos, mas com um efeito irrecusável: "Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a obra anterior."Excluir, substituir, reescrever, já Joaquim Manuel Magalhães tinha feito em profundidade e extensão. Mas agora foi muito mais longe: intempestiva, inesperada, irreconhecível é a poesia de "Um Toldo Vermelho". Algumas palavras e títulos que transitaram para este volume não chegam a ser pistas suficientes para nos localizarmos em relação à obra anterior. A viragem, para além de ser radical, desactiva todos os princípios em que se baseou a poesia do autor e que ele defendeu também em termos teóricos na obra crítica. Estes poemas que excluem e substituem toda a obra poética anterior podem ser lidos contra ela.

Tínhamos antes formas de articulação das palavras e do verso baseadas na estrutura sintáctica? Pois agora quebrou-se completamente essa estrutura, e o que se apresenta é aquilo a que Adorno, lendo os últimos poemas de Hölderlin, chamou parataxe, isto é, um agenciamento que não obedece à hierarquia lógica da sintaxe e procede por uma articulação rude dos elementos (abruptos), irredutível a qualquer juízo apodíctico. Trata-se de uma rebelião contra o sentido e contra a harmonia: "Do muito, a fogueira./ Carlinga, armadilha fortuita,/ a jugular da encina, o caniçal.// O trinco, o gonzo da dobradiça./ A veneziana clemente,/ ponto cardeal de jade./ A febre, a petrificação.// Um vau de sauna. Jato, poalha,/ cauda de candeio.// Fórceps e uma rajada gutural./ A gaze e a tintura./ Cauterizo a barragem/ da comporta."

O leitor em busca de belos poemas acha que tudo isto é estranho, áspero e o mais afastado possível de qualquer harmonia? Pois acha, e com toda a razão. Porque estes poemas são extenuantes, e o seu idioma constitui-se contra as linguagens do poético. Eles desfazem-se do belo como quem esconjura uma ameaça. E sem concessões quebram ferozmente a prosódia (triunfa uma aprosódia) e tomam o partido do ritmo: o sentido do poema é o seu ritmo staccato e não legato. As palavras são isoladas, autonomizadas, de modo a desarticular a estrutura métrica do poema, fazendo-a explodir em estilhaços até à paralisia não apenas prosódica mas também semântica. As grandes figuras de invocação da poesia de Joaquim Manuel Magalhães -o sentido, a lógica discursiva, o conteúdo pragmático do poema - são soberanamente liquidadas, sem complacências e com um esmero genial. Nenhuma doxologia se pode apoderar destes poemas, porque com eles não é possível qualquer relação afável e cordial. Antes tínhamos um estilo límpido e claro, que se afirmou contra hermetismos e formalismos? Agora temos um trobar clus, para pedirmos ajuda terminológica à poesia provençal. Estão-nos vedadas as paráfrases, proibida a possibilidade de dizer do que fala esta poesia, pois ela, como uma liturgia - a-teológica, senão mesmo teo-alógica -, torna radicalmente inoperante a linguagem da significação.

Esta desactivação da linguagem poética implica um trabalho ingente. É preciso interromper o poético (o grande inimigo da poesia, se assim nos é permitido concluir) e combater a idolatria que ele suscita. E esse desígnio passa por uma destruição da poeticidade espontânea da linguagem, o que supõe um trabalho estrito sobre a língua. Por isso, nesta ordem da justaposição em que consiste a parataxe dos poemas de Joaquim Manuel Magalhães, não encontramos nomes que geralmente consideramos belos ou musicais - são estranhos, esquisitos, e o bon goût da poesia tenderá a considerá-los uma barbaridade. Ainda por cima, são nomes concretos, e quase não há adjectivos, o que pode resultar em poemas como este: "O atoleiro lezíria./ Adereço contraplacado/ enodoa-se em telha, antena,/ bombazina, terilene,/ acrílico, pergamoide./ Necrotério sintético/ a camada residencial.// Penúria.// E um solavanco moço/ Motoreta de reboque,/ butano, encomenda,/ mercearia e recado." É bárbaro e resiste com tenacidade ao discurso do sentido? Pois é, respondemos nós, anestesiados pela beleza poética que nos decora o mundo e a vida, embalados pela estética da vogal e da eufonia. Tão imersa no concreto, esta poesia recusa as metáforas e as imagens, extenua-se a suprimi-las, já que estas são um veículo do espírito. Mas, se queremos sobreviver, não nos podemos instalar definitivamente e de maneira exclusiva por baixo de "Um Toldo Vermelho": a poesia anterior de Joaquim Manuel Magalhães continua disponível e serve-nos de vingança. É a guerra. António Guerreiro


Um Toldo Vermelho

Joaquim Manuel Magalhães

Relógio D'Água

2010

208 págs.

