As bolsas de Lisboa e de Madrid caíram, o spread da dívida pública portuguesa subiu. Os governos queixaram-se. Os especuladores agradeceram. Com surpresa, incompreensão e mal-estar, a colagem da situação portuguesa e espanhola à da Grécia, feita esta semana por Bruxelas, não deixou ninguém indiferente. Joaquín Almunia, o responsável pelo sismo financeiro que sacudiu a Península Ibérica, acabou desautorizado no seio da própria Comissão Europeia.
Durante a conferência de imprensa em que na passada quarta-feira anunciou o apoio - acompanhado de uma vigilância apertada - às medidas anunciadas por Atenas para corrigir a sua situação orçamental, o comissário europeu responsável pelos assuntos económicos e financeiros acabou por efectuar paralelismo entre a situação económica helénica e a dos dois países da Península Ibérica. O ex-ministro e dirigente socialista espanhol não revelou nada de novo, nem disse algo que os seus serviços não tenham já afirmado em análises anteriores. Mas o timing revelou-se fatal.
Respondendo a uma pergunta sobre as comparações entre Portugal, Espanha e Grécia, Almunia começou por referir que "estas economias, e outras também, partilham algumas características comuns", nomeadamente "uma perda permanente de competitividade desde que são membros da União Económica e Monetária". E prosseguiu, dizendo que "esses países têm défices públicos consideráveis com componentes cíclicas, mas também com componentes estruturais que precisam de ser resolvidas". E especificou que tal se verifica "mais nos casos da Grécia e de Portugal do que no de Espanha", sublinhando que neste ponto podia "dividir um pouco a análise", pois no que se refere aos dois primeiros "as necessidades de financiamento externo são bastante grandes, mesmo nos momentos em que o crescimento do PIB é mais baixo".
Portugal e Espanha insatisfeitos com declarações de Almunia
No dia seguinte, a sua porta-voz tentou corrigir o tiro, atribuindo as responsabilidades pela comparação à imprensa: "a César o que é de César", declarou Amélia Torres. Tarde de mais. A cinco dias do fim do seu mandato, Almunia fez o que habilmente conseguiu evitar nos últimos cinco anos - influenciou o comportamento dos mercados e provocou a ira aberta dos Governos dos dois países mais penalizados. Curiosamente, ambos governados por partidos da sua família política.
Na quinta-feira, Elena Salgado, a vice-primeira-ministra e responsável pela Economia no Governo de Madrid, acusou Almunia de ser "pouco prudente" e de ter caído na "tentação de simplificar demasiado". Pouco depois, em Lisboa, no final do Conselho de Ministros, Pedro Silva Pereira alinhou pelo mesmo diapasão ao considerar que as palavras do responsável europeu foram "infelizes e enganadoras quanto à situação relativa dos países".
"Bomba" em Bruxelas
Em Bruxelas, as declarações de Almunia, tido como um dos elementos mais importantes da equipa de Durão Barroso, que lhe confiou a influente pasta da concorrência para os próximos cinco anos, caíram como uma bomba. Depois da falhada tentativa inicial de corrigir o efeito das suas afirmações, o esforço de controlo dos estragos prosseguiu. Fonte altamente colocada do colégio de comissários fez questão de explicar ao Expresso porque é que, para a Comissão, "Portugal não é a Grécia".
Segundo esta fonte, a Grécia, além de se encontrar numa situação de "não cumprimento das recomendações do Conselho para a correcção do défice excessivo" - ao contrário de Portugal -, também "criou uma enorme desconfiança em relação às estatísticas das suas finanças públicas".
De acordo com o mesmo alto responsável europeu, que dada a delicadeza do tema pediu o anonimato, a deterioração das finanças em Portugal "é recente e deve-se muito particularmente ao impacto da crise financeira". Pelo que, concluiu, "numa perspectiva de longo prazo, Portugal tem mais possibilidades de garantir a sustentabilidade das finanças públicas".
Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Fevereiro de 2010