Critica de livros de 17 a 23 de Abril de 2010
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Luísa Amaral(www.expresso.pt)
17:30 Sexta feira, 16 de abril de 2010
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A vida, nos cálculos da governação
Definindo o paradigma biopolítico a partir das práticas de governação modernas, Foucault abriu um novo campo
Ao longo dos últimos anos, a noção de biopolítica impôs-se e adquiriu uma enorme capacidade interpretativa relativamente à matéria política com que estamos confrontados, obrigando à reformulação das categorias clássicas, particularmente as de soberania e democracia. Se não foi Michel Foucault a inventar o conceito, foi ele a requalificá-lo e a repropô-lo, com o efeito poderoso que é hoje bem evidente. Na origem, está esta célebre formulação que encontramos em "A Vontade de Saber" (1976): "O homem, durante milénios, foi sempre o que era para Aristóteles: um animal vivo e, além disso, capaz de uma existência política; o homem moderno é um animal em cuja política está em questão a sua vida enquanto ser vivo". O paradigma biopolítico que Foucault situa na modernidade - quando o bios, a vida enquanto tal, passa a fazer parte dos cálculos e dos mecanismos do poder e se dá aquilo a que o filósofo chama uma "estatização do biológico" - opõe-se ao antigo paradigma da soberania. É no século XVII que Foucault situa o momento de cesura entre os dois paradigmas, resumindo essa irredutibilidade numa outra fórmula célebre: "Poder-se-ia dizer que ao velho direito de mandar matar ou de deixar viver se substituiu um poder de fazer viver e deixar morrer" (o que é completamente compatível com o incremento do poder de morte; daí que se tenha chegado, já no século XX, à produção da morte em massa, nesses lugares onde se realizou uma biopolítica total: os campos de extermínio nazis.
As reflexões de Foucault sobre a biopolítica foram desenvolvidas (mas não concluídas) em três cursos que fez no Collège de France, entre os quais este (de Janeiro a Abril de 1979) que se chama "Nascimento da Biopolítica". O curso é todo ele dedicado ao liberalismo, na medida em que - e trata-se de uma importante tese - Foucault estabelece uma relação directa entre o liberalismo e o modo como os governos passaram a racionalizar e a enquadrar nas práticas governamentais, a partir do século XVIII, os problemas colocados pelos fenómenos relativos à população (a saúde, a higiene, a natalidade, o sexo, etc.). Antes, diz Foucault, havia sujeitos jurídicos aos quais se podiam subtrair os bens e a vida; agora, há corpos e populações que se tornaram objecto de poder. A vida entra no domínio do poder, o que é para Foucault uma das transformações mais importantes na história das sociedades humanas.
Para compreendermos as teses de Foucault sobre o liberalismo convém colocá-las no processo de afirmação da "governamentalidade" moderna descrito no curso precedente ("Sécurité, Territoire, Population"). O liberalismo é o sistema governamental que emerge da triangulação destes três elementos: população, economia política, dispositivos de segurança. Trata-se de uma tecnologia de poder (de facto, Foucault entende-o não tanto como uma ideologia mas como uma prática, como princípio e método do exercício da governação) segundo a qual o governo não deve afastar-se do jogo da realidade , tem de saber geri-la e regular, mas não invadi-la ou inibi-la. A razão liberal é uma "razão do Estado mínimo", uma "governamentalidade crítica", concentrada no problema do quantum e de como não governar demasiado, atravessada por uma atenção constante, quase obsessiva, à limitação de si mesma. Tal limitação não se dá na reivindicação de leis fundamentais ou de direitos naturais intocáveis, mas tem a sua lógica nos objectos que se movem no interior das práticas do governo, na necessidade de fazê-los funcionar segundo os seus princípios intrínsecos. Neste sentido, não é mau o governo que viole direitos ou abuse da sua força, mas aquele que tenha uma conduta inútil, desmesurada, excessiva, de modo a impedir a afirmação da prioridade do mercado. Na verdade, argumenta Foucault, é o mercado que determina que o liberalismo seja portador de uma racionalidade política radicalmente diferente daquela do paradigma do Leviathan hobbesiano. O mercado, que no pensamento liberal se substitui ao Estado como novo lugar de justiça e de veredicção, constitui em si uma resposta completamente diferente ao problema de como garantir a convivência pacífica dos indivíduos e o exercício da sua liberdade. A biopolítica moderna é a expressão de uma antropologia filosófica que deslegitima a imagem hobbesiana e faz emergir o homo oeconomicus. António Guerreiro
Nascimento da Biopolítica
Michel Foucault
Edições 70
2010
trad. de Pedro Elói Duarte, introd. de Bruno Maçães
452 págs.
