25/05/2012 atualizado às 0:15

Critica de cinema de 2 a 9 de Abril de 2010

Luisa Amaral
17:30 Quinta feira, 1 de abril de 2010
A gaiola do meu lar 

Chegam às salas dois dos filmes portugueses mais importantes de 2009: "Ruínas", de Manuel Mozos e "Canção de amor e saúde", Curta de João Nicolau.

Ainda não tínhamos reparado no cartaz de "Ruínas" que anda aí colado pelas paredes, um pouco por toda a Lisboa. Não procurámos saber se esse cartaz só agora foi feito (para a estreia), nem isso interessa. É um cartaz muito bonito. Tem uma rosa dentro de uma gaiola, e a gaiola tem a forma de um coração. O documentário de Manuel Mozos chega às salas depois de ter vencido a Competição Nacional do IndieLisboa, de um prémio no FID Marselha e de um grande périplo pelos festivais internacionais. "Ruínas", como já se escreveu, "são fragmentos de espaços e de tempos, restos de épocas e de locais onde apenas habitam memórias e fantasmas." O filme arranca com a implosão das torres da Torralta, em Tróia, e vai depois fixar fábricas, escolas, barragens, salas de teatro e de cinema (o Parque Mayer) e outros locais abandonados de Norte a Sul do país. Mas esses fragmentos de imagens são em simultâneo assombrados por novos encontros, que vêm da banda sonora. Mozos reuniu audiotextos tão inesperados como este filme o é: testemunhos bombistas dos anos 30, cartas de Cavaleiro de Oliveira do século XVII, receitas culinárias dos Makavenkos, poemas de Ruy Belo e Pascoaes, manuais de etiqueta e sebentas de ciências naturais do ensino primário do Estado Novo. "Ruínas" torna-se por tudo isto uma experiência alucinante, sobrenatural, sobre as memórias de Portugal e dos seus vestígios. Mas é ainda - e só o cartaz nos fez pensar nisso - um filme profundamente romântico, consciente de todas as stories que perdeu, tal como a daquela Henriqueta Emília, abandonada pelo pai, órfã de mãe, e com existência rodeada de mistérios.

A completar a sessão, também produzido pela O Som e a Fúria, passa "Canção de Amor e Saúde", curta de João Nicolau, estreada em Cannes. Venceu depois a Competição Nacional em Vila do Conde. Traz um false true lover chamado João (papel de Norberto Lobo), que também dá pelo nome de Jimmy Grove, herói de uma balada folk de Shirley Collins. João procura a sua cara-metade enquanto trabalha na loja de chaves de um centro comercial fantasma. A cara-metade exige obsessão pela simetria. E uma 'chave perfeita', que o filme constrói e utiliza para viajar no espaço e no tempo, igualmente românticos. Francisco Ferreira

Canção de Amor e Saúde

de João Nicolau

(Portugal/França)

com Norberto Lobo, Marta Sena


Ruínas

de Manuel Mozos

(Portugal)

Documentário

M/12

ESTREIAS
Um Cidadão Exemplar

de F. Gary Gray

(EUA)

com Jamie Foxx, Gerard Butler, Colm Meaney

Thriller

M/16

Um homem a quem mataram a família decide fazer justiça pelas próprias mãos, vingando-se do assassino com requintes de sadismo. Encarcerado numa prisão de alta segurança de Filadélfia, continua o seu plano. E torna-se num inimigo público.

F. Gary Gray fez clips incríveis para Ice Cube e para os Cypress Hill mas, no cinema ("Be Cool", "Um Homem à Parte"), ainda não convenceu. Contudo, há ali qualquer coisa. Gostamos do desembaraço do nova-iorquino. Do lado desportivo das suas rodagens, que devem ser divertidas. Jamais o colocámos de parte e continuamos à espera de um grande filme. "Um Cidadão Exemplar" ainda não chega lá mas é um thriller decentíssimo, escrito a cem à hora, e traz-nos um Jamie Foxx, impecável como sempre, na pele de um polícia de Filadélfia com caso bicudo nas mãos. Ele investiga o caso de Clyde (Gerard Butler), génio do high-tech e psicopata maquiavélico que elabora com minúcia um plano para se vingar, não só do assassino que lhe matou a família, mas de todo um sistema jurídico americano que ele vai conseguir chantagear a partir da prisão. Há cenas de tortura a roçar o gore (fica o aviso), ideias estrambólicas, bastante espalhafato, mas Foxx está sempre em todo o lado, a equilibrar as coisas, a organizar o caos, a marcar um sentido de ritmo, endiabrado e contagiante. Decentíssimo filme, repetimos. F.F.


