24/05/2012 atualizado às 20:12
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ANÁLISE

Crise financeira: empate entre Washington e Davos

Obama aprovou o pacote de 819 mil milhões de dólares sem um único voto dos republicanos e a Reserva Federal dá mostras de não ter mais armas convencionais para combater a crise de crédito. Entretanto a fina flor da globalização reunida na Suíça recebeu Wen Jiabao como vedeta e Soros clamou por um novo sistema financeiro.

Jorge Nascimento Rodrigues
14:42 Quinta feira, 29 de janeiro de 2009

Ainda não foi esta semana que a bomba nuclear dizimou a crise. A reunião do comité dos doze da política monetária da Reserva Federal norte-americana (FOMC, acrónimo para Federal Open Market Committee) decidiu manter as taxas de juro no nível próximo de zero em que já estavam e a nova Administração Obama conseguiu aprovar na Câmara de Representantes um primeiro pacote de "salvação nacional" de 819 mil milhões de dólares (623 mil milhões de euros), que seguiu agora para discussão no Senado norte-americano.

Foi a primeira reunião do FOMC presidida por Ben Bernanke no período de coabitação com o novo presidente Obama que irá durar até 2010, quando o chefe da FED terminará o mandato. Ficou claro que a Reserva Federal esgotou o seu arsenal de "armas convencionais" e Obama não conseguiu um único voto republicano na Câmara.

As vedetas de Davos

Entretanto na cidade alpina suíça de Davos, no Fórum Económico Mundial, o primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, foi a principal vedeta para os 2500 participantes e o líder russo Vladimir Putin exigiu a saída da dependência do dólar e a criação de um novo sistema diversificado de divisas. O investidor George Soros acusou o sistema financeiro de ser disfuncional e pugnou por um totalmente novo.

Jiabao acenou à fina flor da globalização com o seu programa de investimentos públicos de 440 mil milhões de dólares (334 mil milhões de euros) e zangou-se com as acusações de manipulação cambial (mantendo o yuan artificialmente subvalorizado) por parte dos americanos que, ao fim e ao cabo, vivem dos chineses comprarem fielmente os títulos do Tesouro do Tio Sam. Cão que morde a mão do dono não tem perdão.

Neste empate entre Washington e os novos senhores de Davos, a crise continuou com o seu rol de desgraças. Quase 100 mil novos despedimentos numa só semana em nomes sonantes de multinacionais. Soube-se, agora, que em 2008, o rombo nos fundos de pensões empresariais foi de 5 biliões de dólares (3800 mil milhões de euros) só nos EUA, Japão, Reino Unido e Holanda.

Milhões sem efeito

A Reserva Federal (FED) parece querer passar, agora, ao recurso às armas "não convencionais" para atacar a crise de crédito que subsiste. A manipulação das taxas de juro chegou, de facto, ao limite, estando numa banda entre 0% e 0,25%. O Plano Paulson (conhecido por TARP), as intervenções directas no mercado por parte do FOMC e as garantias dadas pela Federal Deposit Insurance Corp (FDIC) somaram em 2008 um montante de 8,5 biliões de dólares (6500 mil milhões de euros), quase 60% do PIB americano.

Contudo, o crédito continuou a não chegar à economia real e a ameaça dos activos tóxicos permanece - ao fim e ao cabo os problemas que provocaram a crise desde meados de 2007. Um custo inglório que implicou que a dívida do Tesouro americano ascendesse a 5,5 biliões de dólares (4200 mil milhões de euros), quase 40% do PIB do país. E, segundo a Goldman Sachs, com as intervenções adicionais ainda durante este ano fiscal, poderão somar-se mais 2,5 biliões (1900 mil milhões de euros).

Um relatório divulgado esta semana pelo Fundo Monetário Internacional (Global Financial Stability Report) revela que, para 2009 e 2010, só o sistema bancário americano vai necessitar de pelo menos mais 500 mil milhões de dólares (380 mil milhões de euros) para evitar que a actual situação se deteriore.

Armas nucleares

Os rumores em Washington apontam para que alguma arma nuclear seja usada a breve trecho. Fala-se da criação de um banco público para recolher, de vez, todo o lixo tóxico existente nas contas do sistema bancário - o mercado já o baptizou de "bad bank". A ideia concorre com outra mais extravagante, a de nacionalizar todo o sistema bancário, e com a reclamação por muitos analistas anti-intervencionistas de se deixar cair o que está podre, de se deixar de injectar mais "morfina" e permitir aos investidores criarem novos bancos de raiz.

A opção do "bad bank" também já foi referida na Alemanha, onde o "lixo" tóxico no sistema bancário poderá atingir 1 bilião de euros (1000 mil milhões). Na Europa esse montante deverá chegar aos 4,8 biliões (4800 mil milhões)

A segunda arma nuclear que atemoriza alguns analistas americanos é a da chamada flexibilização monetária quantitativa ("quantitative easing", no original). Um dos doze do FOMC, que votou contra a resolução desta quarta-feira, era já por uma opção desse tipo. Esta solução poderá levar a uma "bolha" em torno dos Títulos do Tesouro de longo prazo, o que poderá gerar um novo ciclo vicioso em 2010 ou 2011. Bernanke frisou no comunicado do FOMC que a FED deitará mão a essa ferramenta "se as circunstâncias indicarem que tais transacções seriam particularmente eficazes".

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