Comandos

Aprendem a sobreviver, a matar silenciosamente e a superar a dor. No mês em que se assinala um ano das mortes de Hugo Abreu e Dylan da Silva na prova zero dos Comandos, o Expresso mostra-lhe o interior do curso 127. São 8 meses de reportagem: esta é a história nunca contada sobre os Comandos

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Naquela noite ele não conseguiu dormir.

Primeiro acordou sobressaltado com o som dos tiros. Depois gritos. Sirenes ensurdecedoras. Granadas. O terror estava espalhado bem próximo da caserna. Estava num local que lhe era estranho, numa cama onde nunca tinha dormido. Na verdade, era a primeira vez que estava longe de casa, da família, dos amigos. Ficou aterrorizado, não percebia muito bem o que se estava ali a passar. Mas aqueles homens que no meio do caos saíam à pressa da caserna naquela noite fria e chuvosa do início de abril seriam uma visão do seu próprio futuro.

“Eu sabia que um dia iria passar pelo mesmo que eles estavam ali a passar. Ao ver uma coisa assim perdi o sono.”

Meteram os homens dentro de uma viatura do exército e partiram, ele não sabia para onde. Sabe apenas que passados três dias estava novamente na caserna quando aqueles homens voltaram. Viu-os passar mas garante que não vinham homens, vinham “metades”. Quase não andavam. Os rostos destruídos pelo cansaço, sem expressão.

“Aquilo fez-me pensar muito. Metia receio pelo que viria aí no meu futuro.”

Cinco meses depois, também ele e mais 66 iriam partir para o mesmo destino incerto. Mas dois deles nunca iriam regressar.

4 de abril de 2016. A primeira noite dos novos recrutas da Instrução Básica do regimento de Comandos da Carregueira coincidiu com o momento em que os elementos do curso 126 partiram para dar início à sua “Prova Zero”. O que testemunharam foram os primeiros momentos da forte ação psicológica exercida sobre os instruendos logo no início do curso, naqueles que são os dias mais temidos para quem dá início à formação que tem como objetivo torná-los membros desta força especial. Se tudo corresse como esperavam, os recrutas que agora davam entrada iriam integrar o próximo curso de Comandos, o 127, que teria início em setembro.

Naquela manhã houve lágrimas à porta do regimento.

Houve mães chorosas por deixarem ali os seus filhos, muitos deles nunca tinham vivido fora de casa, nunca tinham estado semanas longe da família. Alguns vieram naquele dia contra a vontade dos pais. Na maioria das vezes é o coração de mãe a falar mais alto. Mas noutros casos é o próprio pai a manifestar receio: “O meu pai passou pelos Comandos há alguns anos. Quando lhe disse que eu queria vir, ele não ficou muito contente, mas depois aceitou. Dizia que passou muito aqui e que não queria eu passasse pelo mesmo. Mas eu vou tentar à mesma”, explica Pedro Conceição, um dos novos recrutas.

Outro descreve o que queria: “Gostava de levar-me ao limite. Ver se consigo ou não”. Há ainda quem recorde as histórias contadas pelo avô, sobre o tempo passado na guerra colonial. Ou quem simplesmente tenha ficado impressionado com vídeos no Youtube e também queira partir em missão.

Mas no meio daquele grupo estavam também homens que deixaram os seus empregos para trás. “Despedi-me para vir para aqui. Até tinha um bom emprego, mas sempre quis isto e agora decidi seguir o meu instinto”, diz Rodrigo Rosa, 20 anos. Já João Maia, 19 anos, deixou um curso superior a meio, à revelia dos próprios pais. “Estava no segundo ano de um curso superior de engenharia. Desde sempre que os meus pais, a família, a sociedade, todos insistem que temos de ir para universidade. O normal é crescermos, estudarmos, e depois tirarmos um curso superior, porque dizem-nos que quem não tem um curso superior não tem vida. Desde cedo que me puseram isso na cabeça. Mas desde pequeno que eu também queria vir para o Exército.”

