25 de abril de 2014 às 1:19
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Citadino do futuro tem mão portuguesa

Ana Serra e Sofia Miguel Rosa (Infografia) Carlos Abreu (texto)
Hiriko. Assim se chama o automóvel elétrico concebido no MIT, que será produzido em série no País Basco, com a colaboração de um engenheiro português. Em entrevista ao Expresso, Armando Gaspar diz que "estes são os veículos do futuro".





Armando Gaspar e Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, em Bruxelas, durante a apresentação pública do Hiriko a 24 de janeiro

O que é que um grupo de jovens investigadores do conceituado MIT têm em comum com um grupo de empresários bascos e um engenheiro português? Um automóvel elétrico que pretende revolucionar a forma como circulamos nas grandes cidades. Chama-se Hiriko e lá para o outono do próximo ano já deverá ser possível vê-lo em Berlim, na Alemanha, ou em Malmö, na Suécia. Mas vamos por partes.

O projeto de um automóvel pensado de raiz para smart cities, seguro, pouco dispendioso e, claro, ambientalmente sustentável foi crescendo desde no espírito criativo de William Mitchel , do Media Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, até ao seu desaparecimento, aos 65 anos, em junho de 2010.

Dando continuidade à visão deste ideólogo das smart cities, um grupo de investigadores norte-americanos continuaram a desenvolver o projeto até que uma consultora basca, a Denokinn , conseguiu reunir um grupo de sete empresas, também elas bascas, com as condições necessárias para produzir cada um dos sete módulos que constituem o veículo. É então que o engenheiro português entra na história.

Depois de quase 30 anos como gestor de topo e responsável por diversas fábricas da Mercedes na Alemanha, Brasil e em Espanha, o consórcio basco contratou Armando Gaspar, 55 anos, licenciado em Engenharia Mecânica pela Universidade de Colónia, para ajudar a industrializar a produção do Hiriko.

Em entrevista ao Expresso, este natural de São Brás de Alportel, que se viu obrigado a trocar o quente Algarve pela gélida Alemanha aos 15 anos, diz que "estes são os veículos do futuro".

O que o levou a aceitar este convite da Hiriko?
O Hiriko é um projeto totalmente novo e acredito que estes são os veículos do futuro. Não quero com isto dizer que amanhã todas a pessoas comprem um veículo elétrico, mas não tenho dúvidas que eles são peças chave na construção das cidades inteligentes, isto é, todas aquelas que precisam de um sistema inteligente para superar os problemas do trânsito. Estou a falar de grandes cidades que dependem de meios de transporte, sobretudo nos centros urbanos, onde as emissões geradas por veículos a combustível não se podem baixar muito mais. A tecnologia para reduzir emissões, tanto nos veículos a gasolina como a diesel, estão a atingir o limite. Na Mercedes, por exemplo, os custos para limpar os gases emitidos pelos motores já é quase tão alto como o próprio custo do motor. E não há, tecnicamente falando, muito mais a fazer. Se no futuro as cidades querem centros históricos, onde as pessoas vivem e trabalham com elevados padrões de qualidade de vida, penso que estes veículos podem dar uma ajuda preciosa.

O Hiriko é um projeto do MIT Media Lab. Como é que ele chega à Europa?
Foi por intermédio de uma consultora, que também trabalha para o Governo Basco, a Denokinn, e que está sempre à procura de projetos inovadores. Há muito tempo que um grupo de empresários pretendia montar uma indústria automobilística aqui no País Basco. A ideia era poder desenvolver um veículo e não só produzi-lo. A grande dificuldade está no desenvolvimento do veículo e não tanto na produção. A produção pode ser feita em Espanha, França ou na República Checa. Mas a grande chave do sucesso de um projeto destes são as pessoas, neste caso, engenheiros qualificados e com experiência. Ora, muitas destas pessoas estão a trabalhar para os grandes construtores automóveis. Esse é um dos maiores desafios deste projeto: encontrar os engenheiros, os técnicos e os mecânicos capazes de conseguir fazer aqui um veículo de alta qualidade. Este carro não tem apenas de ser bom, tem de ser um objecto de desejo.

