23 de abril de 2014 às 23:57
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Circuncidar-me, eu? Enfim, claro... bem... vou pensar

Era uma boa ideia: para promover a saúde pública no Zimbabué, os deputados dariam o exemplo. Mas eles não estiveram pelos ajustes.
Luis M. Faria (www.expresso.pt)
Uma vice-primeiro-ministro bem intencionada Uma vice-primeiro-ministro bem intencionada

A ideia era boa: para dar o exemplo num país onde as taxas de infeção pelo HIV são altíssimas, os deputados iam-se fazer circuncidar. Thokozani Khupe, a vice-primeira ministra, estava realmente convencida da boa vontade dos seus colegas.

Deve-se ter esquecido de averiguar o que pensavam eles. Porque quando alguém lhes foi perguntar, a resposta foi quase unânime: silêncios e hesitação. Seguidos de: nem pensar.

Um deles, Moses Mzila Ndlovu, contou mesmo que alguns colegas seus chamaram "louca" e "bizarra" à ideia. Embora, acrescentou, cada um faça o que quer.

"Circuncisão da mente, não do órgão"


Para que conste, um deputado anunciou que aceitava a sugestão: Edgar Mbwembwe, do partido ZANU-PF. Outro colega assegurou que estava "a considerar a questão". E um outro disse que o que importava era "a circumcisão da mente, não do orgão".

A ideia de Khupe não surgiu do nada. Nos ultimos anos, a Organização Mundial de Saúde tem instado aos homens africanos a circuncidarem-se como meio de reduzir uma variedade de riscos, não apenas de HIV como de outras doenças venéreas, infeções diversas, problemas oncológicos, etc.

A circuncisão, se for bem feita (mal feita, pode ser muito perigosa) facilita a higiene do orgão. Sem um ambiente resguardado e húmido para se acolher, o vírus do HIV morre mais depressa.

Além disso, sendo o prepúcio especialmente susceptível a traumas e pequenas feridas, é uma porta de entrada para os patogéneos. Desaparecendo ele, essa porta desaparece.

Bom exemplo vs. má fama


No Zimbabué e noutros países africanos, já há muitos milhares de jovens a aceitar circuncidar-se. Por parte dos responsáveis públicos é que há resistência. Ainda há pouco tempo, no Ruanda, um ministro disse que se o fizesse ninguém mais o respeitaria.

Mesmo alguns que fizeram a operação recusam admiti-lo em público. Mais importante que o bom exemplo, pelos vistos, é o perigo de má fama.

Também há quem diga que as anestesias ainda não atingiram a qualidade adequada. E existem questões de custo, muito relevantes em países pobres.

Programas públicos de saúde ajudam a ultrapassar esses obstáculos, mas ainda estão longe de bastar.

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