€24,90
Correspondência 1959-1978 Sophia de Mello Breyner/Jorge de Sena
Correspondência 1959-1978 Sophia de Mello Breyner/Jorge de Sena
Guerra e Paz
2010
notas prévias de Mécia de Sena e Maria Andresen Sousa Tavares
3ª edição, com nove cartas inéditas
190 págs.
€16,50
Epistolografia
As cartas entre Sophia e Jorge de Sena.
Por norma, ler diários e correspondências é um pouco como espreitar pelo buraco da fechadura. Mas este é um caso excepcional - abrem-se portas para duas mentes brilhantes, geniais mesmo fora das respectivas obras. Este livro já esgotou duas edições em 2006. Regressa agora com mais nove textos que o enriquecem, e nos enriquecem. Independentemente do contexto e dos enquadramentos sociais, dos problemas políticos e financeiros, esta troca de cartas revela um relacionamento de primus inter pares. Sena e Sophia lêem-se um ao outro, criticam-se, ajudam-se mutuamente a crescer enquanto poetas. Diz-lhe ela: "'O Reino da Estupidez', de tão magnífico título, apesar de todas as páginas óptimas que tem, parece-me demasiado cheio de questões que afinal talvez não mereçam ser postas na sua obra. Valerá a pena você gastar tanta inteligência para explicar aos parvos que são parvos?" Reconhece ele, na carta seguinte sobre as narrativas breves que lhe enviou: "Também eu acho - com a ressalva de 'A Janela da Esquina', de que V. não gosta muito, e de 'Os Amantes' de que V. não gosta nada - que a 'Noite que Fora de Natal' é, dos contos que a Sophia conhece, o meu melhor." O Jorge de Sena orgulhoso e agressivo surge aqui humanizado, brando, a receber grato e respeitoso os comentários de Sophia. Ela, sempre discreta e distante, revela uma força e uma perspicácia inusitadas. Diz-lhe sobre o poema dedicado à Vila Adriana: "Creio que a beleza destes teus versos é serem uma construção de contradições, tão complicada e tensa que é milagre que se equilibre, mas que no entanto toma e retoma o seu fio, e, percorrendo todos os seus labirintos, regressa sempre ao interior de não sei que gruta povoada de ressonâncias. ... Como alguém que reconhece a ruína e constrói à sua roda o palácio." Discordam relativamente ao que é a poesia e a sua função, o que é a Grécia, como se fazem traduções. E, após a leitura destes confrontos de amigos, torna-se mais clara a prática, e a grandeza de cada um. É um privilégio podermos tê-los tido como interlocutores, pena seja que por tão pouco tempo, tão poucas cartas. Um livro extraordinário, a não perder. Helena Barbas
Jornalismo em Liberdade
João Figueira
Almedina
2010
260 págs.
€20
Ensaios
Seis entrevistas imprescindíveis.
A ideia é registar o percurso de seis profissionais que não só marcaram mas mudaram o jornalismo em Portugal depois de 1974. Uma escolha difícil e sempre passível de críticas: porquê seis e não cinco ou sete? E porquê este e não aquele ou mesmo aqueloutro? É certo que há nomes "imprescindíveis" - como escreve o autor, citando Brecht -, goste-se ou não, concorde-se ou não com os seus modelos e práticas profissionais. Outros haveria, provavelmente com direito a integrar a mesma categoria: Francisco Balsemão certamente, Vítor Direito com certeza, mesmo José Eduardo Moniz. A selecção de João Figueira, porém, é globalmente acertada e consensual. Francisco Sena Santos, com efeito, é nome obrigatório entre os homens do microfone. Como Vicente Jorge Silva o é na imprensa e Henrique Cayatte no design de jornais. Os outros três nomes estão todos eles ligados à televisão, ainda que com passagem por outros meios: Joaquim Letria (o mais multifacetado e maleável), Emídio Rangel e Maria Elisa. Não por acaso, estes três testemunhos são bastante mais autocentrados. Trabalho também académico, as entrevistas têm a mesma estrutura e respeitam a regra do bom senso ditada por Elisa, a de "respeitar o ritmo do pensamento" do entrevistado. Algumas ganhariam em ter sido melhor editadas, já que prevalece a oralidade - talvez porque, antes de saírem em suporte de livro, foram transmitidas na rádio pública. Sena Santos é quem produz uma reflexão mais autocrítica sobre a sua actividade profissional: "Ao voltar atrás, vejo tantas asneiras." Uma delas, tão comum (e tão preocupante), é o não saber "dosear a subjectividade". Infelizmente, há histórias que ficaram por contar - e a responsabilidade não cabe ao autor. Pelo menos Cayatte e Elisa furtam-se a entrar em pormenores sobre episódios de manifesto interesse jornalístico. Aliás, Maria Elisa, Joaquim Letria e Vicente Jorge Silva tiveram passagens pela política activa e é pena que quase as coloquem entre parêntesis. Nem todos pensam da mesma maneira, felizmente. Os percursos profissionais e empresariais de alguns deles chocaram-se, por vezes com fragor. As perspectivas quanto ao futuro não são coincidentes. Se Letria sentencia que "o jornalismo está no fim", outros sentem de modo bem diferente. A começar por Vicente, que continua a sonhar com uma revista que aposte na reportagem, que "é aquilo que faz mais falta"; e a terminar em Rangel, que sustenta, não sem exagero, que "os portugueses adoram informação". José Pedro Castanheira
Um Cesto de Cerejas - Conversas, Memórias, uma vida
Francisco Castro Rodrigues
Cotovia/Casa da Achada
2009
480 págs.
