Almada, Setúbal, 24 Mai (Lusa) - "As microalgas serão um ingrediente funcional do futuro: para a alimentação, aos níveis ambiental e energético e em vários aspectos do quotidiano", garante Luísa Gouveia, investigadora do Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial.
"As microalgas são, na verdade, um imenso mundo microscópico", afirma a investigadora. "Serão uma solução nutricional mas também energética e ambiental", sublinha a investigadora, na sequência da palestra proferida no VII Encontro de Engenharia Alimentar e Nutrição, no Campus Universitário do Instituo Piajet, em Almada.
Luísa Gouveia explica que as microalgas "podem aparecer em todo o tipo de habitats - desde o deserto à neve, sem esquecer a água salgada ou mesmo águas de esgotos - e contêm uma grande riqueza nutricional, com uma eficácia superior em relação às tradicionais culturas vegetais terrestres".
Nesse sentido, afirma, "as suas culturas podem estender-se a áreas e climas inadequados para práticas agrícolas, exigem menor quantidade de água e menor qualidade, crescem mais depressa, não utilizam herbicidas nem pesticidas e, não tendo dependência sazonal, podem ser colhidas diariamente".
A investigadora destaca ainda a ideia de que as microalgas representam um forte contributo para o desenvolvimento sustentado e para a melhoria da gestão de recursos naturais: "São aplicáveis na produção de biocombustíveis - biodisel, bioetanol e biohidrogénio - e no sequestro de CO2, que consomem e que fixam, contribuindo para a minimização do efeito de estufa e das alterações climáticas".
Como problemas deste tipo de culturas, Luísa Gouveia destaca as baixas densidades celulares - que aumentam o preço da colheita -, a possibilidade de contaminação nas plantações ao ar livre - "que, uma vez que as microalgas são seleccionadas, não apresenta qualquer perigo para o consumidor" - e o sobreaquecimento.
"Há ainda os benefícios no campo da saúde", afirma Luísa Gouveia, acrescentando: "É possível produzir novos alimentos, mais saudáveis, nomeadamente ricos em antioxidantes e ácidos gordos poliinsaturados, do tipo ómega-3, com vantagens do ponto de vista económico - porque prevenir doenças é mais barato do curá-las - e social - porque não é necessário que as pessoas mudem comportamentos alimentares para obterem benefícios".
A investigadora sublinha o potencial das aplicações de microalgas. "O mais surpreendente neste campo é a margem de progressão que temos pela frente", afirma. "Neste momento têm sucesso laboratorial entre 10 e 20 espécies de microalgas. Há investigadores que afirmam existir 60 mil espécies diferentes, ainda por estudar".
Luísa Gouveia, que coordena a Unidade de Biomassa do Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial, critica o pouco investimento feito neste campo a nível nacional: "O apoio que temos é residual e chega parcamente para a investigação", afirma.
Por parte da indústria, acrescenta, "não tem também havido um grande interesse em aplicar as soluções a que temos chegado na produção de produtos preparados a partir de ingredientes microalgais funcionais, nomeadamente maioneses, pudins, bolachas, massas alimentícias e caviar".
"E é lamentável que em Portugal, com as condições climatéricas que temos - as horas de luz e de sol e a temperatura - não se tenha ainda olhado para este caminho", termina.
De acordo com a investigadora, é difícil encontrar números que expressem a produção de microalgas em todo o mundo. É possível, no entanto, destacar os maiores produtores: Estados Unidos da América, Israel, Índia, Austrália e China.
JYF
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