Todos os que ali estavam naquele dia vinham com uma história diferente mas um objectivo em comum: queriam ser comandos.

A maioria - entre eles muitos dos que se despediram para ali estar - nunca chegaria sequer a começar o curso cinco meses mais tarde.

Para se entrar no curso de comandos é preciso ter experiência militar prévia. No mínimo ter passado pelo que vulgarmente é conhecido como “recruta” - e que o Exército atualmente designa “Formação Geral Comum” -, que dura cerca de três meses. Mas não é necessário que a formação tenha sido adquirida no Regimento de Comandos, pode ser feita noutra unidade. Muitos jovens que têm esse sonho acabam, no entanto, por decidir fazer tudo desde o início na Carregueira.

No início de abril de 2016, o Expresso entrevistou 67 jovens que deram entrada na recruta, na pequena sala onde lhes cortaram o cabelo à máquina. A maioria era bastante jovem - ainda sem ter completado 20 anos -, sendo que o maior grupo era proveniente do norte do país, um fenómeno que tem correlação histórica com outras recrutas.

A tradição familiar parece exercer uma influência importante, com mais de metade dos entrevistados a afirmar que tem ou já teve alguém da família nas Forças Armadas. Pelo menos sete admitem mesmo ter tido um pai ou um avô que foi comando ou que tentou fazer o curso.

Quando confrontados sobre o que os leva a querer passar por um dos treinos militares mais duros e altamente exigentes, a maioria afirma que sempre teve um fascínio pelas forças especiais desde muito novo. Mais do que isso, querem também eles sentir-se especiais. Vários dos novos recrutas dizem basicamente isto: “Sempre quis fazer algo que nem toda a gente conseguisse chegar ao fim”.

O orgulho das mãezinhas

Mãos nos bolsos. Pastilhas nos dentes. Grandes cabelos.

“O primeiro dia é sempre engraçado”, ironiza o Sargento Capelo.

“No início, a maior parte destes recrutas não sabe sequer fazer uma cama. Não sabe cumprir horários. Chegar à escola 10 minutos depois da hora de entrada se calhar era normal para eles. Aqui vão aprender que se chegarem 30 segundos depois do estabelecido, se calhar já vão ter problemas.”

Já amanheceu na Carregueira. A manhã está fria, após a noite marcada pelos sons dos tiros de munições de salva e das granadas de instrução, das sirenes e dos gritos que tiraram o sono a muitos deles. Os novos recrutas são acordados com toda a tranquilidade. Depois de uma série de agachamentos, verifica-se o batimento cardíaco de cada um. Nem pareceria que chegaram efetivamente à “tropa”. Mas é a ironia e o sentido de humor dos instrutores a entrar desde cedo em ação.

Nos próximos dias vão perceber que há todo um conjunto de regras que vão ter de interiorizar no seu dia a dia. “O mais difícil foi a primeira semana de recruta, não estava habituado. Rotinas, acordar cedo, cumprir horários. Mas depois, a partir daí, comecei a entrar no esquema”, garante um dos recrutas. “Custou-me inicialmente porque era um ambiente totalmente diferente, rígido, controlado. Fez-me um bocado de confusão.”

No início a maioria destes recrutas não sabe sequer como fazer uma cama

- Sargento Instrutor
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Quem vem com os heróis dos filmes de ação e os vídeos das Forças Especiais do Youtube na cabeça, rapidamente tem de mudar o chip. Primeiro há que aprender disciplina. A instrução básica é um momento de adaptação à instituição e à vida militar. É certo que terão também desde cedo algumas formações técnicas. E uma das primeiras é familiarizarem-se com uma arma.

Ouvem-se pequenos risos na sala. São prontamente calados pelo sargento instrutor, cuja paciência começa rapidamente a esgotar-se. O recruta está há quase uma hora a tentar aprender a montar a culatra da G3. Um dos camaradas quer avançar e montar o resto da sua espingarda, mas leva resposta imediata do instrutor: “Aqui esperamos todos uns pelos outros, ninguém fica para trás. Vamos ficar aqui todos o tempo que for necessário, até o camarada conseguir fazer isto”.