€22
Ensaio
Cerejas e arquitectura.
Este livro, com organização, introdução e notas de Eduarda Dionísio, constitui uma obra a um tempo invulgar, atraente e bela. Foge ao formato convencional de "livro de memórias", ou da "entrevista com autor", ou mesmo da autobiografia. Na verdade, sente-se, à medida que o lemos e vemos (é amplamente ilustrado), que é um trabalho a dois, de grande alegria e informalidade (mas contenção), com Castro Rodrigues a rememorar, ironizar e discorrer, e com Eduarda Dionísio a motivar, organizar, estruturar. Não deixa por isso de corresponder a uma obra rigorosa, muito bem documentada e anotada, onde ao interesse pela vida e obra do autor, passada fundamentalmente entre Portugal e Angola, se junta a do seu testemunho, alicerçado numa memória espantosa, dos últimos oitenta e tal anos de vida e acontecimentos no nosso país - com referências amplas e inúmeras, por vezes algo inesperadas, a personalidades, factos e locais, numa óptica original, personalizada e sempre muito viva. "Nascido e criado na Graça", "Fui sempre comunista", "Os meus princípios de Arquitextura" (sic) |- são exemplos dos vários capítulos, onde Castro Rodrigues narra a sua passagem pelos ambientes urbanos da Lisboa e Sintra nas décadas de 1930-40, até aos da cidade do Lobito, de que foi o dedicado e desinteressado arquitecto e urbanista, entre 1954-87. Afinal, o que temos aqui é um dos maiores arquitectos portugueses de Angola a contar-nos, afável e bem humorado, "como tudo se passou". José Manuel Fernandes
Fatias de lá
Cada uma destas histórias é um corte transversal da intimidade americana
Alguém disse que quando sonhamos todas as figuras somos nós mesmos. Quando um conjunto de personagens tem em comum certas angústias, é de supor que o autor conheça bem essas angústias. Se "Winesburg, Ohio" lembra aqueles quadros americanos de há cem anos, com imagens rurais em formas distorcidas, é porque foi nesse mundo que o autor cresceu e o seu ambiente emocional próprio tomou forma, independentemente do que sentiam os outros residentes. Nem todos seriam 'grotescos', na acepção em que o termo é usado no livro. A maioria seria gente perfeitamente banal. Mas desde que o autor definiu o seu registo, todos surgem com formas e cores compatíveis. Serve isto para dizer que "Winesburg, Ohio" não é um romance realista. É, no entanto, um romance da realidade, na medida em que o seu material são aqueles aspectos da vida raramente transfigurados por algum script trágico ou cómico: a incompreensão, a incapacidade de falar, a diferença entre expectativa e situação, a solidão. O velho adágio sobre as vidas de calmo desespero que todos levamos aplica-se aqui mais do que nunca. Seja um homem que prefere viver na companhia de personagens imaginárias (até ao dia em que surge alguém que as leva) ou uma mulher eternamente à espera de um regresso, nada aqui é plenamente consumado. A consumação possível está em ir embora. George Willard, o relativo protagonista - é ele o jovem repórter a quem os habitantes da pequena cidade contam as vidas - acaba por fazer isso, num dos poucos trânsitos positivos do livro. Chamámos-lhe romance. Na verdade, é tanto isso como uma colecção de contos, cada um centrado num determinado personagem. Há uma evolução que permite falar em romance - Willard avança em relação à maturidade, e há personagens que vão casando, partindo, morrendo - mas cada capítulo pode ser lido como uma história autónoma. Nalguns há apenas aquela tensão surda, caracteristicamente americana; outros têm desenlaces que lembram Dahl ("Solidão") ou até Boccaccio ("Respeitabilidade"), embora em negro. O primeiro é uma obra-prima sobre mistério e equívoco, e vários dos seguintes estão ao mesmo nível. No posfácio, John Updike refere a importância de Winesburg na literatura americana. Inspirado pela "Spoon River Anthology", inspirou por sua vez Faulkner e Hemingway. A distância maior, haverá nomes como o de Raymond Carver. Mas preferimos citar a peculiar sabedoria de algumas das personagens, como o inocente Tom Foster, que se embebeda para aprender o que é sofrer e diz um dia que "é bom ficar envergonhado, porque isso faz-me compreender coisas novas". Dostoievski não explicaria melhor. Luís M. Faria
Winesburg, Ohio
Sherwood Anderson
Ahab
2010
trad. de José Lima
254 págs.
