A paramiloidose (ou doença dos pezinhos) não poupou Pedro Ribeiro, que aos 31 anos começou a ter pouca mobilidade e sensibilidade, muitas cãibras e arritmia. Em apenas cinco anos perdeu 50 quilos (pesava 112), odor e paladar. O transplante de fígado, em 2006, no Hospital Curry Cabral (Lisboa), foi a única solução para evitar a morte prematura. Pedro recebeu um órgão de um cadáver, mas teve "a sorte de também ser dador". O seu fígado foi aproveitado para uma mulher com cerca de 60 anos, agora portadora da doença que foi dele. "Embora essa senhora tenha recebido um órgão com um defeito genético, como o metabolismo dela é mais lento, e tendo em conta que tive os primeiros sinais aos 31 anos, deverão manifestar-se nela aos cento e tal", explica Pedro, que mantém contacto com a receptora do seu fígado. Recorda a espera pelo órgão que o salvou: "Somos como as senhoras grávidas, com a mala sempre pronta, caso tenhamos de ir para o hospital. Também dormimos com o telemóvel ligado".
Pedro Ribeiro, que herdou a doença do pai, estava na Câmara Municipal do Cartaxo, de que era vice-presidente, quando soube que ia ser transplantado. "É sempre um dia de múltiplos sentimentos. Ficamos felizes, mas sabemos que há uma família a chorar. Poder ser dador de alguém compensou um pouco isso", diz o economista, agora com 37 anos. Desde o transplante, recuperou 20 quilos e aprecia alimentos que era incapaz de comer antes, como feijões e favas. "Pouco depois da operação fiquei obcecado com comida e até tirei um workshop de cozinha. Chegava a acordar às 4h para comer três ou quatro costeletas, diz Pedro, que é presidente da Associação O Fígado Pela Vida e dirigente da Associação Portuguesa de Paramiloidose. Chegou a tomar 50 comprimidos por dia. "Hoje tomo 15. É muito pouco, nem dou por isso".