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Cimeira europeia: "viragem sísmica" com recuo de Merkel

Resgates na zona euro passam a admitir três modalidades e os fundos de assistência financeira serão mais "flexíveis". Rajoy e Monti conseguirão voltar a Madrid e Roma sem as mãos vazias. Irlanda ganha prémio. Bolsas asiáticas reagem positivamente. Juros de Espanha e Itália baixam.

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A chanceler alemã  recuou durante o primeiro dia de trabalhos do Conselho Europeu
A chanceler alemã recuou durante o primeiro dia de trabalhos do Conselho Europeu / EPA/Olivier Hoslet

"Afirmamos que é preciso romper o círculo vicioso entre os bancos e os estados", ou seja entre a crise bancária e a crise da dívida soberana europeia, afirma o comunicado sobre o primeiro dia da cimeira europeia, que terminou madrugada dentro em Bruxelas, depois de 13 horas e meia de discussões.

O primeiro-ministro da Irlanda, Enda Kenny, apressou-se a considerar as decisões deste primeiro round da cimeira como "uma viragem sísmica". O recuo da chanceler alemã Angela Merkel, durante este primeiro dia de trabalhos, foi o facto político decisivo para que esta cimeira não caísse num impasse e provocasse um "sismo" de outra natureza nos mercados financeiros, como alvitraram vários analistas durante quinta-feira quando foi conhecida a intransigência de Mário Monti e Mariano Rajoy, presidentes dos conselhos de ministros de Itália e Espanha. Com alguma ironia, alguns analistas logo disseram que "a Itália pontuou duas vezes em menos de 12 horas", uma nos relvados, derrotando a seleção alemã nas meias-finais no campeonato da Europa, outra nas salas de Bruxelas.

A intransigência dos dois chefes de governos "latinos" deveu-se às novas circunstâncias de relação de forças na Europa, com a queda de Nicolas Sarkozy como aliado da chanceler alemã, o que permitiu as movimentações de Espanha e Itália e o reaparecimento dos "quatro presidentes" (da Comissão Europeia, do Conselho Europeu, do Banco Central Europeu e do Eurogrupo) no xadrez político europeu. 

Com as decisões tomadas envolvendo o papel do Banco Central Europeu (BCE), Mário Draghi averbou importantes ganhos, tendo diversos analistas já comentado que o BCE se poderá tornar no mais poderoso banco central do mundo.

O jornal alemão Der Spiegel salientou, por seu lado, que um dos perdedores da madrugada terá sido o Fundo Monetário Internacional, que viu eclipar-se a sua capacidade de controlo nos casos das grandes economias "periféricas", como Espanha e Itália.

Mensagem convencerá os investidores?


As bolsas asiáticas reagiram positivamente, com o MSCI Asia Apex 50 a subir 2,47% e os principais índices com subidas entre 1% (Xangai/Shenzhen CSI 300) e 2,23% (Hang Seng, de Hong Kong). O Nikkei 225 averba 1,82% de ganhos e o índice da bolsa de Singapura está a subir 1,67%.

Na abertura às 7h (hora de Portugal), as yields (juros) das obrigações espanholas (OE) e dos títulos do Tesouro italiano (BTP) estavam em baixa em todos os prazos no mercado secundário, com fortes quebras sobretudo no caso italiano. Os juros das OE a 10 anos desceram da proximidade dos 7% para 6,57% e os juros dos BTP, na mesma maturidade, de 6,20% para 5,89%, segundo dados da Bloomberg.

Resta ver, até final do dia, se os desejos do presidente do Eurogrupo, o luxemburguês Jean-Claude Junker, se tornarão realidade até ao fecho dos mercados financeiros. "Considerando a dificuldade do momento e das discussões, conseguimos enviar aos mercados uma mensagem - espero - que os convença", disse após o fecho do primeiro dia de cimeira.

"Urgência" até final de 2012


A cimeira admitiu que, com a criação de um mecanismo de supervisão único para o sector bancário da zona euro, envolvendo o Banco Central Europeu, "haja a possibilidade de recapitalizar diretamente os bancos" [em necessidade]. A criação deste mecanismo na zona euro foi considerada "matéria de urgência até final de 2012". O mês apontado é Outubro, segundo os analistas. O presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, considerou a recapitalização direta dos bancos um progresso marcante.

Esta decisão abre a porta para uma geometria variável nos Memorandos de Entendimento (MoU, no acrónimo em inglês) em casos de resgate, admitindo três circunstâncias: específicas a uma dada instituição; dirigidas a um sector específico; e abrangendo toda uma economia. Na realidade, um catálogo de fato por medida, de acordo com as circunstâncias. Naturalmente, que os MoU estarão sujeitos "à condicionalidade apropriada", incluindo o respeito pelas regras de ajuda aos estados membros da zona euro.

Esta mudança teve uma implicação imediata, que explicará o contentamento do irlandês Enda Kenny: "o Eurogrupo examinará a situação do sector financeiro irlandês", atendendo ao "bom andamento" do programa de ajustamento. Kenny levará para Dublin um prémio, para acalmar uma população que votou maioritariamente "sim" em referendo ao "pacto orçamental" e se começava a impacientar com a situação das promissórias irlandesas. O comunicado acrescenta que "casos similares serão tratados do mesmo modo".

