19 de junho de 2013 às 9:39
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Cientista português ameaçado com processo judicial

Investigador da Universidade de Estocolmo questionou a eficácia de um detector de mentiras comprado, entre outros, pelo Governo britânico. Empresa ameaçou com processo por difamação e o artigo foi retirado do site da revista que o publicou. (Veja vídeo no fim do texto)
Nelson Marques
O investigador português Francisco Lacerda não esconde a sua estranheza pela decisão Tiago Miranda O investigador português Francisco Lacerda não esconde a sua estranheza pela decisão
A história tem contornos invulgares na comunidade científica. Em Dezembro de 2007, o investigador português Francisco Lacerda, do Departamento de Fonética da Universidade de Estocolmo, na Suécia, e o seu colega Anders Eriksson, da Universidade de Gotemburgo, publicaram na revista científica "The International Journal of Speech, Language and the Law" um artigo intitulado "A Charlatanice na Ciência Forense da Fala: um problema para ser levado a sério".

No trabalho, os dois investigadores questionam os fundamentos científicos de uma nova geração de "detectores de mentiras". Em particular, os autores criticam duramente uma tecnologia desenvolvida pela empresa israelita Nemesysco, que, através da análise da voz avalia o stress emocional para determinar se a pessoa está a mentir ou não. O software foi já adquirido, por exemplo, pelo Governo britânico para detectar, ao telefone, fraudes no sector dos seguros e da segurança social, mas assenta, segundo Lacerda e Erikson, que citam dois estudos sobre a tecnologia, "num completo disparate".

"Infelizmente, o que compraram é, com boa vontade, um gerador (muito caro) de respostas aleatórias. Ao contrário do que acontecia com os detectores antigos, que eram baseados em medidas de instabilidade da voz ou condutância da pele, este algoritmo é perfeitamente arbitrário e não dá sequer para extrair qualquer informação relevante do sinal da fala", afirmou o investigador ao "Expresso", não poupando na ironia. "É por isso que funciona 'tão bem' através do telefone como com um sinal gravado em boas condições acústicas. Um verdadeiro prodígio científico, considerando a dificuldade que os sistemas de reconhecimento de fala têm em funcionar em ambientes acústicos adversos".

Revista ameaçada com processo judicial


As duras críticas não agradaram ao presidente da empresa, Amir Liberman, que, em Dezembro último, um ano depois da publicação do artigo, instou os seus advogados a escrever uma carta à editora que publicou o trabalho, a Equinox, ameaçando-a com um processo de difamação se esta não se retratasse. A ameaça surgiu poucos dias depois do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, ter confirmado a aquisição dos referidos detectores de mentiras para o combate à fraude.

Em causa, segundo Liberman, está não a publicação dos resultados, mas o facto de os investigadores terem chamado "charlatães" aos produtores da tecnologia. A editora retirou de imediato o artigo da Internet (ainda que versão em papel não tenha sido alvo de qualquer rectificação) e colocou no seu "site" uma nota explicando que, tendo em conta o conteúdo do trabalho, o fabricante deveria ter sido ouvido.

Lacerda não esconde a sua estranheza pela decisão. "Concordo que a escolha de palavras não foi a mais feliz, mas fiquei surpreendido com o facto da editora ter simplesmente retirado o artigo do seu "site", ao invés de publicar a carta da empresa e uma desculpa pela linguagem usada". Para o investigador, os recursos da companhia israelita cresceram de tal forma que ela pode dar-se ao luxo "de forçar a retirada de um estudo científico, revisto pelos seus pares, por este questionar a sua tecnologia".

Em declarações à Science, onde a polémica foi recentemente abordada, Janet Joyce, directora da Equinox, afirmou que a revista, publicada duas vezes por ano, com uma tiragem de menos de 500 exemplares e sem funcionários a tempo-inteiro, "não tem recursos para enfrentar uma batalha legal".