Hiriko: vem buscar-me, por favor


Mas qual é o grande objetivo deste projeto?
O objetivo deste projeto é produzir um carro para ser partilhado e integrado numa rede de transportes de uma cidade, onde há metro, autocarros e até bicicletas, mas também passageiros interessados numa mobilidade individual. Quem não tiver vontade de entrar no autocarro com mais 50 pessoas, poderá optar por ir de Hiriko e tem um transporte individual que, no futuro, até deverá ter capacidade de se estacionar sozinho e vir apanhar o condutor quando este o chamar. O MIT está sempre 20 anos à frente.

É isso que torna o projeto tão interessante?
Exatamente. Este projeto dá opções de um crescimento inteligente deste veículo para poder fazer coisas que as pessoas ainda não imaginam que sejam possíveis.

O que é que este carro tem de tão especial?
Este carro permite transportar duas pessoas com uma visibilidade fantástica, oferece uma mobilidade quase sem limites em meio citadino e pode ser estacionado num espaço mínimo (1,5 metro).

Quando é que este veículo começará a ser vendido?
Antes do verão de 2013 não vamos correr esse risco. Em 30 anos de Mercedes aprendi que mais vale um pouco mais tarde com ótima qualidade do que muito cedo mas sem estar maduro. Não há pressa, porque não corremos o risco de perdemos mercado. O mercado está a começar agora. As cidades estão a começar a ficar cada vez mais interessadas nestes projetos pelo que temos de lá chegar com um veículo de altíssima qualidade.

Tão intuitivo como um iPhone


Mas qual é o grande desafio?
O grande desafio é o desenvolvimento da componente eletrónica e do software, para que qualquer cliente entre no veículo e consiga usá-lo tão intuitivamente como se fosse um iPhone. Ou seja, sem ler o manual, consiga explorar tudo aquilo que o veículo tem para oferecer.

Já há cidades interessadas?
Há duas cidades muito interessadas: Malmö, na Suécia, e a capital alemã, Berlim. Em Malmö seria um projeto totalmente novo e em Berlim os veículos seriam integrados no sistema de car sharing (partilha de veículos) que já existe.

E há alguma cidade portuguesa interessada?
Até agora não. Na minha opinião, os principais interessados hão de ser os países nórdicos mais desenvolvidos, porque nos países do sul as pessoas ainda ambicionam ter um carro próprio e não um veículo partilhado. Aqueles que já têm tudo e já tiveram diversos veículos de gama alta podem prescindir mais facilmente e pensar: 'Só preciso de carro quando está muito frio ou a chover e nesses dias uso um Hiriko'. São esses os nossos mercados, porque mesmo para um particular um Hiriko seria um terceiro ou quarto carro.

Quanto custará o Hiriko?
A nossa meta são 12.500 euros e estamos a fazer tudo para cumprir esse objetivo. Estimamos que 80 a 90 por cento será vendido a cidades que, posteriormente, definirão as tarifas a cobrar pela sua utilização.

Quanto é que será investido na industrialização deste projeto?
Até agora já foram investidos 15 milhões de euros, provenientes do Governo e da União Europeia. Deverão ser necessários 40 a 50 milhões para os próximos três anos.

Os veículos elétricos são mais fáceis ou mais difíceis de construir do que os automóveis tradicionais?
Este veículo é mais simples porque é mais pequeno e porque a velocidade que alcança é mais baixa (50 kms/h). Logo, a suspensão e a dinâmica de construção estão facilitadas.



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Não é bem «mão portuguesa»
Este engenheiro só participou neste projecto porque EMIGROU. Em Portugal, provavelmente, tinha tido um grande futuro entre o desemprego e os recibos verdes, talvez a assinar projectos como as casas do Sócrates.

A realidade é que Portugal não tem nada a ver com o sucesso deste profissional. Em grande parte, o seu sucesso deve-se a ter saído de Portugal.

