Citadino do futuro tem mão portuguesa
O que é que um grupo de jovens investigadores do conceituado MIT têm em comum com um grupo de empresários bascos e um engenheiro português? Um automóvel elétrico que pretende revolucionar a forma como circulamos nas grandes cidades. Chama-se Hiriko e lá para o outono do próximo ano já deverá ser possível vê-lo em Berlim, na Alemanha, ou em Malmö, na Suécia. Mas vamos por partes.
O projeto de um automóvel pensado de raiz para smart cities, seguro, pouco dispendioso e, claro, ambientalmente sustentável foi crescendo desde no espírito criativo de William Mitchel , do Media Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, até ao seu desaparecimento, aos 65 anos, em junho de 2010.
Dando continuidade à visão deste ideólogo das smart cities, um grupo de investigadores norte-americanos continuaram a desenvolver o projeto até que uma consultora basca, a Denokinn , conseguiu reunir um grupo de sete empresas, também elas bascas, com as condições necessárias para produzir cada um dos sete módulos que constituem o veículo. É então que o engenheiro português entra na história.
Depois de quase 30 anos como gestor de topo e responsável por diversas fábricas da Mercedes na Alemanha, Brasil e em Espanha, o consórcio basco contratou Armando Gaspar, 55 anos, licenciado em Engenharia Mecânica pela Universidade de Colónia, para ajudar a industrializar a produção do Hiriko.
Em entrevista ao Expresso, este natural de São Brás de Alportel, que se viu obrigado a trocar o quente Algarve pela gélida Alemanha aos 15 anos, diz que "estes são os veículos do futuro".
O que o levou a aceitar este convite da Hiriko?
O Hiriko é um projeto totalmente novo e acredito que estes são os veículos do futuro. Não quero com isto dizer que amanhã todas a pessoas comprem um veículo elétrico, mas não tenho dúvidas que eles são peças chave na construção das cidades inteligentes, isto é, todas aquelas que precisam de um sistema inteligente para superar os problemas do trânsito. Estou a falar de grandes cidades que dependem de meios de transporte, sobretudo nos centros urbanos, onde as emissões geradas por veículos a combustível não se podem baixar muito mais. A tecnologia para reduzir emissões, tanto nos veículos a gasolina como a diesel, estão a atingir o limite. Na Mercedes, por exemplo, os custos para limpar os gases emitidos pelos motores já é quase tão alto como o próprio custo do motor. E não há, tecnicamente falando, muito mais a fazer. Se no futuro as cidades querem centros históricos, onde as pessoas vivem e trabalham com elevados padrões de qualidade de vida, penso que estes veículos podem dar uma ajuda preciosa.
O Hiriko é um projeto do MIT Media Lab. Como é que ele chega à Europa?
Foi por intermédio de uma consultora, que também trabalha para o Governo Basco, a Denokinn, e que está sempre à procura de projetos inovadores. Há muito tempo que um grupo de empresários pretendia montar uma indústria automobilística aqui no País Basco. A ideia era poder desenvolver um veículo e não só produzi-lo. A grande dificuldade está no desenvolvimento do veículo e não tanto na produção. A produção pode ser feita em Espanha, França ou na República Checa. Mas a grande chave do sucesso de um projeto destes são as pessoas, neste caso, engenheiros qualificados e com experiência. Ora, muitas destas pessoas estão a trabalhar para os grandes construtores automóveis. Esse é um dos maiores desafios deste projeto: encontrar os engenheiros, os técnicos e os mecânicos capazes de conseguir fazer aqui um veículo de alta qualidade. Este carro não tem apenas de ser bom, tem de ser um objecto de desejo.
Mas qual é o grande objetivo deste projeto?
O objetivo deste projeto é produzir um carro para ser partilhado e integrado numa rede de transportes de uma cidade, onde há metro, autocarros e até bicicletas, mas também passageiros interessados numa mobilidade individual. Quem não tiver vontade de entrar no autocarro com mais 50 pessoas, poderá optar por ir de Hiriko e tem um transporte individual que, no futuro, até deverá ter capacidade de se estacionar sozinho e vir apanhar o condutor quando este o chamar. O MIT está sempre 20 anos à frente.
É isso que torna o projeto tão interessante?
Exatamente. Este projeto dá opções de um crescimento inteligente deste veículo para poder fazer coisas que as pessoas ainda não imaginam que sejam possíveis.
O que é que este carro tem de tão especial?
Este carro permite transportar duas pessoas com uma visibilidade fantástica, oferece uma mobilidade quase sem limites em meio citadino e pode ser estacionado num espaço mínimo (1,5 metro).
Quando é que este veículo começará a ser vendido?
Antes do verão de 2013 não vamos correr esse risco. Em 30 anos de Mercedes aprendi que mais vale um pouco mais tarde com ótima qualidade do que muito cedo mas sem estar maduro. Não há pressa, porque não corremos o risco de perdemos mercado. O mercado está a começar agora. As cidades estão a começar a ficar cada vez mais interessadas nestes projetos pelo que temos de lá chegar com um veículo de altíssima qualidade.
Mas qual é o grande desafio?
O grande desafio é o desenvolvimento da componente eletrónica e do software, para que qualquer cliente entre no veículo e consiga usá-lo tão intuitivamente como se fosse um iPhone. Ou seja, sem ler o manual, consiga explorar tudo aquilo que o veículo tem para oferecer.
Já há cidades interessadas?
Há duas cidades muito interessadas: Malmö, na Suécia, e a capital alemã, Berlim. Em Malmö seria um projeto totalmente novo e em Berlim os veículos seriam integrados no sistema de car sharing (partilha de veículos) que já existe.
E há alguma cidade portuguesa interessada?
Até agora não. Na minha opinião, os principais interessados hão de ser os países nórdicos mais desenvolvidos, porque nos países do sul as pessoas ainda ambicionam ter um carro próprio e não um veículo partilhado. Aqueles que já têm tudo e já tiveram diversos veículos de gama alta podem prescindir mais facilmente e pensar: 'Só preciso de carro quando está muito frio ou a chover e nesses dias uso um Hiriko'. São esses os nossos mercados, porque mesmo para um particular um Hiriko seria um terceiro ou quarto carro.
Quanto custará o Hiriko?
A nossa meta são 12.500 euros e estamos a fazer tudo para cumprir esse objetivo. Estimamos que 80 a 90 por cento será vendido a cidades que, posteriormente, definirão as tarifas a cobrar pela sua utilização.
Quanto é que será investido na industrialização deste projeto?
Até agora já foram investidos 15 milhões de euros, provenientes do Governo e da União Europeia. Deverão ser necessários 40 a 50 milhões para os próximos três anos.
Os veículos elétricos são mais fáceis ou mais difíceis de construir do que os automóveis tradicionais?
Este veículo é mais simples porque é mais pequeno e porque a velocidade que alcança é mais baixa (50 kms/h). Logo, a suspensão e a dinâmica de construção estão facilitadas.


