A prisão do maior artista e ativista político Ai Weiwei
, detido há uma semana em Pequim, levantou uma onda de protesto em Hong Kong e inundou a Internet chinesa com a frase "Ai Wei Lai" ("ame o futuro"), cujos ideogramas são quase idênticos aos do nome do dissidente.
A frase "Ai Wei Lai" foi uma tática usada para driblar a censura na China. Enquanto os censores se empenhavam em eliminar rapidamente todos os "posts" sobre a detenção do artista na Sina Weibo (a rede social mais popular do país asiático, com mais de 420 milhões de utentes), os internautas lançaram a frase que se multiplicou de forma progressiva pela Web ao ponto de fazer o aparelho de censura chinês correr contra o tempo para eliminar as mensagens.
A manifestação em Hong Kong foi organizada pela comunidade artística residente nessa região administrativa especial chinesa. Dissidentes, artistas e seguidores de Weiwei - que traziam t-shirts com a frase "mau país, não há amor", numa alusão ao apelido do ativista - exigiram o respeito pelos direitos humanos e a sua libertação imediata.
Ai Weiwei é o autor do Ninho de Pássaro, o vanguardista estádio dos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008, e tem feito críticas à política chinesa.
Internet inundada com "amor pelo futuro"
Um grupo de estudantes da Universidade de Berkley, que gere um site contra a censura chamado China digital Times, conseguiu salvar e traduzir alguns desses "posts", muitos dos quais incluem uma fotografia de Weiwei, que tem 53 anos. "Nós amamos o futuro, não só por uma pessoa, mas porque esperamos que o futuro seja melhor", pode ler-se num dos textos. Outro, dá pistas sobre o desaparecimento do artista: "Nós amamos o futuro, mas o futuro desapareceu, o futuro está na prisão, o futuro se foi".
Os internautas fizeram também críticas contra a passividade da sociedade chinesa face à repressão atual: "o facto mais aterrorizador deste país não o Governo fazer o que quer, mas as pessoas aceitarem 'este país é assim, não é possível mudá-lo, é preciso acostumarmo-nos'". Os apoiantes do artista entendem que "enquanto essas pessoas não forem as vítimas, tolerarão a desgraça alheia".
De acordo com várias organizações defensoras dos direitos humanos, a China tem em curso - desde a atribuição do Nobel da Paz, em outubro, ao dissidente Liu Xiaobo - uma das maiores campanhas de repressão da sua história. Segundo o relatório norte-americano sobre a situação dos direitos humanos no mundo, divulgado na passada sexta-feira, os direitos humanos seguem uma "espiral negativa" na China.
Repressão disfarçada de crimes económicos
A polícia chinesa alega que prendeu Weiwei por "crimes económicos" mas a família queixa-se de repressão contra o intelectual que em dezembro foi proibido de deixar a China. O arquiteto, performer e dissidente foi detido no passado dia 3, em Pequim, quando tentava embarcar num voo para Hong Kong. Desde enão ninguém sabe onde se encontra.
Esta não é a primeira vez que Weiwei vê cerceada a sua liberdade. Já em novembro passado ficou em prisão domiciliária.
No mesmo mês, Weiwei explicou no Twitter o seu impedimento de sair de casa para participar do banquete que organizou a fim de celebrar a demolição do seu ateliê em Xangai. O artista - conhecido internacionalmente pelo seu trabalho, ativismo político e irreverência -, só veio a ser libertado depois do banquete (uma "caranguejada", da qual participaram centenas de pessoas). A palavra caranguejo de rio parece-se com "harmonia", um dos conceitos chave da propaganda do Partido Comunista Chinês.
Weiwei expressou, então, que os verdadeiros motivos da sua detenção são o apoio que tem dado a outros dissidentes e as críticas que tem feito à politica de Pequim.
O Governo chinês assegurou na passada quinta-feira que, desta vez, a sua detenção está relacionada com uma investigação por suposto crime financeiro. Mas essa foi a mesma estratégia legal usada anteriormente pelas autoridades chinesas contra dissidentes como o ecologista Wu Lihong, o advogado Xu Zhiyong e o jornalista Zhao Yan.
A sua família não sabe onde está Weiwei, e teme que o artista - que é filho do poeta Ai Qing, que foi perseguido pela Guarda Vermelha de Mao Tsé-tung após lutar com ele na revolução dos anos 40 - não esteja a ser medicado contra a diabetes.
Na década de 90, Weiwei pintou logótipos da Coca-cola em antigos potes chineses, partiu mobiliário clássico chinês e fotografou-se a fazer gestos obscenos com um dedo em frente à Torre Eiffel, à Casa Branca e à Praça de Tiananmen.
Weiwei denunciou os Jogos Olímpicos como uma lavagem de cara do Governo chinês e, mais recentemente, após o terramoto de Sichuan em 2008, que matou milhares de crianças durante a derrocada de escolas, recolheu imagens da tragédia e o depoimento de pais de crianças mortas ou desaparecidas, utilizando o seu próprio blogue para acusa os responsáveis locais cuja corrupção tinha estado na origem dos edifícios mal construídos. O artista foi um dos sbscritores da chamada Carta 08, um manifesto que pedia reformas políticas no país, documento cujo principal impulsionador foi o dissidente Liu Xiabo, agora prémio Nobel da Paz.
O mais recente trabalho de Ai Weiwei foi uma instalação de cachimbos de porcelana na Tate Modern, em Londres, galeria onde inaugurou no ano passado uma instalação com 100 milhões de sementes de girassol.