Cientista português ameaçado com processo judicial
No trabalho, os dois investigadores questionam os fundamentos científicos de uma nova geração de "detectores de mentiras". Em particular, os autores criticam duramente uma tecnologia desenvolvida pela empresa israelita Nemesysco, que, através da análise da voz avalia o stress emocional para determinar se a pessoa está a mentir ou não. O software foi já adquirido, por exemplo, pelo Governo britânico para detectar, ao telefone, fraudes no sector dos seguros e da segurança social, mas assenta, segundo Lacerda e Erikson, que citam dois estudos sobre a tecnologia, "num completo disparate".
"Infelizmente, o que compraram é, com boa vontade, um gerador (muito caro) de respostas aleatórias. Ao contrário do que acontecia com os detectores antigos, que eram baseados em medidas de instabilidade da voz ou condutância da pele, este algoritmo é perfeitamente arbitrário e não dá sequer para extrair qualquer informação relevante do sinal da fala", afirmou o investigador ao "Expresso", não poupando na ironia. "É por isso que funciona 'tão bem' através do telefone como com um sinal gravado em boas condições acústicas. Um verdadeiro prodígio científico, considerando a dificuldade que os sistemas de reconhecimento de fala têm em funcionar em ambientes acústicos adversos".
Revista ameaçada com processo judicial
As duras críticas não agradaram ao presidente da empresa, Amir Liberman, que, em Dezembro último, um ano depois da publicação do artigo, instou os seus advogados a escrever uma carta à editora que publicou o trabalho, a Equinox, ameaçando-a com um processo de difamação se esta não se retratasse. A ameaça surgiu poucos dias depois do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, ter confirmado a aquisição dos referidos detectores de mentiras para o combate à fraude.
Em causa, segundo Liberman, está não a publicação dos resultados, mas o facto de os investigadores terem chamado "charlatães" aos produtores da tecnologia. A editora retirou de imediato o artigo da Internet (ainda que versão em papel não tenha sido alvo de qualquer rectificação) e colocou no seu "site" uma nota explicando que, tendo em conta o conteúdo do trabalho, o fabricante deveria ter sido ouvido.
Lacerda não esconde a sua estranheza pela decisão. "Concordo que a escolha de palavras não foi a mais feliz, mas fiquei surpreendido com o facto da editora ter simplesmente retirado o artigo do seu "site", ao invés de publicar a carta da empresa e uma desculpa pela linguagem usada". Para o investigador, os recursos da companhia israelita cresceram de tal forma que ela pode dar-se ao luxo "de forçar a retirada de um estudo científico, revisto pelos seus pares, por este questionar a sua tecnologia".
Em declarações à Science, onde a polémica foi recentemente abordada, Janet Joyce, directora da Equinox, afirmou que a revista, publicada duas vezes por ano, com uma tiragem de menos de 500 exemplares e sem funcionários a tempo-inteiro, "não tem recursos para enfrentar uma batalha legal".


Tiago Miranda
O investigador português Francisco Lacerda não esconde a sua estranheza pela decisão