Piscar de olho aos investidores privados

O primeiro dia da cimeira satisfez, também, a posição espanhola, de um programa "sectorial" de resgate, de recapitalização da banca. Van Rompuy, num tweet, sublinhou pela manhã: "Insistimos na conclusão rápida do apoio financeiro a Espanha para a recapitalização do seu sector bancário".

O comunicado pisca, depois, o olho aos investidores privados da dívida soberana, garantindo que o "sector oficial" (que vai emprestar o dinheiro a Espanha, através dos instrumentos financeiros europeus) não terá estatuto de senioridade em relação ao "sector privado", mesmo quando a linha de empréstimo (até 100 mil milhões de euros) for transferida do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) para o Mecanismo Europeu de Estabilização (MEE), que deverá entrar em vigor depois da reunião do Eurogrupo a 9 de julho.

Esta cedência sobre a senioridade está, neste comunicado, explicitamente relacionada, apenas, com o caso espanhol. Resta saber se fará regra. Charles Dallara, o responsável do International Institute of Finance, o lóbi internacional dos credores privados da dívida soberana, tem insistido que a senioridades (ou preferência em caso de incumprimento) do "sector oficial" é "uma nuvem que tem de ser removida do horizonte" que é a principal respnsável pela fuga da zona euro por parte dos investidores privados na dívida.

A dupla satisfação de Mário Monti


O comunicado sublinha que a cimeira entende tais instrumentos financeiros europeus (FEEF e MEE) como devendo ser usados de um modo "flexível e eficiente". O termo "flexível" agradou a Itália, tendo Mário Monti declarado a sua "dupla satisfação" com as decisões da cimeira (que livraram o primeiro-ministro "tecnocrata" de uma crise política imediata se chegasse a Roma de mãos vazias depois desta cimeira de dois dias) e com a passagem às finais no campeonato europeu.

No entanto, o comunicado "tempera" a flexibilidade com o respeito "pelas recomendações específicas para cada país e por outros compromissos incluindo os prazos, no âmbito do semestre europeu, o Pacto de Estabilidade e Crescimento e os procedimentos sobre desequilíbrios macroeconómicos", aspectos que deverão, sempre, ser refletidos nos MoU.

Os analistas em Espanha e em Itália interpretaram, de imediato, esta "flexibilidade" como a possibilidade do MEE, eventualmente ainda antes do final deste ano, poder viar a comprar dívida soberana dos países em dificudades, sem que tenham de ser submetidos a um plano de ajustamento adicional.

 

O BCE será o agente desses instrumentos na condução das operações de mercado.

A cimeira recomeça em Bruxelas às 9h (de Portugal).


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Comentários 16 Comentar
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'Cimeira europeia: "viragem sísmica" com recuo
Se estas notícias se confirmarem, parece-me que finalmente teremos fumo branco a sério para a Europa.

O que leio vai de todo ao encontro de muito do que intuitivamente penso e mesmo que já defendi em outros comentários: ajuda automática quando requerida por estados sob ataque externo e que se comprometem ao controlo das contas públicas, ajuda direta aos bancos sem passar pelos Estados, normalização do combate da crise em vez da sua exceptualização. E há até coisas que não tinha pensado ou não tinha pensado "possíveis" de aceitar. Quem diria que os responsáveis Europeus admitissem abdicar da senioridade da dívida que suportam? E no entanto, é o gesto certo: como expôs João Silvestre citando Daniel Gross, a senioridade pode aumentar abrutamente a perceção de risco para o investidor privado, com consequências contrárias ao que se pretende conseguir com a ajuda (restaurar a confiança e logo diminuir essa perceção de risco).

Normalizar a ajuda também é outro gesto certo: as políticas anteriores preocupavam-se mais em encontrar culpados do que em resolver os problemas. A moral passada onerando com culpas implícitas quem pede ajuda, dissuade o pedido desta em democracia, mesmo é necessária.

E depois temos os bancos: os estados não podem apoiar o privado diretamente, mas depois têm que se endividar pelos seus bancos, perante as regras de Bruxelas?... Que sentido faz isto?

Quem diria que a vitória de Hollande ia fazer tanta diferença?
ERRATA
O manicómio europeu
Depois de alguns preciosos anos perdidos e a caminho da 30ª cimeira histórica desde o início da crise das dívidas soberanas foi preciso a bomba atómica hispano-italiana para abanar um pouco a coisa.

Agora vejamos: o que pensará um irlandês comum, que viu o seu país intervencionado por problemas no sistema bancário, de soluções deste tipo?
Que pensarão os portugueses "punidos" pelo facto de terem uma banca menos exposta?

E agora o pior de tudo: depois das primeiras horas de euforia, que com um pouco de sorte entram fim-de-semana dentro, não será que os investidores vão cair na real e não encontrar num horizonte próximo nenhum sistema de supervisão que permita pôr em prática o mecanismo?
É que ainda faltam 6 meses para o fim do ano, o que nas actuais circunstâncias é uma eternidade.

