Cavaco Silva é o Jorge Jesus da política portuguesa
1.Há organizações que pela sua dimensão, pelo seu simbolismo, pela sua relevância social são, em cada momento histórico, um reflexo do país. Pense-se, no tempo em que vivemos, no exemplo do Sport Lisboa e Benfica. O Benfica, em termos numéricos, é o clube português que congrega mais sócios, mais galvaniza a sociedade portuguesa e que mais jornais vende. São factos - não pretendo, pois, emitir qualquer juízo negativo ou depreciativo quanto aos restantes clubes nacionais que merecem o meu (maior!) respeito. No presente ano futebolístico (prestes a terminar), o Benfica reforçou-se imenso, procedendo a investimentos significativos para melhorar o seu plantel, numa aposta clara em jogadores de projecção internacional, numa conjunção inusitada de jovens apostas com a experiência de jogadores internacionais. A fasquia foi, portanto, colocada bem lá em cima: a vitória do campeonato era um objectivo primordial (indispensável!); sentia-se que o plantel era de grande qualidade e bastante equilibrado (como há muito não sucedia!), o que permitiria ir longe na Champions; como prémio adicional, o Benfica prometia conquistar a Taça de Portugal e a Taça da Liga. No início da temporada desportiva, os benfiquistas respiravam alegria, entusiasmo, confiança! É agora, é agora - clamavam os mais entusiastas! Jogadores de grande nível, uma equipa entrosada, com grande dinâmica, a praticar um excelente futebol - só poderia redundar numa vitória clara, sem espinhas, do Glorioso no campeonato! Outro desfecho não poderia acontecer...Mas aconteceu: o Futebol Clube do Porto, para não variar, deu mais uma bofetada de luva branca nos dirigentes benfiquistas e...conquistou mais um campeonato.
2.A ideia que eu pretendo deixar clara hoje é esta, caros leitores: o Benfica é o retrato de Portugal. Nós podemos ter recursos financeiros vindos de Bruxelas, podemos ter potencialidades turísticas e ao nível da investigação científica e da inovação, podemos ter muita coisa - mas falhamos sempre nas metas, desiludimos nos resultados. Porquê? Falta organização e autoridade democrática do poder político. As pessoas para se empenharem num projecto colectivo precisam de ser lideradas, de ser inspiradas, motivadas para alcançar um determinado objectivo. As pessoas precisam de saber que, no final, de tanto sacrifício, há uma luz ao fundo do túnel - a compensação virá. E se todos trabalharmos para o nosso bem individual, o bem colectivo será bastante gratificante! Bem superior! Só que, infelizmente, em Portugal ninguém é responsável pelos atentados mais chocantes ao interesse público, pela captura do interesse da Nação pelos interesses privados ocultos e outros menos bem disfarçados, podendo beneficiar os BPN's, os BPP's desta vida sem obstáculos. Resultado: têm que vir uns senhores do FMI tentar meter ordem na casa.
2.1. Ora, no Benfica, o problema é o mesmo: falta organização. Na estrutura dirigente do Benfica, ninguém sabe quem manda: primeiro, silenciou-se Rui Costa, diminuindo os seus poderes na gestão da equipa de futebol; depois, Luís Filipe Vieira desapareceu do mapa, ficando calado, mesmo quando percebeu que a equipa caminhava, de desastre em desastre, para a entrega do campeonato ao Futebol Clube do Porto numa bandeja dourada. Com um objectivo: dar protagonismo a Rui Gomes da Silva, que se perfila como o mais que provável sucessor de Luís Filipe Vieira (mantendo-se, assim, a tradição da promiscuidade entre o futebol e a política, embora este exemplo não seja dos mais gritantes). O Benfica perdeu o campeonato por demérito próprio: em vez de se discutir (mais uma vez!) as arbitragens, convém aproveitar o tempo para pensar naquilo que correu mal (pense-se na exibição vergonhosa do Benfica contra o Sporting!) e concluir que o Benfica precisa urgentemente de definir um modelo organizativo - senão, não vai a lado nenhum. Como é que ainda não perceberam isso? Espera-se que a responsabilidade, tal como na política, não fique por apurar: quem não cumpriu metas deve ser penalizado e responsabilizado. Jorge Jesus, por muito simpático que possa ser, falhou em toda a linha. Era difícil fazer pior. Não há condições: terá de se demitir (ou de ser demitido) rapidamente.
O Cavaco Silva insignificante
4. Estas considerações fazem-me evocar o discurso de Cavaco Silva nas comemorações do 25 de Abril, as quais foram tão irrelevantes que nem suscitaram um comentário imediato da minha parte. De facto, o discurso de Cavaco Silva, no conteúdo, foi tão pobre e insignificante que fizeram mais para a descredibilização das comemorações do 25 de Abril do que a não comparência dos "capitães de Abril" (um nome pomposo para quem se arroga no direito de se apoderar de uma data da nossa História colectiva para dar entrevistas), de Manuel Alegre e Mário Soares juntos. Cavaco Silva e Jorge Jesus são mesmo muito parecidos: quando ninguém espera que eles façam um trabalho (ainda) pior, eles surpreendem ...e conseguem ainda descer mais o nível! Sem comentários.
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