Não venham por isso acenar com a portuguesidade nem deste projecto nem deste engenheiro. TENHAM VERGONHA do sucesso das pessoas competentes que escurraçam deste país. TENHAM VERGONHA de não serem capazes de aproveitar a competência que nasce em Portugal. TENHAM VERGONHA dos engenheiros terem de sair de Portugal para serem reconhecidos como «competentes».
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O homem e as circunstâncias
Temos a necessidade de “nacionalizar” tudo em que um nacional intervenha. É facto, cujo objectivo, penso, é afagar o nosso ego. Mas neste caso, o que chama a atenção, são os comentários a lastimar corrermos com os melhores.

Se o homem é ele mais as circunstâncias, a obra depende das circunstâncias encontradas por esse homem. Conheço alguns casos. Tenho filhos nessas condições. São investigadores de topo e, cá, provavelmente, estariam nos tais recibos verdes sem prospectivas de interesse.

Os melhores não são escorraçadas, os melhores são atraídos, e muito bem, para onde se reúnam condições para o seu desenvolvimento. Essas condições para se alcançarem, exigem tempo e capital, incluindo o humano. Não se conseguem por decreto, nem por momentânea vontade política

E essas condições surgem mais em ambiente liberal. Onde leis não asfixiem a iniciativa privada.

Um exemplo caricato e simples, é reconhecer-se que um “início” semelhante ao da Apple ou da Microsoft, não seriam possíveis porque em cumprimento da lei, a ASAE encerraria a “garagem” por não possuir o nr. mínimo de WC.

Em Silicon Valley, só 2 em 10 empresas vingam. Os 8 que ficam para trás, tentarão de novo e não serão ostracizados como empresários de perna-curta, ou falhados sem imaginação

Com leis castradoras e direitos adquiridos que paralisam a economia, as “circunstâncias” dificilmente serão criadas

E a saída é o que resta aos melhores
Diferença cultural enorme Ver comentário
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Citadino do futuro tem mão portuguesa
Pessoalmente vejo para começar os veículos eléctricos como o segundo carro, mas também aquele que pode substituir temporariamente o primeiro e acima de tudo aquele que deve transportar as pessoas para o emprego, cuja distância nunca poderá ser muito longa, com uma capacidade de dois lugares.
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Auto promoção...
Nunca consegui perceber a necessidade que temos em relatar notícias de algo que acontece diferente e dizer que existe, algures, um português envolvido.
Para ser notícia, teria que ser uma empresa portuguesa a desenvolver algo de novo. O que é que o facto de existir um engenheiro português vem trazer de positivo para o País.
Quanto ao carro, porque é que o futuro terá que passar por carros ridiculos cujas vantagens são discutiveis? O futuro passa por melhores transportes públicos, tele-trabalho e menos carros, mas carros mais eficientes e polivalentes. Com um carro destes, uma família terá sempre que ter um segundo carro pois este não serve para muito.
Re: Auto promoção... Ver comentário
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Falta de imaginação ou copiar o passado?
Reinventaram o Isetta da BMW, o célebre Ovo!
Re: Falta de imaginação ou copiar o passado? Ver comentário
Re: Falta de imaginação ou copiar o passado? Ver comentário
Modéstia precisa-se
1ª. questão: - Para sermos exactos, este não é um eng. português. É sim um português engenheiro, formado na universidade de Colónia e emigrante na Alemanha desde os 15 anos.
2ª. questão: Não será necessário que, quando algum português faz algo digno de registo no estrangeiro, que os órgãos de informação portugueses façam disso parangonas. Isso só confirma a nossa pequenês.
3ª. questão: Não adulterem a notícia com o chavão de "pois se este eng. continuasse em Portugal não iría a lado nenhum".
Temos que ser clarividentes: Os neurónios dos portugueses são tão bons como os melhores de outros países mais evoluídos. A diferença está na formação e no meio. Na Alemanha preside o pragmatismo associado à investigação e às necessidades tecnológicas do mercado. Por aqui reina a utopia de que o mais importante de tudo é ser-se eng. ou doutor, seja lá do que for, o que só contribui para engordar as filas dos centros de emprego.
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