A verdade é que continuamos ao sabor dos ventos, incapazes de antecipar o que quer que seja.
As estratégias são casuísticas e definidas e redefinidas pelos acontecimentos.

A única estratégia clara é, honra lhe seja feita , a alemã.
O problema é que não funciona agora como não funcionou em circustâncias similares.
Estamos então condenados a optar por uma "estratégia catavento" ou por uma "estratégia suicida". Venha o diabo e escolha!
 
Depois do arranjinho Merkel Hollande
É assim, o eixo franco-germânico tinha-se já arranjado pt.euronews.com/2012/06/28/cimeira-ue-hollande-e-merkel-querem-mais-europa/
afinal a salvação não veio de Hollande mas dos homens com pulso e poder para fazer dobrar Merkel.
E Portugal ganha alguma coisa com isto?
Depois d arranjinho Merkel Hollande,raRROI,Monti
Re: Depois do arranjinho Merkel Hollande
Re: Depois do arranjinho Merkel Hollande
Re: Depois do arranjinho Merkel Hollande
Re: Portugal
Isto não nos diz respeito
Quaisquer que sejam as decisões da cimeira elas não nos dizem respeito. Nós – o governo - temos um calendário, que será cumprido custe o que custar, dado que o nosso objectivo é transformar Portugal num país de indigentes. Ademais, qual é o país que aguenta uma tão alta esperança média de vida?
Re: Cimeira europeia: "viragem sísmica" com recuo
Claro que a Grécia não entra nestas contas e Portugal, logo se vê. Isto aqui é só para os países que interessam à Alemanha.
Estórias de adormecer
São o que este pessoal nos conta, em cada cimeira, em cada reunião, onde gastam aos milhares para chegar a conclusões que já estão pré-cozinhadas e que nem necessitariam deste teatro todo. Mas o povo gosta.
Mais uma vez o poder dos mais fortes se verifica nesta união fraca.
bloguedoano2012.blogspot.pt/
"ESTÁ BEM DE VER"
Está bem de ver que este ensaiado acordo apenas vai ajudar os endividados ricos e deixar menos miseráveis os endividados pobres.
Nada nais se vai passar e é a vida isto.
Pobre é, pobre fica ,rico é, mais rico fica.
However somos no entanto vitimas a dobrar pois (e falo do Povo) somos explorados duas vezes.Pelos de dentro primeiro com a sua incompetencia lendária e pelos de fora que estão completamente a borrifarem.se para nós e para os nossos incompetentes guias.
Pouco ou nada nos resta a não ser melhorar na escolha (tarefa quase impossível) Dir-se-á são todos iguais e procurar cada um por todos levar a vida dura até que uma qualquer indisposição gástrica nos leve sem grandes alaridos.
Nesse aspeto podemos dizer que estamos quase em pé de igualdade com os nossos filósofos que desgracadamente nos foram ao longo dos anos desgraçando com tanto roubo e tanta manhoziçe.
Iremos assim assistindo ao empobrecimento de um País que só foi rico sempre para alguns e sempre esses os mesmos.
Os jovens são o futuro mas não cá,também eles os filhos dos não boys terão de continuar a partir mas que fiquem ao menos por lá.
Deixa triste o ar, ver que não chegaram 9 seculos para termos uma casinha arrumada um País mais justo e mais amigo do seu Povo.
Somos ou tornaram-nos uma reserva de Índios para ser visitados enquanto duram umas férias de Verão ou outras.
Mete nojo a lama desta terra e que este Povo tem sido obrigado a suportar.
Kácus
Graças a Deus
a Alemanha com os 2 - 1 impostos pela Itália e na pessoa da senhora Merkel, recuou sob a pressão de uma direita do sul de Espanha e de Itália, ajudada pela esquerda francesa de Hollande.
A esperança cresceu e poderemos estar num momento de viragem politica na europa, que por fim poderá permitir que os nossos problemas possam ser resolvidos e que a evolução nacional possa efectivamente se inverter.
Desta cimeira ficaram duas imagens.
A face " zangada " do recuo de Merkel, repetida da reunião dos G20 e a face atónita e muda de Holande ouvindo o " bom aluno " Passos Coelho, como se não acreditasse no que estava a ouvir.
Embora, não fosse possível ouvir as palavras do primeiro ministro português, esperamos que Hollande seja mau actor e que as palavras de Passos Coelho não tenham sido uma defesa da posição da senhora Merkel ou algumas daquelas suas ideias peregrinas de que o desemprego ou a emigração são oportunidades ou o empobrecimento é uma riqueza.
Para os amantes do deus mercado, significativo é que tudo que se afasta da politica de Merkel "agrada" aos mercados, tudo que se aproxima dessa politica e necessita da sua " ajuda" só se tem degradado.
Nós Portugal, estamos infelizmente, nessa ultima posição.
Deixem-vos moderar o positivismo
Re: Deixem-vos moderar o positivismo
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Edição Diária 17.Abr.2014

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