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| Jermaine Jackson, irmão de Michael Jackson |
| Herwig Prammer/Reuters |
A empresa World Awards Media GmbH conseguiu o maior golpe mediático do ano ao garantir a organização de um homenagem musical exclusiva a Michael Jackson.
Jermaine Jackson, o irmão que continua a tentar relançar a carreira desde que a morte de Michael Jackson lhe garantiu um lugar no palco do Staples Center, garantiu a sua presença porque, segundo ele, "o Michael sempre gostou de castelos".
O concerto vai ter lugar no palácio de Shoenbrunn mas a gerência da World Awards ainda só conseguiu improvisar que a lista de cantores será extensa.
A World Awards Media deu ao evento um carimbo imediato de autenticidade, num momento em que, devido ao vendaval mediático, o nível de autenticidade nem sempre tem sido constante nos noticiários que se seguiram ao falecimento chocante de Michael Jackson.
Manobra global
A World Awards Media tem sede em Viena mas, de acordo com informação disponível no site da companhia, mantém-se igualmente representada por escritórios em Nova Iorque. A companhia garante que pode talhar qualquer espectáculo de prémios às necessidades dos clientes.
Pela sinceridade do texto que acompanha as fotos, fica a impressão de que a companhia está mesmo no início e que se mantém aberta a qualquer tipo de ofertas. Os espectáculos são financiados por Christian Baha, da Superfund, uma companhia promovida como sendo o futuro no mundo dos investimentos e, alegadamente, com escritórios em várias cidades estrangeiras conhecidas pelo secretismo das leis bancárias.
A World Awards Media é detida por Georg Kindel, um organizador de cerimónias triunfais em que gente famosa é homenageada ou agraciada por motivos nem sempre muito claros. Georg Kindel é o tipo de empresário que, como se pode ver no seu currículo, consegue sentar numa mesa de banquete, lado a lado, Mikhail Gorbachev, o homem que pôs um ponto final no império soviético, e a actriz americana Teri Hatcher, da série "Superhomem" e "Donas de Casa Desesperadas".
Caridade com cachet
Georg Kindel escreveu um livro chamado "O Homem", em que tenta discernir os males da humanidade de maneira a poder encontrar soluções. Embora a crença numa raça superior não seja estranha aos visionários austríacos, Kindel conseguiu pegar numa fórmula mediática perfeita: vender as boas intenções com a cara dos famosos.
As datas das cerimónias, essas, já estavam no calendário: muitas delas, aliás, já são feriados observados internacionalmente. Para o prémio internacional dirigido ao sector feminino a ideia é, aparentemente, escolher uma mulher líder que mais tem feito pelo avanço de uma causa meritória (o que torna ainda mais intrigante a presença de Bianca Jagger no palco a receber uma estatueta).
Woopi Goldberg e a Susan Sarandon já compareceram às galas austríacas de Georg Kindel, elas e todos aqueles que seguem a rota das celebridades controversas que não têm medo de falar em nome dos refugiados haitianos. O prémio deste ano foi entregue no fim de um enorme tapete vermelho, no Dia Internacional da Mulher. Até a câmara municipal de Viena se faz representar.
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| Georg Kindel |
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Em cerimónia separada, Georg Kindel atribuiu o prémio de Homem do Século XX a Mikhail Gorbatchev, outra vez conjugando a História e a fama de maneira a poder chamar atenção para a sua produção televisiva. O ex-Presidente soviético tem, de facto, sido mencionado como relevante na difusão da Perestroika e de muitos movimentos democráticos que daí despontaram, mas a sua escolha como Grande Arquitecto da Ordem Mundial enaltece, outra vez, um certo umbigo europeu que já caiu em desuso. Há quem pense que o grande arquitecto da ordem mundial é Steve Jobs, embora esse não esteja tão disponível para ir a Viena receber prémios.
Mikhail Gorbatchev pode ser visto actualmente a posar ao lado do muro de Berlim nos anúncios da Louis Vuitton. É um nome que continua a atrair anunciantes e, por isso, compreende-se que tenha sido chamado a patrocinar um galardão que o promove a ele próprio.
Empreendedores de todo mundo, uni-vos!
A série de prémios imaginados por Kindel tanto pode promover a mulher do ano - Oprah Winfrey faz parte da lista - como o benfeitor mais iconoclasta, caso de Richard Branson, dono do grupo Virgin. Não admira que Georg Kindel não seja bem visto por toda a gente, dada a filosofia mercantil nas entrelinhas, segundo a qual o homem superior está mesmo ao virar da esquina, bastando-lhe trabalhar mais um pouco para ser respeitado.
Do ponto de vista empresarial, Kindel sabe que está apenas a vender um produto: fama por via televisiva e apresentada num palco cheio de vedetas mais fotografadas do que realmente conhecidas do grande público. É entretenimento simples, embora com aspecto de gala fantástica.
Nada tem a ver com a promoção do bem geral ou daquilo que é melhor para o Planeta. Richard Branson, por exemplo, pode ser um magnata cheio de imaginação para desenhar cabines de classe affairs mas, por mais que se deixe apanhar pelos fotógrafos na ilha privada não ficou ainda determinado se a sua frota de aviões poluentes beneficiam ou causam dano à raça humana.
Numa era em que qualquer actor tem uma pet cause, a filantropia adquiriu cachet. Os orangotangos da Papua já tiveram como porta-voz a actriz Julia Roberts. Vanessa Redrave já gritou pelos palestinianos. Agora, chegou a vez de Georg Kindel tentar capturar o valor internacional de Michael Jackson.
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| Interior do palácio de Schönbrunn |
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Viena, capital da música ubber alles
Que outra coisa podia melhorar ainda mais o cenário? Melhor ainda que organizar um mega concerto no qual se colou o nome Michael Jackson e o aval do irmão Jermaine? Um concerto no qual poderão estar presentes Madonna e Whitney Houston, drop dead divas que nunca se importam quando alguém lhes oferece mais uma plataforma pública? Sim, melhor ainda que isso tudo.
Da cartola, Georg Kindel tira um milagre enorme: o adeus a Michael Jackson vai ter lugar no maior palácio da música situado na capital mundial da música. A homenagem ao músico mais popular dos tempos modernos vai ser transmitida directamente de Viena, como nos concertos de Ano Novo que tanto dinheiro trazem à economia local. Outras cidades - Londres, Paris e Roma, entre muitas - ficaram desconsoladas com a escolha que os Jackson fizeram.
Num palco em forma de coroa, a música de Michael Jackson irá ter como fundo o trabalho barroco original que é a arquitectura do palácio de Shoenbrunn, o mais sumptuoso de todos aqueles que adornam as belíssimas capitais europeis e que, em imponência, apenas é rivalizado no resto do mundo pelo palácio imperial de Tóquio.
De certa maneira, Michael Jackson vai poder, finalmente, ascender a um certo trono tradicional onde tem reinado o génio da música. O século XVIII não ia no fim e já os jardins e as paredes de Schoenbrunn tinham tido como músicos residentes Christoph Gluck e Wolfgang Mozart. A conquista de Viena significa, para os herdeiros de Michael Jackson, um conto de fadas nada fictício. O lugar tem por hábito patrocinar música que ninguém se cansa de ouvir ao longo dos tempos.
O grupo de activistas políticos Resistance For Peace, baseado na Áustria, emitiu um comunicado pedindo que a gala festiva seja boicotada. Alegam que por causa do seu envolvimento em escândalos sexuais protagonizados por menores, a promoção da imagem de Michael Jackson cria para a cidade de Viena um dilema ético.