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"Cosmopolis" de Cronenberg, o filme da crise

David Cronenberg mede o pulso ao mundo com uma fábula impiedosa sobre o capitalismo.

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Robert Pattinson em "Cosmopolis", de David Cronenberg

Cannes 2012 é um festival de filmes de crise em tempos de crise. Disso fala também "Cosmopolis", de David Cronenberg, adaptação ao cinema do premonitório livro que Don DeLillo escreveu em 2003, antecipando os problemas económicos com que o mundo se depara nestes dias. O filme estreia esta noite, em Cannes.

A personagem principal de "Cosmopolis", Eric Packer (Robert Pattinson), caprichoso golden boy de Wall Street, decide atravessar de limusina uma Nova Iorque paralisada por engarrafamentos e estranhas manifestações revoltosas. O presidente americano está de visita à cidade, acabou de morrer um famoso ídolo pop (um rapper sufi cujo enterro se vê na TV), as ruas estão a ferver: a atmosfera é apocalíptica. Packer tem 28 anos. A sua vida é uma cápsula virtual.

Queda no abismo


Nas 24 horas em que a acção decorre, Packer perderá contudo toda a fortuna. Apostou contra uma moeda asiática que não pára de subir na bolsa. Dentro da limusina, Packer vive num mundo controlado e insonorizado. É na limusina que ele recebe a amante do costume (Juliette Binoche), a visita do médico para o check up diário, uma fiel colaboradora na bolsa e ainda outro analista dos impérios da finança que o prepara para o descalabro.

É da janela da limusina que ele encontra por acaso a mulher com quem tem casamento marcado (Sarah Gadon), também presa nos engarrafamentos, dentro de um táxi. E será também de limusina que Packer chega ao local onde se confrontará com Benno Levin (genial papel de Paul Giamatti), um ex-empregado de Packer que entretanto chegou ao fundo do poço e já não tem nada a perder. Se Packer é um capitalismo sobre rodas seriamente ameaçado por doença mortal, Benno é, em simultâneo, o seu oposto e o seu misterioso duplo. Chega a hora de saldar as dívidas.

Filme para dividir


Com "Cosmopolis", Cronenberg teve que enfrentar várias dificuldades. Conseguiria ele adaptar ao cinema a prosa cerebral de DeLillo, num dos seus livros mais herméticos? Resolveria com eficácia problemas de mise en scene num espaço tão concentracionário como uma limusina, onde grande parte do filme decorre? Levaria a bom porto a aposta em Robert Pattinson (que está em praticamente todas as cenas do filme), um ídolo de adolescentes da saga "Twilight" e de um cinema comercial que nada tem que ver com o do realizador canadiano?

Começamos a responder às respostas por Pattinson, que sai incólume. Para o ator britânico, este é o filme de uma viragem de percurso, "numa fase da minha vida em que vou ter que fazer opções e testar-me enquanto ator" - foi Pattinson quem o disse na entrevista com o ator britânico que o Expresso publica amanhã.

Em relação ao resultado do filme, "Cosmopolis" está destinado a dividir. Cronenberg foi fidelíssimo à matéria literária, há diálogos de DeLillo vertidos palavra por palavra e, num espaço tão cerrado, dificilmente se conseguiria filmar o texto (que é abundante) sem recorrer ao uso de campos-contracampos. Na conferência de imprensa desta manhã, o realizador canadiano pareceu antecipar-se às vozes que logo sugeriram que este filme, "necessariamente um mutante híbrido do livro" (Cronenberg), tende para uma versão teatral.

Cronenberg recusa essa aproximação: "para mim, um rosto que fala é ainda a essência do cinema. E o cinema está nas opções de luz, na escala dos enquadramentos, na intenção dos movimentos da câmara, por isso não há nenhum teatro aqui."

Já Pattinson, que deixou a sala a rir ao afirmar que "a interpretação não é suposta ser uma coisa inteligente", sublinhou a entrega total ao método de trabalho do cineasta. Pattinson não tem um papel fácil. A sua personagem passa pelas sevícias de um médico que, de dedo em riste, lhe toca na próstata assimétrica (Cronenberg não abandona a 'assimetria' do seu ponto de vista sobre a sexualidade). Passa pela humilhação de um manifestante irado (aparição de Matthieu Amalric) que lhe atira uma tarte à cara. Tudo se abate sobre a personagem (até uma cena de automutilação), que é carrasco e vítima do mundo que criou. Cronenberg insistiu depois num ponto: "Eric Packer não simboliza o capitalismo. Não simboliza nada além do ser humano que é".

Palavra versus ação


"Cosmopolis" é um dos filmes a concurso mais desafiantes de Cannes e a sua proposta é nova em Cronenberg: neste thriller, é a palavra, e não o movimento, que assume a responsabilidade da reflexão. Neste ponto, "Cosmopolis" é quase o inverso de "Crash". Porém, é sobretudo dessa fase de Cronenberg que nos lembramos. Ambos os filmes partilham a mesma visão patológica, mórbida e cruel do mundo contemporâneo. As mesmas pulsões autodestrutivas e o mesmo sacrifício do corpo humano perante o tempo que o rodeia. Ambos partilham, ainda, uma 'ironia da catástrofe' - e a ironia é talvez a única coisa que ainda resta.

Por falar nisso, é irónica a coincidência de "Cosmopolis" com "Holy Motors", a obra-prima de Leos Carax (é a nossa Palma de Ouro) que Cannes exibiu há dois dias. No início do filme de Cronenberg, Eric Packer pergunta-se: "onde será que estacionam todas estas limusinas de Nova Iorque?" O que é curioso é que, em "Holy Motors", onde as limusinas têm também um papel preponderante, Carax responde a Cronenberg. Aqueles bólides infernais que Cannes tanto aprecia estacionam numa garagem que só se pode chamar cinema.


Cosmopolis de David Cronenberg Competição




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Edição Diária 17.Abr.2014

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