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Charles Dickens, lembram-se?

Em Portugal, a culpa ou a falha estão sempre do lado da solução.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 24 de abril de 2010

Não sei se ainda alguém lê Charles Dickens, em particular essa obra sublime que é "Oliver Twist". Recordo-vos um excerto das primeiras páginas (tradução de Mário Domingues, edição Romano Torres, 1952, que passou amorosamente das mãos da minha mãe para as minhas) sobre o árduo nascimento do herói: "O facto é que custou muito trabalho decidir Oliver a exercer as suas funções respiratórias, exercício fatigante mas que o hábito tornou necessário ao bem-estar da nossa existência; ele permaneceu estendido durante algum tempo num pequeno colchão, fazendo esforços por respirar, numa incómoda posição entre este Mundo e o outro e inclinando-se para este, de preferência. Se durante este curto espaço de tempo Oliver estivesse rodeado de avós ansiosos, de tias inquietas, de amas experientes e de médicos profundamente sabedores, inevitável e indubitavelmente teria logo morrido. Mas como não estava lá ninguém, a não ser uma pobre velha, que nada podia ver devido a uma ração dupla de cerveja, e um cirurgião, pago ao ano para aquelas tarefas, Oliver e a Natureza lutaram sozinhos. E o resultado foi que, após alguns esforços, Oliver respirou, espirrou e avisou os habitantes do albergue do novo encargo que ia pesar sobre a paróquia, soltando um grito tão agudo quanto se poderia esperar de uma criança do sexo masculino que só havia três minutos e meio se encontrava no uso de um dom útil que se chama voz." Segue-se o grito lancinante da mãe suplicando que a deixem ver o filho antes de morrer, e o início da odisseia de fome e maus-tratos que constituirá toda a infância de Oliver. O narrador descreverá sempre os horrores e injustiças a que Oliver é sujeito como factores de fortalecimento do seu carácter e das suas capacidades de sobrevivência.

É verdade que Oliver beneficiou, pelo menos, da falta de exemplos corrosivos por parte dos pais, que não conheceu. A mesma sorte não tem a maioria dos mais de 12 mil menores institucionalizados em Portugal. Só 10% destes milhares de jovens entregues a instituições de acolhimento são candidatos à adopção - porque, para começar, 61% deles têm mais de 12 anos. Sempre que os números das crianças entregues ao Estado são actualizados, surgem declarações de responsáveis lamentando as exigências das famílias adoptantes, designadamente a pretensão de adoptarem crianças com menos de três anos e sem doenças graves. Em Portugal, a culpa ou a falha estão sempre do lado da solução: assim, puxam-se as orelhas aos candidatos a pais adoptivos, acusando-os de não se contentarem com menos do que 'filhos perfeitos'. Dispensemos o contra-interrogatório óbvio a estes paladinos da moral dos outros (género: e tu, Brutus, que assim me acusas, quantos delinquentes de 12 anos estás disponível para adoptar?, etc). Perguntemos, simplesmente: por onde andaram estes menores até irem bater com as tenras costelas nos catres das instituições, já em viçosa adolescência? Quantas vezes foram violentados e/ou abandonados por pais alcoólicos e/ou drogados até serem finalmente afastados da sagrada família biológica?

Portugal não resolverá os gravíssimos problemas de delinquência juvenil que tem enquanto os direitos da criança continuarem a ser mera letra de forma. Todos os dias tomamos conhecimento de casos em que as crianças são arrancadas às famílias funcionais que as criaram para serem entregues, sem dó nem piedade, aos seres incapazes que as geraram. Todos os dias ouvimos histórias de crianças das quais as mães fogem, ainda na maternidade. O Estado procura afanosamente as mães ou os pais fugidos e dá-lhes repetidas oportunidades de reabilitação - entretanto as crianças crescem, e depois aponta-se o dedo ao egoísmo dos adoptantes, que têm o desplante de querer bebés. Educar uma criança a partir do zero já é uma tarefa ciclópica - imagine-se o que será educá-la a partir do menos um, ou do menos cem. Se há casos, como o que foi noticiado há dias, de pais adoptivos que rejeitam o filho três meses depois de o levarem para casa, só porque a criança tem medo do rotweiller de estimação da família, isso apenas significa que o processo de adopção deveria ser mais cuidadoso e profissional. Uma medida de elementar bom senso seria pôr de parte os amantes de rotweillers - mas o Estado português entende que os rotweillers são menos perigosos do que os homossexuais. É estranho. Muito estranho. Os responsáveis destas coisas deviam começar por ler Dickens. Talvez os ajudasse a discernir - digo eu que, graças a Oliver Twist, sou uma optimista.

Texto publicado na edição da Única de 17 de Abril de 2010

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Muito bom!
Jabuticaba (seguir utilizador), 1 ponto , 13:16 | Sábado, 24 de abril de 2010
Do pouco que conheço, e portanto, opinião parcial, acho uma vergonha as avaliações feitas às pessoas que se candidatam à pais adoptantes. Sei que a capacidade de amar é dificilmente quantificável, mas existem alguns sinais óbvios da não-capacidade de amar ou de ser pai ou mãe. A mim, parece-me óbvio que a capacidade de gerar ou parir não é sinónimo de capacidade de ser pai ou mãe.
Meus agradecimentos à Inês Pedrosa por colocar o dedo na ferida.
 
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Otimista, talvez
Arrebenta (seguir utilizador), 1 ponto , 23:54 | Segunda feira, 26 de abril de 2010
Agora escritora... Tens de papar muitos Charles Dickens, depois, experimenta passar por Stevenson, e vai ao Borges. Se conseguires, tenta depois Proust, Joyce e Ezra Pound.
Suponho que os últimos 6 nomes vão ficar para os teus netinhos, como trabalho de casa :-)
 
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