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Chamar pai a outro

A falta de controlo na procriação artificial pode levar a que o mesmo lotezinho níveo, conservado dezenas de anos, sirva para conceber centenas de irmãos, filhos e netos uns dos outros, numa endogamia, que não sendo tão abjecta como a de um conhecido austríaco, não deixa de ser inquietante.

12:15 Terça feira, 13 de setembro de 2011

Um dador de esperma americano é pai de 150 filhos. Pelo menos. A descoberta foi feita por Cynthia Daily, uma assistente social de Washington, que viu a irmandade do seu rebento exponencialmente alargada.

Cynthia Daily, como o seu próprio apelido indica, preocupava-se diariamente em saber onde andavam os irmãos do seu filho, concebido por inseminação artificial. Para o efeito criou um grupo on line. Destapou, não uma caixinha de Pandora, mas um mega-contentor, onde despontam alegremente 150 criancinhas das mais variadas idades. Muitas mais devem vir a caminho.

Daily descobriu o imaginável. Que os irmãos do seu filho tinham o mesmo pai anónimo, especialista em concepção manual através de remuneração adequada. Na hipertecnológica América a actividade manual, no recato do WC de uma clínica, pode proporcionar rendimentos muito reprodutivos.

Daily, com um notável sentido de família, quis juntar os irmãozinhos para se conhecerem. Participou em viagens de férias com a família dos meios-irmãos, para se encontrar com eles, e verificou que eram iguaizinhos. Pudera. Saíam ao pai.

O pai, o dador, salvo seja - porque o homem não doou nada a ninguém -, traficou e bem a sua nívea mercadoria, supurada num copinho de plástico asséptico, despreocupado com a descendência.

Se Obama fosse, mandava a clínica revelar o nome do prolífico pai de todos. E solicitava a  Cynthia Daily que organizasse ceias de Natal com o progenitor do seu filho e a restante filharada dele. O homem, que deve ter mãos largas, pelo menos uma delas, devia ser coagido a dar todos os anos as respectivas prendas de Natal à ninhada e pagar a respectiva pensão de alimentos. Desconfio que não lhe chegavam os réditos para contentar os petizes.

Eu, que julgo ser pai de dois filhos concebidos por métodos muito avançados, não manuais, tenho dificuldade em compreender certas coisas.

Se os meus filhos não tivessem nascido eles não desconfiavam de nada e não seriam infelizes. E, se eu não tivesse sido despejado na terra vítima de alguma interrupção involuntária, não sabia dos putativos problemas das Cynthias deste mundo, e de Portugal, onde este negócio já prospera há mais 15 anos.

Também pode não ser um drama não ter filhos. Como o não era há 30 anos. E ainda o não é para muitos casais deste tempo.

Mas se o extraordinário avanço da ciência permite que casais, menos afortunados biologicamente, e que ardentemente desejem um filho o possam ter, ainda bem. Mas com conta, peso e medida. E, já agora, sabendo ao que vão. E que parentes iguaizinhos podem encontrar numa qualquer esquina do tempo.

A falta de controlo e de regulamentação na procriação artificial pode levar a que o mesmo lotezinho níveo, conservado dezenas de anos, sirva para conceber centenas, ou milhares, de irmãos que são filhos e netos uns dos outros, numa endogamia, que não sendo tão abjecta como a do austríaco Joseph Fritzl, não deixa de ser alarmante.

O incesto, pelo facto de ser ignorado, não deixa de ser incesto. E, para além disso, o aproveitamento comercial dos lotes dos melhores "dadores", que as clínicas rentabilizam à exaustão para obter maiores lucros, pode levar à transmissão de doenças genéticas indesejáveis. Mas que interessa isto se o segredo é a alma do negócio?

São os sinais dos tempos. Estas 150 criancinhas, como muitas outras, habituam-se a chamar pai a outro. É a menor das dificuldades.  

Há muito pai biológico que se não recomenda. E aquele que é apenas um número num catálogo, embora tenha rosto, sexo e mão, não é seguramente o pior. Ausente, anónimo, em tempos pulverizado em lamelas congeladas, é melhor do que nada.

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