Veja aqui um vídeo da National Geographic sobre a tecnologia de análise de voz para detecção de mentiras



Comentários 30 Comentar
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Lacerda
Lacerda, aproveite a mediatização e publique noutra revista. Era o que faltava ter uma ditadura de empresas a querer decidir o que a ciencia deve ou não investigar e quais as palavras que os cientistas devem usar para escrever. Se este processo for a avante vai ameçar irremediavelmente a liberdade necessária para fazer ciencia. Creio ser um precedente demasiado perigoso para o mundo ocidental. Talvez em israel eles estejam habituados a viver no fascismo e a submeter-se à teocraciazinha, mas na europa e nos estados unidos nós não gostamos disso.
Re: Lacerda Ver comentário
Inacreditável
É inacreditável que uma revista científica se veja obrigada a retirar do acesso ao público um artigo nela publicado por motivos relacionados com os interesses comerciais de uma qualquer indústria. A expressão "charlatães", ainda que porventura merecida, pode ser um pouco ousada e talvez mereça ser retirada; mas não é aceitável que uma questão de "estilo" como esta possa ser submetida à tirania das ameaças com advogados e outras coisas parecidas. Caso o artigo seja realmente "científico", todos os Universitários se deveriam unir num monumental coro de protesto contra uma empresa assim. De resto, se ameaçam é porque, realmente, não estão seguros do que fazem e (possivelmente, por bons milhões) vendem a governos ansiosos e apavorados. Gostaria de poder ler o artigo em causa; caso se trate realmente de um artigo científico, gostaria de participar em qualquer acção que faça sentir aos eventuais “hooligans” da indústria que a procura da verdade, e a verdade cientificamente “hipotetisada”, quanto mais a “provada”, está acima de acções desse (inqualificável) calibre.
Re: Inacreditável Ver comentário
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É o fim da investigação.
Se a moda pega, acaba-se a investigação.
Nada pode ser analisado, avaliado, comparado.
Nenhum artigo de opinião pode ser publicado.
Nem um comentário se pode fazer aos amigos.

A Deco que se cuide.
De cada vez que incluir um produto na Pro-Teste, pode contar com mais um processo.

Ao que chega o absurdo!
Se fosse um americano...
... os brithis nem abriam a boca.
Nemesysco....EMPRESA ISRAELITA....TINHA QUE SER
Para alem de comercializarem uma charlatanice ainda se preparam para sacar umas coroas aos suecos ...tipico
Re: Nemesysco....EMPRESA ISRAELITA....TINHA QUE SE Ver comentário
!
"Amir Liberman, que, em Dezembro único, " Seguindo a história do magalhães!!Afinal não é só a caixa mágica que deixa passar algumas calinadas!!
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kya & Forevertheuni "pégados?) Ver comentário
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Assustador!
Não encontro outra palavra para descrever o que uma empresa privada tem o poder de fazer...
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RISCO?
Será que há já alguns acusados com base nesta CHARLATANICE? Que será de nós no futuro?
Re: RISCO? Ver comentário
O nosso CIENTISTA...Tem testiculo...!
Sabem qual é o nosso problema meus amigos...? é que a comunidade internacional esta tâo habituada a que os portugueses so sejam bons para lavar pratos, fazer limpeza ou passar a ferro que quando aparece um CIENTISTA ficam admirados e temtam logo metê-lo asd caçoilas.
Como diz um comentador atras publique noutra revista FAçA_OS chier como se diz em francês.
Por essa razao nao tenha medo de ir a tribunal é mesmo la que você vai dizer as verdades.
VIVAM TODOS OS POUCOS PORTUGESES CIENTISTAS.
Cientista português ameaçado
Se o caso não fosse tão rídiculo,tratava-se da melhor anedota do ano. Até parece que ainda estamos no tempo da Inquisição. Afinal ainda não foi abolida completamente da face da Terra.
Re: Cientista português ameaçado Ver comentário
Re: Cientista português ameaçado Ver comentário
Cara de bebado ou de morto não resulta!
Ó governantes do meu país, vá lá, comprem o lixo perfeito aos nossos camaradas judeus e apliquem-o aos ex. administradores dos bancos.
Sugestão .

Para confirmar a fiabilidade da maquina porque não colocá-la na AR durante uns dias ??

De acordo com o resultado obtido poderemos imediatamente concluir se é " charlatanice " ou não .

Perigoso mesmo é que esta " maquineta " tenha a capacidade de influenciar julgamentos de pessoas !
Re: Sugestão . Ver comentário
Que coisa absurda!
Este absurdo vai proliferar e corremos o perigo de adquirir tecnologia do tipo quinquilharia, sem que ninguém possa opiniar sobre suas qualidades ou defeitos, com esse tipo de espada sobre a cabeça.
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