Trabalha-se o “espírito de corpo”. “Não interessa quem chega em primeiro. Têm de se unir, começar todos e acabar todos. Se tiverem de se prejudicar para ajudar o camarada do lado, prejudicam”, sublinha o sargento Capelo. O “eu” passa a contar pouco. “Eles aqui têm de perceber desde muito cedo que o individualismo não leva a lado nenhum. Começa logo no primeiro dia em que vestem o uniforme: se um não está bem, estão todos mal.”

A partir deste momento aprendem que a arma é quase como uma extensão do seu próprio corpo. Tem de estar sempre ao alcance da mão. Dorme sempre ao fundo da cama. Muito em breve, quatro minutos é todo o tempo que terão para conseguir montar a G3.

Chegados à terceira semana, 12 recrutas já desistiram. Houve quem alegasse saudades de casa ou mesmo saudades da mãe, em particular. “Muitas das vezes vêm com uma ideia errada do que é esta instituição”, diz o sargento Silva. Em muitos casos nunca se conseguem adaptar às regras e a uma rotina sobre a qual não exercem qualquer controlo: as botas que têm de andar sempre impecavelmente engraxadas, os lençóis da cama que não podem ter um vinco. E há a regra acima de todas as outras regras, que nunca pode ser posta em causa desde o primeiro dia: tudo é feito à ordem de um superior. Eles estão ali para uma coisa e é para obedecer a ordens.

O dia do juramento de bandeira aproxima-se. Só se fala disso dentro da caserna. “Sabes qual é o nosso problema? É que estamos a fazer tudo demasiado rápido”, desabafa um dos recrutas.

“Pau, pau, pau”, exemplifica com a arma como se faz.

Na parada treina-se a “ordem unida”, mas falta ainda coordenação e harmonia à marcha dos recrutas e aos movimentos com a arma nos braços. Ficam mais de hora e meia numa repetição constante de movimentos até estar tudo perfeito. “O tempo de treino é inversamente proporcional ao esforço: esforçam-se, dura pouco. Não se esforçam, estamos aqui mais tempo”.

O instrutor grita na parada: “É esse o nível e é para manter! E o braço é paralelo ao solo. Levante o queixo, senhor Oliveira! Ficou aí, queixo para cima. Não mexe. Não quero ver ninguém a olhar para mim, caralho - é para o infinito!”.

“O batimento no ombro-esquerdo arma é para ser feito com força, para que se ouça.” , ordena o sargento Capelo.

“Assim sim. Quero que não passem vergonhas e que sejam um orgulho para as vossas mãezinhas”.

Matar para sobreviver

Tudo muda quase de um dia para o outro. “Notámos uma grande diferença logo na semana após jurar bandeira. Tudo passou a ser muito mais stressante, fisicamente e psicologicamente. Mas já sabíamos que ia ser assim”, desabafa um dos recrutas.

Para a fase seguinte, a instrução complementar, seguem os recrutas que estão há cinco semanas no regimento da Carregueira mas também outros que chegam de vários quartéis do país. Entre os recém-chegados está Dylan Araújo da Silva, 20 anos, natural de Ponte de Lima, que viria a morrer.

A instrução complementar é já uma fase mais técnica e de maior exigência física do militar, em que este é preparado para o combate: “Fortalecer o corpo e depois prepará-los fisicamente e psicologicamente para engrenarem no curso de comandos”, explica um dos instrutores. “Isto é como uma escadinha, não podemos passar diretamente de uma instrução básica para um curso de Comandos. Há que preparar estes homens para o stress que vão ter de suportar quando derem entrada no curso”.