€15

Monodrama

Carlito Azevedo

Cotovia, 2010

152 págs.

€16

Poesia

Um livro que faz da realidade uma vertigem.

Após um longo silêncio de quase uma década, o poeta carioca Carlito Azevedo, responsável pela revista de poesia luso-brasileira "Inimigo Rumor" (a atravessar uma fase de hibernação, talvez definitiva), voltou a publicar um livro de inéditos: o magnífico "Monodrama", lançado agora pela Cotovia, menos de um ano após a edição original pela 7Letras. "Nenhum poema / é mais difícil / do que sua época", diz-se a certa altura, e estes poemas absolutamente contemporâneos, corpos em expansão que captam a violência espectral do Rio de Janeiro (uma rapariga coreana a injectar-se junto a um muro, o labor ostracizado dos imigrantes, a energia das multidões, a vigilância electrónica dos bancos, a ameaça do terrorismo, mas também o suave erotismo da pele "olhada / até à / incandescência" em hóteis manhosos), estes poemas absolutamente livres e fragmentários, não sendo mais difíceis do que a sua época, também não são mais fáceis, antes tentam fixar a complexidade fugidia de um "mundo com cara de Goya" e suas "imagens da pura / desconexão". Tudo se passa numa "espécie / de videostream", a linguagem como instrumento da vertigem, em "fluxos imparáveis" que aceleram e tornam ora mais nítida, ora mais embaciada, a percepção das coisas, seja uma silhueta diante da montra da confeitaria, o caos das discotecas, uma galinha "atada por um / barbante / apodrecido / a um / limoeiro / cintilante / de teias / de aranha", a "veemência de uns espelhos" ou um cachecol florido "a flutuar no céu por alguns segundos". Depois, no fim do livro, Carlito agiganta-se de vez ao falar da morte da mãe (com Alzheimer), numa extraordinária sequência de poemas intitulada "H.", para mim dos momentos mais altos da poesia em língua portuguesa escrita neste século. José Mário Silva


O Projecto Lazarus

Aleksandar Hemon

Civilização

2009

trad. de Isabel Alves

303 págs.

€16,50

Romance

Uma triunfante incursão no território instável entre ficção, história e autobiografia.

O impulso mais comum ao escrever sobre um livro de Aleksandar Hemon é começar por recitar os esplêndidos dados biográficos de Aleksandar Hemon: o professor bósnio, no que devia ter sido uma curta visita a Chicago, é surpreendido por notícias do cerco a Sarajevo e forçado ao exílio americano - onde aprende inglês lendo Nabokov e se transforma num escritor de sucesso. Quem cede ao impulso encontra alguma consolação no facto de o próprio Aleksandar Hemon demonstrar uma propensão equivalente para recitar os esplêndidos dados biográficos de Aleksandar Hemon, sujeitos a subtis variações ficcionais. Hemon pertence a uma corrente de não-ficção criativa (na qual também podemos incluir Sebald ou Geoff Dyer), que formaliza a sua impaciência com categorias estanques, produzindo obstinadamente obras tão híbridas que quase não cumprem os requisitos mínimos para serem consideradas romances. "O Projecto Lazarus" é um romance, à justa, mas o desvario metabiográfico persiste. O livro é o resultado de uma bolsa atribuída a Hemon pela Fundação MacArthur para escrever sobre o caso real de Lazarus Averbuch, um imigrante judeu russo assassinado pelo chefe da polícia de Chicago em 1908, no auge da histeria antianarquista contra os acólitos - reais e imaginários - de Emma Goldman. E conta a história de Vladimir Brik, um escritor bósnio radicado nos Estados Unidos, a quem é atribuída uma bolsa para escrever um livro sobre Lazarus Averbuch, etc. Brik e Rora, um amigo de infância, partem numa peregrinação documental à terra natal de Lazarus. Ambos representam dois modelos distintos da arte de contar histórias: Brik, a involução auto-reflexiva, a meditação lírica, a procura de esquemas simbólicos; Rora, o picaresco fatalista, a torrente inesgotável de anedota e peripécia. Juntos, desenham uma verdade difusa - a verdade das assimilações e exílios, histórias interrompidas e turismos identitários que constituem a experiência migratória, tantas vezes diferente da narrativa linear (dificuldades, superação e sucesso) representada pelo exemplo de Brik - e do próprio Hemon. E ambos conseguem produzir um pequeno milagre de ressurreição: a triunfante restituição narrativa de memórias esquecidas e vidas desperdiçadas. Rogério Casanova


Uma Palavra Tua

Elvira Lindo

Presença

2010

192 págs.