€17,95
A Arte de Produzir Efeito sem Causa
Lourenço Mutarelli
Quetzal
2010
232 págs.
€15
Ficção
Romance brasileiro sobre as fronteiras entre a realidade e a loucura, à sombra de William S. Burroughs.
Um homem mergulha paulatinamente na loucura. Traído pela mulher e pelo seu melhor amigo, Júnior abandona Márcia e o filho de ambos, Caio, e regressa a casa do pai. Instala-se num velho sofá da sala e vai perdendo o pé. Cada vez mais ausente e desinteressado do mundo, divide os dias entre a cama improvisada, as idas ao bar e as conversas com a hóspede da casa, Bruna, jovem estudante de artes a quem o pai aluga um quarto. Quando uma série de envelopes estranhos começa a chegar pelo correio, cujas mensagens cifradas remetem para William S. Burroughs - o escritor beat norte-americano, autor da célebre frase "a linguagem é um vírus vindo do espaço" e que acidentalmente mataria Joan Vollmer durante uma brincadeira à Guilherme Tell -, a psicose de Júnior vai ganhando forma e a fronteira entre sanidade e loucura torna-se progressivamente mais ténue: "- É estranho. Outro dia eu falei com um tiozinho num bar e sabe o que ele falou? - Que tudo se repete? - Não, ele falou que a realidade não o convence. - Não vai me dizer que te convence? - Cada vez menos. Eu preciso ir. - Beleza." Autor de romances, mas também de banda desenhada, o paulista Lourenço Mutarelli ensaia em "A Arte de Produzir Efeito sem Causa" um estilo muito próximo de um argumento cinematográfico, com ênfase nos diálogos e esboço de ambientes que se limitam a enquadrar a progressiva afasia do protagonista, numa problematização da loucura mais próxima do grotesco e do absurdo do que da denúncia social (apesar do livro ser também o retrato de uma certa burguesia brasileira...). Distinguido com o terceiro lugar na última edição do prémio Portugal Telecom de Literatura (2009), o romance de Lourenço Mutarelli perde, porém, com o seu final naturalista, explicação desnecessária da deriva do protagonista - como se Franz Kafka, n' "O Processo", nos tivesse vindo explicar que, afinal, Josef K. fora preso por ter assaltado o banco. Ana Cristina Leonardo
A Flor Pisada
Leonid Andréev
Estrofes & Versos
tradução (do russo) de Monica Cozacenco
2009
92 págs.
€5
Contos
Duas histórias sobre o conhecimento doloroso da infância e da morte.