Há que preparar estes homens para o stress que vão ter de suportar quando derem entrada no curso de comandos

- Sargento Instrutor

Muitas das situações com as quais irão ser confrontados mais tarde já começam a ser introduzidas aqui. Já terão instrução de técnicas de combate. Há sessões de tiro em que têm de mostrar pontaria ao acertar num alvo a vários metros de distância. Há marchas combinadas com corrida (Mar Cor) em que carregam as mochilas durante cinco, sete ou 10 extenuantes quilómetros pela Serra da Carregueira durante uma hora ou mais. Há o rastejar e rebolar e dar cambalhotas pela terra seca e cheia de cascalho. Começam a aparecer as primeiras mazelas, as primeiras lesões. A margem de erro diminui e os recrutas aprendem que os erros pagam-se cada vez mais caro.

Introduz-se a “cantilada”: quando algo não é bem feito, o instrutor despeja-lhes o cantil de água inteiro para dentro da farda, ficando molhados o resto o dia. E introduzem-se os “silvados”, que os recrutas têm de deitar abaixo a rebolar ou à cambalhota, por muito que os picos das silvas se espetem contra a pele e deixem feridas. Aqui não lhes chamam “castigos”, mas “pagamentos”. A lógica, de acordo com quem dá a instrução, é a mesma que irá mais tarde reinar durante a formação do comando. “Errar não pode ser opção porque em combate um erro pode pagar-se bastante caro.”

Mochila de combate às costas. Arma ao berço. Os recrutas dividem-se em duas filas indianas que seguem lado a lado, em progressão pela Serra da Carregueira. Chega a altura de abandonar o conforto e a segurança da caserna. A instrução culmina com a “semana de campo”, o primeiro grande teste de tudo o que aprenderam até aqui, a primeira saída que têm para o terreno com uma mochila às costas e uma G3 nos braços.

Estamos a mais de meio da tarde e o grupo já não come desde o pequeno-almoço, tomado às 7h. Progridem agora pelos caminhos de terra batida e pedras, divididos em grupos de 5 ou 6 elementos, até estabelecerem base numa zona no meio do mato com abrigos de madeira e ramos de árvores.

Terão de aplicar agora, na prática, as várias instruções que receberam nas semanas anteriores. “É tudo muito bonito, mas depois quando se dorme no chão, quando se passa frio, quando se passa sede, aí é que se vê a verdadeira pressão”, garante o instrutor. “Há um certo nível de stress que já se pretende criar - eles têm de estar em constante alerta.”

Estamos agora em junho e o dia está quente. A água escasseia. Têm de racioná-la e construir sistemas para purificá-la. Mas para sobreviver no meio do mato têm de ir mais longe: não podem ter receio de matar animais, seja de que forma for, caso se vejam numa situação em que não tenham comida.

E é assim que os recrutas, que semanas antes estavam habituados a ter o jantar na mesa todos os dias feito pelas mães, acabam por matar uma galinha no meio do mato com os próprios dentes e a beber o sangue do animal.

“É o fim da idade da inocência”, dirá um deles.

O sargento instrutor não tem dúvidas: “Estes homens nunca mais se vão esquecer da recruta. Podem ir embora ou entrar para o quadro e ficar no exército 30 anos, mas nunca mais se vão esquecer destas semanas”.

Dos 67 que o Expresso entrevistou no início de abril à entrada para a recruta no Regimento, apenas 16 conseguiriam entrar no curso de Comandos em setembro. Vários dos que tinham largado o emprego em busca do sonho de pertencer aos Comandos não chegariam sequer a dar entrada no curso.

Alguns ainda fariam o estágio, o período de um mês de preparação para o curso, mas acabariam por desistir já nessa fase (109 militares integraram o estágio para o 127º curso de Comandos). “Quando viram que as coisas iriam começar a apertar, decidiram que aquilo não era para eles”, conta agora um dos instruendos do curso de Comandos que iria conseguir chegar ao fim.

Entre estes dois retratos há cinco meses de distância. A última fotografia data de 3 de setembro de 2016, dia oficial do arranque do 127º curso de Comandos. Foi tirada escassas horas antes da “prova zero”, ou “semana zero”, o momento inaugural que marca todos os cursos.

Muitos até já se poderiam ter mentalizado que iriam passar por alguns dos dias mais difíceis das suas curtas vidas. Mas nenhum deles poderia sequer imaginar aquilo que viria a acontecer horas mais tarde.