€14,50

Romance

Duas cantoneiras descobrem no lixo um objecto que mudará as suas vidas.

A primeira questão que ocorre ao leitor ao longo de todo o livro - o mais conseguido desta jornalista e escritora de guiões e livros infantis -é se a história destas duas cantoneiras é verosímil. Conhecem-se desde a escola primária, e o percurso das suas vidas foi-se quase irremediavelmente cruzando, quando nada o levaria a supor, ao longo dos 33 anos de vida da narradora, Rosário Campos, como se de uma maldição se tratasse. Nada faria prever que as trajectórias de vida da protagonista e de Milagros, a sua colega varredora, se sobrepusessem de modo tão peculiar. Rosário é profundamente insegura e persuadida da sua inelutável propensão para o fracasso, cresceu num quadro familiar pouco feliz (preferida do pai, que abandona o lar, preterida pela mãe em relação à irmã, que vive longe e que tem um emprego e uma família normal). Termina o ensino secundário e frequenta a universidade, mas por circunstâncias omissas, no início do romance, trabalha a limpar o escritório de uma agência de viagens. Milagros, colada à narradora como uma lapa, ridicularizada na escola e levada a fazer as coisas mais absurdas, a que acedia com um sorriso apalermado desde que se tornasse o centro das atenções, dedica-lhe uma amizade incondicional. Taxista sem carta de condução e depois cantoneira, decora a sua casa com objectos e fragmentos encontrados nos caixotes do lixo e parece não destoar das ruas que tem de varrer e dos bares baratos que frequenta. Mas Rosário não pertence a esse mundo. Tentou mais de uma vez ver-se livre da sua estranha amiga e manter-se no seu universo pequeno-burguês. Parece não prestar atenção nem à mãe, cuja decrepitude se acentua a cada página, nem a Milagros, incondicionalmente a seu lado, nem mesmo a Morsa, o motorista do camião do lixo com quem dorme ocasionalmente. Até ao dia em que encontram, ambas, algo valioso num dos caixotes de lixo de um parque e as suas vidas vão transformar-se por completo. "Não gosto da minha cara nem do meu nome", diz Rosário, e toda a sua luta consigo própria se resume nesta pequena frase. Incapaz de se aceitar, assumindo um profundo fracasso pessoal, a pergunta que a obcecava era "Porquê eu???" De repente, porém, algo acontece. E a repentina religiosidade de Milagros, vinda em directo de um Cristo fluorescente encontrado no lixo, encontra eco na nova perspectiva de Rosário sobre ela, a atrasada mental, atenuando a diferença entre ambas. Na aldeia da sua amiga e na companhia de Morsa, a sua vida passada e as razões de ser como era tornaram-se claras e compreensíveis para Rosário e - por extensão - para o leitor. No Evangelho está a chave: "Uma palavra tua bastará para curar-me." E, neste livro, a porta de acesso a um mundo que supera a ficção. Luísa Mellid-Franco


Origem da Tristeza

Pablo Ramos

Quetzal

2010

trad. de Margarida Amado Acosta

160 págs.

€16

Romance

Uma história a três tempos sobre a infância num bairro pobre de Buenos Aires.

