Presidente da República completou o primeiro ano do seu segundo mandato. Popularidade de Cavaco Silva tem-se mantido estável, segundo o barómetro Expresso/Rádio Renascença/Eurosondagem, mas desde novembro começou a registar-se uma tendência para a descida.
Há precisamente um ano, era reeleito Presidente da República, à primeira volta, como se esperava, mas com menos votos e menor percentagem do que os seus antecessores, numas eleições em que metade dos eleitores ficou em casa. A promessa de uma "magistratura ativa" foi a palavra-chave da sua campanha.
A intervenção ressentida que então pronunciou não ficou para a História - o que ficou sim, foi o tiro de partida para a demissão de José Sócrates que representou o seu discurso de tomada de posse, mês e meio depois: "há limites para os sacrifícios que se podem exigir às pessoas".
A promessa de Cavaco foi levada à letra. Se cumpriu o padrão comum dos seus antecessores - um intervencionismo mais acentuado no segundo mandato - ficou claro que este Presidente, oriundo da mesma família política do partido maioritário, não lhe quis ficar colado. Cavaco não quer ficar como o Presidente laranja. O Presidente Cavaco II não tem nada a ver com o Cavaco I.
As circunstâncias mudaram, é certo. Portugal está sob intervenção e o caderno de encargos é rigoroso. Cavaco ganhou a sua aposta de risco - a derrota socialista nas eleições - mas não tardou em mostrar o seu distanciamento em relação ao novo Governo.
São quatro áreas sobretudo: a Europa, onde o discurso do Governo é omisso; o Orçamento, talvez a maior das críticas ao Governo, quando o acusa de falta de equidade, a propósito da retirada dos subsídios de férias e de Natal e lhe atira a mesma frase dos limites dos sacrifícios que dissera a Sócrates; a Economia, quando reclama sistematicamente por uma agenda de crescimento; e a Concertação social, sem cuja intervenção não teria sido possível o acordo.
Marcar distâncias, um estilo
O seu intervencionismo, mal compreendido por muitos, é saudado por outros.O que se percebe é que Cavaco quer marcar as distâncias em relação a uma política que, cumprindo uma inevitável e necessária austeridade, podem pôr em causa a coesão social de que sempre se manifestou cioso. Talvez porque ele próprio acredite que nem tudo está ainda politicamente jogado nesta legislatura e que, se algo correr mal - e pode correr mal - tem de ser ele a referência de independência capaz de chamar todos ao consenso. Apelo, aliás, a que tem sido constante, nunca perdendo oportunidade de chamar o PS à colação.
E é neste contexto, que na semana em que se conclui finalmente o acordo de concertação social, após meses de negociações e semanas de delicadas conversações na qual intervém diretamente, parece deitar tudo a perder.
"Tudo somado, o que irei receber do fundo de pensões do Banco de Portugal e da CGA, quase de certeza que não dá para pagar as minhas despesas". Gafe, momento infeliz, ressentimento, desfasamento da realidade, há muitas interpretações para uma aparente e inexplicável frase de um Presidente que se reafirma como "o provedor do povo".
No dia seguinte, Passos Coelho não perdeu a oportunidade de lhe devolver a frase: "Os sacrifícios têm que ser repartidos por todos. Não há ninguém que fique de fora.
Mesmo que não haja consequências na relação entre os dois, vai haver sequelas. Entre Cavaco e Passos passou a haver um momento antes e um momento depois.