"Só um diagnóstico correto e um discurso de verdade sobre a natureza e a dimensão dos problemas económicos e sociais que Portugal enfrenta permitirão uma resposta adequada", disse Cavaco Silva no seu discurso de tomada de posse e eu subscrevo. "Como em tudo na vida, para delinearmos o melhor caminho para atingirmos o futuro que ambicionamos, temos de saber de onde partimos", continuou e não podia ter mais razão. O problema vem depois. É que quase tudo o que foi referido vem de longe.
Defendeu o Presidente Cavaco Silva que esta foi uma "década perdida". É verdade. Mas recordo que houve outra, quando o dinheiro chegava em grandes quantidades ao nosso país. E foi nessa década que grande parte do modelo de desenvolvimento que nos trouxe até aqui foi delineado. Era primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva.
Defendeu o presidente Cavaco Silva que não nos podemos esquecer dos "encargos futuros com as parcerias público-privadas". Recordo que o primeiro-ministro Cavaco Silva estreou estas ruinosas parcerias com a ponte Vasco da Gama.
Defendeu o Presidente Cavaco Silva que há uma "concessão indiscriminada de crédito, em especial para fins não produtivos". Recordo que a compra de casa própria é um dos principais sorvedouros de crédito e que houve poucos governos que mais tenham promovido este tipo de investimento das famílias do que o do primeiro-ministro Cavaco Silva.
Defendeu o Presidente Cavaco Silva que "temos de apostar de forma inequívoca nos setores de bens e serviços transacionáveis". Recordo que o primeiro-ministro Cavaco Silva apostou na construção civil e no betão.
Defendeu o Presidente Cavaco Silva que "não podemos privilegiar grandes investimentos que não temos condições de financiar, que não contribuem para o crescimento da produtividade e que têm um efeito temporário e residual na criação de emprego". Recordo os brutais investimentos públicos feitos pelo primeiro-ministro Cavaco Silva, que sugaram os fundos europeus, sem que que tal tivesse, como se vê, um efeito mais do que temporário na economia ou mais do que residual no emprego.
Defendeu o Presidente Cavaco Silva que os portugueses devem participar "mais ativamente na vida coletiva, afirmando os seus direitos e deveres de cidadania e fazendo chegar a sua voz aos decisores políticos". Recordo que não houve no Portugal democrático nenhum governante que mais vezes reprimisse qualquer tentativa popular de fazer chegar a voz dos cidadãos aos decisores políticos do que o primeiro-ministro Cavaco Silva.
E, cereja em cima do bolo, defendeu o Presidente Cavaco Silva que "em vários sectores da vida nacional, com destaque para o mundo das empresas, emergiram nos últimos anos sinais de uma cultura altamente nociva, assente na criação de laços pouco transparentes de dependência com os poderes públicos". Nos últimos anos? Pois ela é quase tão antiga como a nação e teve no tempo em que Cavaco Silva era primeiro-ministro um dos seus momentos mais vistosos. Teremos de recordar mais uma vez o nome de Dias Loureiro?
E defendeu ainda o Presidente Cavaco Silva que "deve ser clara a separação entre a esfera pública das decisões coletivas e a esfera privada dos interesses particulares". Que tal ser mais concreto? Na campanha houve quem o tentasse ser. Falando, por exemplo, do BPN. São excelentes estas generalidades. Mas se falamos da realidade somos a "infâmia" contra a "dignidade".
O discurso do Presidente tem dois problemas. O primeiro: naquilo em que o diagnóstico do Presidente Cavaco Silva está certo, as asneiras começaram com o primeiro-ministro Cavaco Silva. O segundo: as soluções são pouco mais do que frases vazias. E é normal que o sejam. Não esquecendo todas as responsabilidades do atual Governo, nenhum diagnóstico que esquece a Europa e a crise internacional pode apontar para qualquer solução séria. Faltou a Cavaco Silva coerência com o seu passado, seriedade quanto ao presente e conteúdo quanto ao futuro.