Pablo Ramos não teve uma vida fácil, como aquelas que à partida sorriem e aconchegam. Filho de um emigrante siciliano, nasce em 1966 e vive a sua infância e juventude nos subúrbios de Buenos Aires, num ambiente em que reinava a exclusão social. Foi um homem de mil ofícios. O desamor, a dor, a cocaína e o álcool cruzaram-se com ele, mas não o mantiveram cativo. Libertou-se graças à literatura. Escrevia noite dentro, e as luzes que iluminavam a sua casa até de madrugada levavam os vizinhos a pensar que traficava droga. Quando o seu nome e fotografia saíram nos jornais, falando do escritor que despontava vindo do nada, todos ficaram estupefactos. Tornou-se uma lenda dentro do seu bairro. Cansado de tanta admiração, partiu para Salvador da Baía, terra de Jorge Amado. Não deve surpreender que toda a sua escrita, crua mas temperada com muito humor e ironia, em que se escutam ecos de Raymond Carver, seja cirúrgica, contundente e esteja marcada pela veracidade, pela experiência vivida na carne e pela viagem por regiões obscuras, percurso que, não sendo necessariamente confortável para o leitor, fascina e arrebata. Hoje, é considerado uma das vozes mais originais e vigorosas da literatura latino-americana. O seu primeiro romance, agora publicado em Portugal - "Origem da Tristeza" (2004) -, saiu um ano depois do seu livro de contos "Cuando lo peor haya pasado" (2003), obra aclamada e que o consagrou como contista. O romance tem como pano de fundo a década de 80, os piores anos da ditadura militar que assolou e arruinou a Argentina. Aqui, Pablo Ramos é simultaneamente escritor e narrador, pela voz de Gabriel, a personagem principal, um adolescente retraído, sensível e observador, que assume a versão ficcional do próprio Ramos (o seu alter ego literário), personagem que protagoniza peripécias e expedientes de uma infância difícil mas feliz, chegada ao seu termo. É, acima de tudo, o testemunho de uma dura realidade, com os seus demónios e esperanças, ternuras e violências. O seu romance seguinte, "La Ley de la Ferocidad", tem como ponto de partida o velório do seu pai e é uma obra que já é considerada como incontornável. O terceiro volume da trilogia vem a caminho.Vítor Quelhas


Footnotes in Gaza

Joe Sacco

Metropolitan

2010

432 págs.

€23,94

BD

Joe Sacco deambula pela Palestina, tentando reconstituir os massacres de 1956.

Várias reportagens depois, entre a Palestina, os Balcãs e o Iraque, não restam dúvidas sobre o facto de Sacco ser um jornalista, com a única peculiaridade de o seu modo de expressão ser a banda desenhada e não a reportagem escrita, a peça televisiva ou a rádio. Essa peculiaridade permite-lhe utilizar recursos pouco habituais nas reportagens, começando pelo tempo para prolongar a narrativa (permitido pelo suporte livro e sem a pressão dos deadlines jornalísticos) e pelo domínio da conjugação texto/imagem e das possibilidades da narrativa gráfica. Mas a estranheza ainda se insinua perante o resultado. No início de "Footnotes in Gaza", há um episódio que ilustra a indecisão do olhar sobre o trabalho do autor: Sacco está numa festa com vários jornalistas do mundo inteiro e explica a alguns camaradas a dificuldade de obter um visto de imprensa. As autoridades têm a mesma dificuldade em perceber que o seu trabalho é jornalístico e que um visto lhe é tão imprescindível como a qualquer dos seus camaradas. Apesar do presente, rico em histórias, ângulos e contextos (quase sempre pelos piores motivos), a nova incursão de Sacco por terras de Gaza, depois dos dois volumes de "Palestina", move-se pelo interesse em dois momentos passados. As footnotes do título são os massacres de Khan Younis e Rafah, em 1956, episódios quase desaparecidos dos registos históricos, que Sacco investigou nos arquivos disponíveis e que quis tornar claros, legíveis à luz da memória, através de contactos com pessoas que os viveram. Nessa procura de fontes, nem sempre compreendida pelos interlocutores, mais preocupados com o presente do que com a revisitação do passado, o jornalista regista uma fabulosa galeria de personagens, criando espaço para cada uma das suas narrativas e procurando guiá-las até à memória dos massacres de 56. Inevitavelmente, o presente não se afasta: a destruição de casas na Faixa de Gaza, o debate entre bombistas suicidas e activistas da causa palestiniana que preferem não dar pontos ao Exército israelita, a ginástica necessária para atravessar os postos de controlo ou os tiroteios nocturnos atravessam os dias de Sacco na busca de matéria para o seu trabalho. Para além de uma detalhada reportagem, cruzando as linhas de um passado que encontra demasiados ecos no quotidiano presente, "Footnotes in Gaza" configura uma profunda reflexão sobre o modo como a memória se imiscui ou se ausenta das narrativas individuais e colectivas. Umas vezes, esquecer é a única forma tolerável de enfrentar o presente. Outras, recordar é o primeiro passo para uma armadilha indefectível. Em Gaza, convivem as duas atitudes, sem fim à vista. Sara Figueiredo Costa

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