O estranho síndrome que avassala o país, ameaçando convertê-lo em breve num reino angélico, exprime-se nesta declaração, "Estou de consciência absolutamente tranquila", debitada por um número crescente de cidadãos acima de qualquer suspeita. Poderão cair as pontes, abrir-se-lhes aos pés o boqueirão da bancarrota, ou arderem as florestas que lhes asseguram a respiração, e os imaculados portugueses, de papinho cheio, e com os dedos entrelaçados sobre ele, ressonarão pacificamente como impávidos bonzos. Não haverá outra raça assim, tão pachorrenta, e tão conciliada com as intercadências do coração, que repouse de maneira igual, e contra ventos e marés, suavemente iluminada pelos esplendores da luz perpétua.
Uma nação de consciência tranquila nada deve, seja a quem for, procedendo na base de duas sólidas certezas, a de possuir consciência, e a de se achar esta tranquila, como se navegasse num infinito mar de azeite, preservado da turbulência das borrascas. Por isso é que quanto mais graves se mostram as faltas de que os acusam, e mais pesadas as sanções que as mesmas acarretam, mais os lusos atestam a sua intangível placidez. Quando não o fazem, eis que fogem, sempre inocentes, para o Brasil, para o Reino Unido, ou para parte incerta, impulsionados por essa espécie de delírio divagante que constitui, também ela, patológico sintoma colectivo.
Que ninguém se agite pois na fúria dos elementos em que aparentemente nos debatemos, assistidos como estamos, todos nós, pela alvura das asas com que a Providência nos dotou. Se em algum momento nos assaltar a tentação do pânico, da desistência, ou da descrença no futuro, lembremo-nos da fase célebre de um famoso almirante, arengador das massas, e por instantes arvorado em seu guia histórico. Proclamava ele dos altos da sua varanda, "O povo está sereno, meus amigos, é só fumaça, é só fumaça!"