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Como os três ex-Presidentes começaram a ler o Expresso

Até ao 25 de Abril, só Jorge Sampaio podia comprar e ler o Expresso em Lisboa. A fazer a guerra Ramalho Eanes recebia-o pelo correio, no mato de Angola, e Mário Soares estava exilado em Paris.
José Pedro Castanheira (www.expresso.pt)

Os três ex-Presidentes da República eleitos começaram a ser leitores do Expresso em circunstâncias bem diversas. António Ramalho Eanes estava na guerra, em pleno mato no Norte de Angola, para onde a mulher, Manuela, lhe enviava religiosamente o novo semanário dirigido por Francisco Pinto Balsemão.

Mário Soares, por seu turno, estava no exílio em Paris, onde o jornal chegava de forma irregular, levado por familiares e correlegionários.

Com o escritório a dois passos do novo jornal, Jorge Sampaio foi o único que viu o Expresso nascer e o pôde comprar aos ardinas de Lisboa.

Ramalho Eanes: 'Sabia bem ler o Expresso na guerra'


Ramalho Eanes na segunda campanha eleitoral para Presidente da República ,em 1980

Em casa de António Ramalho Eanes o Expresso entrou pelas mãos da mulher, Manuela. O primeiro Presidente da República eleito por sufrágio universal admite que "não é leitor desde o número um, mas rapidamente passei a lê-lo, por iniciativa da minha mulher, que o comprava".

Ramalho Eanes nunca mais o largou. Mesmo quando, em janeiro de 1974, voltou ao Ultramar para mais uma comissão militar, no Norte de Angola, perto da fronteira com o Zaire, numa zona de infiltração da FNLA. "A minha mulher enviava-me religiosamente o 'Le Nouvel Observateur', o 'Le Monde Diplomatique' e o Expresso."

Balsemão: "Um homem de exceção"


A viagem de Lisboa até ao mato angolano era longa e demorada. "Chegava com mais de uma semana de atraso. O noticiário estava inevitavelmente desatualizado, mas sabia bem ler o jornal, que já era de avant-garde, quer na área noticiosa, quer na opinião. Era um jornal já muito completo. Há que prestar a minha homenagem ao Dr. Balsemão, pela ousadia, visão e coragem, embora tenha tido a sua vida relativamente facilitada pela abertura introduzida por Marcelo Caetano, que permitiu que a censura já não tivesse a violência anterior. Mas o seu a seu dono: o Expresso e o grupo em que está inserido devem-se a um homem de exceção".

Mário Soares: leitor no exílio, em Paris


Mário Soares na estação de Santa Apolónia, à chegada do exílio, no dia 28 de abril de 1974

Quando o Expresso nasceu, Mário Soares estava exilado em Paris, o que não o impediu de ser "um dos primeiros colaboradores" - ainda que frustrados... "Quando o primeiro número chegou a Paris e o vi, decidi escrever um artigo."

Especialmente atento à política francesa, o tema foram as eleições, disputadas pelo seu amigo François Mitterrand. "Enviei o texto pelo correio, mas foi cortado do princípio ao fim pela censura".

Mário Soares conhecera Francisco Pinto Balsemão uns anos antes. "Quando regressei do desterro em São Tomé e Príncipe, nos finais de 1968, o Raul Rêgo achou que eu devia conhecer o Pinto Balsemão".

Jornalista do "República", o principal jornal da Oposição e amigo de Mário Soares, Raul Rego fora seu professor no Colégio Moderno. Balsemão, por sua vez, estava no "Diário Popular". "Era sobrinho do dono do jornal e um homem muito aberto. Na altura, ainda estava a hesitar se entrava ou não nas listas de deputados" para a Assembleia Nacional.

Um almoço com Balsemão, e Barbieri por perto


O almoço, a três, foi num "restaurante perto do cinema Condes, num primeiro andar, que tinha aberto há pouco tempo". Numa mesa perto, Raul Rego identificou um dos diretores da PIDE, Barbieri Cardoso, acompanhado provavelmente de outros polícias.

"Falámos baixinho, para que não nos escutassem. Balsemão foi extremamente simpático. Conversámos de jornalismo, de política, do Marcelo Caetano".

Passados uns dias, Francisco Pinto Balsemão telefonou para o escritório de Mário Soares. "Estava muito perturbado, por causa de uma carta que eu lhe teria escrito, muito desagradável para ele. 'O quê?' - perguntei, espantado. 'Mas eu não escrevi carta nenhuma', garanti."

Sem perder tempo, Mário Soares foi imediatamente ao escritório de Balsemão, para esclarecer o caso. "Ele percebeu logo que era uma carta falsificada, certamente que escrita pela PIDE. Tinham medo que nos entendessemos e fizeram aquilo para evitar a nossa relação."

Um pseudónimo matreiro: Clain d'Estaing


Impedido de escrever no Expresso, Mário Soares tentou o "República", onde inventou um pseudónimo matreiro: Clain d'Estaing, um apelido roubado ao futuro Presidente da República francês e de uma ressonância bem sugestiva...

Além disso, "o Raul Rêgo foi dizer ao censor que o novo correspondente do 'República' em Paris era um francês primo do Giscard d'Estaing e que, se se pusessem a cortar os seus textos, ficariam mal vistos. A verdade é que deixaram passar aquilo tudo."

