Bem à vista, no escaparate das novidades na área de auto-ajuda, o livro divertiu-me pelo título, aconselhando-me no entanto a resistir a folheá-lo. Aquilo que na capa se exibia em caracteres garrafais, Como se Escreve um Romance, agourava uma hilariante viagem que por razões muito minhas, e na altura, não me apetecia realizar. Mas eis que, misturada a outras, aparentemente anódinas, a memória do achado ocorrer-me-ia de supetão naquele curto lapso da insónia, característico ao que consta dos grandes ansiosos, que pontualmente me visita às cinco da madrugada, e propor-se-ia de imediato como tema para a crónica que vai aqui.
Conjecturei desde logo que quem assim baptizara o manual, movendo-se por inquietações de meritório amor ao próximo, não poderia deixar de nutrir a crença num único modelo de narrativa literária, e justamente no que cumprisse o receituário que naquelas páginas se prescrevia. Compreendi depois que o empregado da loja, ao proceder à distribuição das espécies pelas estantes, denunciaria alguma convicção, mais ou menos arreigada, nas virtualidades terapêuticas da prática das belas-letras, remetendo o curioso compêndio, acabadinho de chegar, a local onde daria com ele o autor destas linhas. Assim acolhido, será de prever que Como se Escreve um Romance sirva o público-alvo para que nasceu, desempenhando a sua função, didáctica e formativa, com exemplar eficiência.
E descortinaria eu na distância hordas e hordas de romancistas in process que, de esferográfica em riste, e impacientes por tomar as suas notas, se atiravam já à tarefa de construir um produto, quando não genial, nem talentoso, pelo menos útil ao próprio, e agradável aos mais. Se respeitarem à risca os ensinamentos do catecismo, terão atingido o termo de cada jornada escrevente com um radioso sorriso, estampado no rosto, e no conforto da certeza de haverem enriquecido o público com o equivalente artístico do pudim do Abade de Priscos, impecavelmente desenformado. Rejubilem os ficcionistas, e as ficcionistas, que vaguearam até agora nas densas trevas da inconsciência oficinal, a engendrar monstros que horrendamente se desviam da regra de ouro, e cantem hossanas diante do horizonte que finalmente se lhes descerra.
Como se Escreve um Romance fará dissipar todas as apreensões, e liquidará bloqueios e descaminhos, eliminando de um sopro a eterna angústia em frente da página em branco, estado de que tão desafortunadamente se queixaram no passado os letrados do bê-a-bá do seu mister. Não tardará pois que a crescente multidão de plumitivos, de eles a elas, confirme a teoria de Thackeray, segundo a qual "há milhares de pensamentos que andam na cabeça do homem, e que o homem ignora até pegar numa pena de escrever."
Mãos à obra!