Os candidatos presidenciais Cavaco Silva e Manuel Alegre recusaram hoje antecipar em que circunstâncias dissolveriam o Parlamento, num frente-a-frente em que o chamado 'caso das escutas' e a situação do BPN estiveram também em debate.
A questão da dissolução do Parlamento foi introduzida na discussão quando Cavaco Silva foi questionado se entendia que a intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Portugal seria uma razão para o Presidente da República utilizar a chamada "bomba atómica".
Na resposta, o atual chefe de Estado, que se recandidata a um segundo mandato nas eleições de 23 de janeiro, sublinhou que apenas "uma situação extraordinária" pode levar o Presidente da República a dissolver o Parlamento e recordou que "o Governo responde politicamente perante a Assembleia da República".
Corroborando as cautelas de Cavaco Silva, Manuel Alegre disse também que a dissolução do Parlamento "depende da situação" em que o país estiver, notando que neste momento "o Governo tem todas as condições para governar".
"É uma previsão que ninguém pode fazer", acrescentou o candidato apoiado pelo PS e pelo BE.
Num dos únicos momentos do debate em que os dois candidatos partilharam o mesmo ponto de vista, Cavaco Silva insistiu ainda que "não se deve especular perante uma situação tão delicada" e que ninguém é capaz de "antecipar situações".
Caso das escutas
Depois de Cavaco Silva ter entrado ao 'ataque' no início do debate,sensivelmente a meio do frente-a-frente transmitido pela RTP, Manuel Alegre começou a utilizar a mesma estratégia, introduzindo a questão do chamado 'caso das escutas', lamentando que perante a grave acusação de que o Governo poderia estar a "escutar" Belém, Cavaco Silva "não tenha posto cobro" à situação.
"Anda muito distraído", replicou o candidato apoiado pelo PSD, CDS-PP e MEP, aconselhando Manuel Alegre a consultar o 'site' da Presidência da República onde "está lá tudo o que havia para ser esclarecido".
Já no final do frente-a-frente de 30 minutos, a situação do BPN, um dos casos mais debatidos ao longo desta pré-campanha, foi igualmente abordada, com Manuel Alegre a escusar-se a pronunciar sobre a posição acionista que Cavaco Silva deteve na Sociedade Lusa de Negócios.
BPN é problema político
Manuel Alegre não deixou, contudo, de sublinhar que o caso do BPN é "problema político que resulta da promiscuidade entre a política e os negócios", apontando os casos de Oliveira e Costa e Dias Loureiro, dois antigos apoiantes de Cavaco Silva.
Na resposta, Cavaco Silva voltou a lamentar "a campanha de insinuações" de que está a ser alvo e dirigindo-se ao candidato apoiado pelo PS e pelo BE pediu-lhe para que consultasse a declaração de rendimentos que entregou no Tribunal Constitucional.
Ainda sobre o caso do BPN, os dois candidatos acabaram, contudo, por concordar que existe um problema de administração.
Já no final do debate, Manuel Alegre avançou com aquela que disse ir ser a sua prioridade caso vença as eleições, defendendo a realização de uns "Estados Gerais da Justiça", com uma "reflexão muito profunda" sobre o setor.