Comandante deve ser o último a abandonar o navio?
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O porta-voz da Marinha portuguesa garantiu ao Expresso que o comandante deverá ser sempre o último homem a abandonar o navio em caso de naufrágio, mas o diretor executivo da Agência Marítima e Costeira britânica , o vice-almirante Alan Massey , defendeu que isso não passa de um mito.
"Não há fundamento na lei internacional para a ideia de que o comandante deve ir ao fundo com o navio ou mesmo que deve ser o último a abandona-lo", garantiu o vice-almirante numa conferência de imprensa, em Londres, organizada por representantes do setor dos cruzeiros, na sequência da fuga do comandante do "Costa Concordia" naufragado em Itália.
O comandante Alexandre Santos Fernandes lembra, no entanto, que a convenção STCW (International Convention of Standards of Trainning, certification and Watchkeeping for Seafarers, 1978 ), da Organização Marítima Internacional, uma agência das Nações Unidas, "estabelece que é proibido ao comandante abandonar o navio por maior perigo que a situação ofereça, só sendo possível em caso de naufrágio e após certificar-se de que é o último a fazê-lo".
Mas, para Alan Massey, "em muitos casos", a permanência do comandante no navio, "poderá não ser a decisão mais acertada", já que cada companhia poderá adotar políticas de segurança específicas.
"Isso é mais um mito que uma realidade", concluiu o responsável máximo, desde julho de 2010, pela implantação no Reino Unido da política de segurança marítima.
Responsabilidade e honra
Santos Fernandes diz ainda que esta norma "deverá estar associada ao sentido de responsabilidade e de honra que sempre acompanhou os homens que andam no mar e principalmente os comandantes, que sempre souberam assumir a total responsabilidade pelo seu navio e pela sua guarnição".
"O ditado 'estamos todos no mesmo barco' é sintomático desta forma de viver de quem tem no mar a sua forma de vida", remata o porta-voz da Marinha Portuguesa.
O comandante do "Costa Concordia", que naufragou junto à ilha de Giglio, Itália, na sexta-feira passada, dia 13, abandonou a embarcação sem que a operação de evacuação estivesse concluída.
Numa chamada telefónica com o comandante dos portos de Livorno, Gregorio di Falco, tornada pública na terça-feira, resulta ainda claro que Francesco Schettino recusou-se retornar ao navio.
Tropeçou e caiu
Interrogado na segunda-feira, durante cerca de três horas, pela juíza Valeria Montesarchio, Schettino disse que tropeçou e acabou por cair dentro de um bote salva-vidas quando o navio já se encontrava com uma inclinação de 60 ou 70 graus.
Uma versão que não convenceu a magistrada que decretou a prisão domiciliária de Francesco Schettino, acusado de múltiplo homicídio por negligência, naufrágio e abandono do navio.
A presença no navio de "outros membros do pessoal e oficiais que desenvolviam esforços para retirar os passageiros desmente objetivamente as declarações do comandante sobre a impossibilidade de dirigir os procedimentos de emergência e socorro", escreveu a juíza na fundamentação da sua decisão.
Valeria Montesarchio considerou também que o comandante Schettino não fez "nenhuma tentativa séria" para regressar "pelo menos para perto do navio", tendo permanecido nas rochas durante seis horas a assistir às operações de salvamento.
As autoridades envolvidas nas operações de resgate do paquete "Costa Concórdia" - Marinha de Guerra, guarda costeira, bombeiros, Carabiniers, polícia - reuniram-se hoje de urgência para decidir o seguimento a dar aos trabalhos, novamente suspensos esta manhã.
Segundo as autoridades italianas, citadas pela Associated Press, morreram 11 pessoas (três das quais permanecem por identificar) e 21 continuam desaparecidas.