Conhecido sobretudo como dramaturgo, Leonid Nicolaevitch Andréev (1871-1919) foi também um excelente contista e um autor central do expressionismo na literatura russa. Se Tchekov era um mestre da contenção e da subtileza, Andreev seguia caminhos mais tortuosos, reflectindo com arrebatado ímpeto narrativo os aspectos trágicos da condição humana, quase sempre descrita como um inferno sem escapatória, que condena os protagonistas à miséria (física ou moral) e ao desespero. Os dois contos incluídos neste volume comprovam que a sua escrita era de um lirismo expansivo mas algo cru, como se a beleza tivesse que ter arestas afiadas, para magoar, para fazer sangue. "A Flor Pisada" é o relato de um episódio traumático da infância de Iura, rapaz de seis anos que pressente o terramoto invisível que dilacera a ordem familiar, antes e durante uma festa com músicos e lanternas coloridas no jardim. Agindo por instinto, ele prefere fingir que as ondas sísmicas do segredo descoberto por acaso (a infidelidade materna) não existiram e que a vida pode seguir o seu curso, apesar da intensa devastação psicológica. O contraste entre o universo mental de Iura - próximo das pequenas coisas que ficam rente à terra (a erva, as "lajes lisas e largas", uma pedra "aquecida pelo sol") - e o mundo gigantesco, misterioso, inacessível, opaco e ameaçador dos adultos, em que o pai parece ter dez metros e a mãe três, torna ainda mais pungente esta história sobre a perda da inocência. Se Iura sabe de menos, o Lázaro do segundo conto sabe demais. Após três dias na sepultura, ele regressa do Outro Lado, ressuscitando para uma vida que fica, para seu infortúnio, inapelavelmente contaminada pela experiência da morte. Tal como Iura se mostra confuso diante da violência oculta dos adultos, Lázaro é incapaz de lidar com o pasmo receoso de quem espera dele a revelação de uma verdade iluminadora. O que os seus olhos transmitem a quem se atreve a enfrentá-los (e são muitos: de Aurélio, escultor famoso, ao imperador Augusto) é um vislumbre do abismo das trevas eternas, do grande Vazio que tudo devora, e por isso ele não pode reaver o seu lugar entre os mortais. Mais do que salvá-lo, o nunca nomeado gesto de Cristo condenou-o a uma existência de resignada dissolução, a ser um foco de peste niilista, uma sombra perdida no deserto, arrastando sem esperança o seu "contorno negro" em direcção ao "fundo vermelho" do crepúsculo (como as personagens secundárias da tela "O Grito", de Edvard Munch). José Mário Silva
Manual da Escuridão
Enrique de Hériz
D. Quixote
2010
trad. de J. Teixeira de Aguillar
436 págs.
€20
Romance
Uma obra tão surpreendente como a magia que atravessa as suas páginas.
Este romance é fabuloso pelo menos por duas razões: por ser uma fábula cheia de encanto e por ser notável do ponto de vista narrativo. Percorre com invulgar mestria alguns recantos obscuros das últimas décadas do século XIX, tempos raros em que os mágicos e o ilusionismo (como o do fantástico Houdini ou o de Harry Kellar, uma das personagens deste livro), se entrecruzava com a ciência positivista e as manifestações (sobre)naturais do metapsiquismo espiritista, criando a sensação de que a fronteira entre realidade e ilusão, e até entre vida e morte, tinha sido definitivamente desafiada e abolida. "Manual da Escuridão" conta a história, num registo de pura ficção, de um mago, Víctor Losa (que nutre uma paixão absoluta pela magia, mas que se confronta com uma cegueira progressiva cuja escuridão se identifica com o perigo da perda de identidade; uma semelhança com Saramago, que se questiona, em "Ensaio sobre a Cegueira", se será preciso ficarmos cegos para vermos realmente o que somos), e do seu mestre nas artes do ilusionismo, Mário Galván (que mais do que um professor, é um verdadeiro iniciador que traça um percurso iniciático ao seu aluno), assim como das peripécias do espectáculo e da competição teatral, nem sempre escrupulosa, entre mágicos famosos da época. O livro já seria bastante cativante se apenas disto tratasse, mas Enrique de Hériz quis ir mais longe no desafio aos seus leitores, colocando-os perante a própria natureza do romance, através da aproximação entre efeito de ilusão e ficção literária, em que o leitor aceita tacitamente ser "enganado" pela verosimilhança com que o autor conta a sua história, que parece real mas não é. Pontos comuns, assinalados por Hériz: tanto a ficção literária como a ilusão do mágico, para serem "perfeitas", exigem um rigoroso trabalho de oficina, que toca, como em toda a boa arte, o mais criativo virtuosismo, do qual está excluída a banal manipulação do espectador ou do leitor. Cinco anos depois de ter publicado o seu terceiro romance, "Mentira" (história de uma família e das suas mentiras, contos e lendas, ou de como toda a nossa vida pode não passar de uma ficção), "Manual da Escuridão" (2009) consagra o catalão Enrique de Hériz como uma das vozes incontornáveis da literatura de hoje. Vítor Quelhas
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Palavras-chave Cartaz, Cultura, Lazer, Programação, Tempos livres, Leonid Andréev, Lourenço Mutarelli, Sherwood Anderson, Francisco Castro Rodrigues, João Figueira, Sphia de mello Breyner, Michel Foucayly, Jorge de Sena, Enrique de Hériz |
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