Desconfia dos Teus Vizinhos

de Breck Eisner

(EUA)

com Timothy Olyphant, Radha Mitchell

Horror

M/12

Uma tóxina misteriosa espalha-se na água de uma pequena cidade americana, levando os seus habitantes à loucura e à morte. Apenas um casal consegue escapar.

"The Crazies" é o nome de um série-B magnífico de George A. Romero, feito em 1973, poucos anos depois dos famosos mortos-vivos. O filme contava a história de uma arma biológica secreta (destinada ao Vietname, era mais que certo...), mascarada de vírus letal, que contagiava uma pequena comunidade americana. Os seus habitantes enlouqueciam e o exército, que impunha lei marcial à cidade, acabava por exterminá-los em nome de um poder mais louco ainda. No filme de Romero, a doença estava na avalanche da montagem. O mal era a imagem em si, rebentava sem explicação. Quanto a este remake (produzido pelo próprio Romero), que mantém intactas algumas situações do filme matriz (o homem que deita fogo à casa com a família lá dentro, por exemplo), limita-se a deitar personagens fora (a do cientista que procura a vacina) e a reduzir o casal de fugitivos aos clichés do horror movie mais grotesco. Mais: termina, de forma pateta, com a ameaça (nuclear) que pairava sobre o filme dos anos 70 e sobre a Guerra Fria. Hoje, a mensagem não faz qualquer sentido. Faça um favor a si próprio: fuja do remake e veja o original.F.F.


Um Lugar Para Viver

de Sam Mendes

(EUA/Reino Unido)

com John Krasinski, Maya Rudolph, Catherine O'Hara

Comédia Dramática

Burt e Verona vivem juntos e vão ter um filho em breve. E decidem procurar o sítio certo para morar...

Há um tom a roçar o burlesco no périplo de Burt e Verona em busca de um sítio propício para constituir família, ver os filhos crescer, trabalhar, envelhecer. E começam a ver onde moram os amigos e familiares perto dos quais gostariam de estar. Todavia, pouco a pouco, esse périplo torna-se um desfilar de angústias e aquilo que parecia ser uma procura quase infantil torna-se progressivamente patético - quase, quase no limiar do desespero. Todavia, o sorriso cúmplice do espectador nunca se apaga por inteiro, mercê de um equilíbrio de clima dramático que Sam Mendes consegue executar num difícil exercício. E se "Um Lugar para Viver" não atinge os cumes de "Beleza Americana" ou de "Revolutionary Road", não justificando, portanto, hossanas nas alturas, a verdade é que este filme consegue uma estratégia de nos conduzir, de surpresa em surpresa, pelas vielas das almas feridas com uma efectividade dramatúrgica que convém sublinhar.Jorge Leitão Ramos


Morte no Deserto

de Jeff Beasley

(EUA/Reino Unido)

com Wes Bentley, Christian Slater

Thriller

M/18

Um jovem professor de Las Vegas vê a namorada ser assassinada por um mafioso que trafica mulheres na fronteira entre o México e os EUA. E jura vingança.

O pesadelo é todo amarelado. Vem das cores daquele deserto em que uma professora, que monta a cavalo na fronteira entre os EUA e o México, vê um tal de Dolan, mafioso ligado ao tráfico de mulheres, abater uns tipos a sangue frio. Depois, Dolan, que tem um Cadillac à prova de bala, mata a professora. O namorado desta, que também dá aulas, procura vingança. Compra uma pistola que parece um canhão. Pensa no "Dirty Harry." Mas a sua queda para justiceiro não é imediata. "Morte no Deserto" não é apenas a pior adaptação de Stephen King alguma vez feita. É o pior filme do ano. Quer ser sádico mas não passa do ridículo, nem nos esgares caricaturais de Slater. Como é que um desastre tamanho consegue chegar às salas?F.F.

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