Jorge Sampaio vizinho do Expresso


Jorge Sampaio na campanha das eleições presidenciais de 1996

Com o escritório de advogado num prédio vizinho do Expresso, na Rua Duque de Palmela, Jorge Sampaio viu o jornal nascer e é seu leitor desde o início. Ali trabalhavam várias pessoas conhecidas, com quem tinha "encontros frequentes, na rua e no café". A começar por Francisco Pinto Balsemão, seu contemporâneo na Faculdade de Direito de Lisboa.

"O Balsemão era mais velho e estava um ano à minha frente. Acompanhei depois o seu percurso enquanto deputado da ala liberal", juntamente com Francisco Sá Carneiro, Miller Guerra e outros. "O Expresso foi o resultado de uma grande ambição do Dr. Balsemão, que ficará certamente na história por esse facto."

Marcelo e o 'grupo do Florida'


Jorge Sampaio também conhecia Marcelo Rebelo de Sousa. "Os nossos pais tinham trabalhado juntos no Ministério da Saúde. O prof. Marcelo caracterizou-se sempre por dar nomes às coisas em que estive. Quando formámos uma associação chamada Intervenção Socialista, em vez de lhe chamar IS chamou-lhe GIS, de grupo de Intervenção Socialista. E quando saímos, passámos a ser os ex-GIS - como antes nos tratara por ex-MES. Era uma forma de diminuir a capacidade das pessoas..."

Partiu também "das mesmas bandas" a designação de "grupo do Florida" para o punhado de amigos que quase todos dias se encontravam à hora do almoço no restaurante daquele hotel.

"Era um ponto de encontro de variadas pessoas. Eram reuniões às claras, onde se trocavam informações e se discutiam vários assuntos". Tinha um senão: "Comia-se particularmente mal". Marcelo Rebelo de Sousa "também aparecia às vezes".

Crónicas nas eleições de 1973


Jorge Sampaio estreou-se no Expresso logo em 1973, quando foi convidado para escrever uma crónica durante o mês de campanha eleitoral para a Assembleia Nacional. Era um grupo variado: Jorge Sampaio (independente, dissidente da CDE), César Príncipe (próximo do PCP), Mário Sottomayor Cardia (conotado com o PS), Mário Murteira (católico-progressista), Joaquim Magalhães Mota (ex-deputado liberal), Henrique Barrilaro Ruas (monárquico) e, por fim, João Bosco Mota Amaral (deputado liberal, candidato à re-eleição pela ANP).

Resultaram quatro crónicas publicadas ao longo de outras tantas edições do Expresso do mês de outubro. Jorge Sampaio recorda em particular a primeira. "Fui à sede da ANP como se fosse um jornalista, pedir-lhes um exemplar do programa eleitoral. Fiquei amigo desde então do Dr. Rogeiro pai, que foi quem me abriu a porta. Fiquei a saber que a ANP não tinha nenhum programa para as eleições. Creio que a censura cortou alguma coisa" da crónica.

Na manhã de 25 de Abril, quando ia para o escritório, Jorge Sampaio não resistiu à curiosidade: "Fui ao Expresso, para saber novidades".

Comentários 7 Comentar
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Munda-se-se o tempo e mudam-se as vontades !

"Mário Soares na estação de Santa Apolónia, à chegada do exílio, no dia 28 de abril de 1974."

Será que o Soares teria o mesmo banho de multidão caso se aparecesse em público a discursar pela nação? A prometer um Portugal melhor?

Pois é... O povo é ingrato... Sempre cabe uma ironia.

Re: Munda-se-se o tempo e mudam-se as vontades ! Ver comentário
Re: Munda-se-se o tempo e mudam-se as vontades ! Ver comentário
Pois é ...Passa o tempo e mudam-se as vontades

"Mário Soares na estação de Santa Apolónia, à chegada do exílio, no dia 28 de abril de 1974."
os meninos ricos
vão para Paris...
Fica-lhes bem!
burguesia parisience
O burguês fugiu para Paris onde fazia vida de "Lord" e convivia com a alta sociedade francesa. Ficaram os outros no Tarrafal ou no forte de Caxias a preparar-lhe o poleiro e a quem depois lhes tratou como inimigos.
Entretanto ainda deu para uns "negocios" em Angola.
Re: Como os três ex-Presidentes começaram a ler o
Cabe acrescentar que o Jornal Expresso, vem na esteira do Maio de 68, onde antes tinha aparecido um livro "Le Defie Americain" de um aristocrata do jornalismo centro europeu de nome Jean Jacques Servan Schreiber. Este mesmo senhor tinha lançado uma revista de nome L´Express, que obteve um êxito assinalável de tiragens que se vendia para todo o mundo, e especialmente para Portugal, que estava sequioso de "boas notícias" liberais.

Fazer um ensaio sobre esta temática seria interessante, porque a posteriori o livro "Portugal e o Futuro" de Spínola muito tem a ver com tudo o se tinha passado na Europa e viria a passar no nosso país depois do 25.

J.J. Servan Schereiber é uma legenda do jornalismo francês e europeu de quem vale a pena conhecer o seu percurso familiar, que remonta ao princípio do século XX.
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