25 de abril de 2014 às 2:49
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Católico e liberal (por esta ordem e sem contradição)

A Tempo e a Desmodo - Católico e liberal (por esta ordem e sem contradição)

Manuel Clemente, um liberal católico, fez a sua tese de doutoramento sobre um dos grandes liberais católicos do século XIX: Conde de Samodães, Francisco de Azeredo Teixeira de Aguilar (1828-1918). Em Porquê e Para Quê, o bispo do Porto apresenta uma pequena súmula da tese: "Religião e liberdade no Porto oitocentista (ou a componente católica do liberalismo portuense". É um texto pequenino, mas não deixa de ser fundamental. Tem muitas pistas sobre a história portuguesa, sobre a história do catolicismo português. 

Durante toda a vida, Samodães bateu-se contra as intromissões do Estado na "liberdade da Igreja", isto é, defendia a autonomia de organização e apostolado da Igreja face ao regalismo permanente dos governos liberais. Mas isto não transformava Samodães num miguelista ou num miguelista reloaded (integralista). Samodães era adepto do regime constitucional, ao contrário de outros católicos que consideravam esse regime como algo ilegítimo e intrinsecamente inimigo da Igreja.

Devido a este equilíbrio entre liberdade política e liberdade religiosa, típico do liberalismo clássico, os liberais católicos do Porto foram fundamentais para a consolidação do regime constitucional no norte do país (Associação Católica e A Palavra, o jornal do movimento). Samodães & Cia. retirou o pretexto religioso aos legitimistas, que confundiam a reacção iliberal com a causa católica. No fundo, este liberalismo portuense demonstrou que se podia ser - ao mesmo tempo - devotamente católico e empenhadamente liberal e defensor das instituições representativas. "Pode-se ser liberal e católico sem contradição nem confusão de ideias", dizia Samodães. Este Conde portuense considerava que o regime liberal era mesmo o mais consentâneo com a revelação cristã. Para serem aceitáveis para um católico, as instituições tinham de criar um governo que anulasse a anarquia, mas isso não podia significar despotismo - a negação do "princípio católico da liberdade individual". O regime liberal e representativo era, portanto, a forma mais cristã de controlar o governo necessário.

Todavia, não era fácil fazer esta defesa católica da liberdade política do liberalismo. Na Europa latina, o liberalismo impôs-se contra algumas instituições e práticas anteriores, designadamente o congregacionalismo religioso. E a desconfiança anti-liberal acabou por triunfar entre os católicos portugueses. Entre o liberalismo de Samodães e o autoritarismo de Sardinha e Salazar, a maioria dos católicos enveredou pela segunda linha durante o caos da I República. E esta foi a desgraça do catolicismo português do século XX: confundiu a reacção iliberal com a causa católica, como se autoritarismo e catolicismo fossem a mesma coisa. A libertação do catolicismo da chantagem integralista e salazarista só começou nos anos 60 com a revista O Tempo e o Modo. Mas isso já são contas de outro rosário.

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Intromissões e intromissais
«Durante toda a vida, Samodães bateu-se contra as intromissões do Estado na "liberdade da Igreja"...» (HR)

Coitadinha da liberdade da Igreja! Como bem sabemos, o contrário nunca sucedeu e, ainda hoje, a Igreja não exerce as mais diversas formas de pressão e de condicionamento das leis dos Estados, pois não?

Que liberdade quer a Igreja, quando é ela que faz a apologia da limitação dos direitos de alguns em detrimento de outros?

Quer a Igreja liberdade para impor as suas lógicas misóginas ou homofóbicas?

Quer a Igreja liberdade para limitar opções individuais e impor as suas lógicas fascistas, segundo as quais o indivíduo tem de balizar o seu comportamento por aquilo que consta na bíblia e as leis do Estado têm de estar de acordo com o que esse execrável livrinho advoga?

E que tal, São Raposo, bater-se contra as intromissões da Igreja nas liberdades do Estado laico?
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Pedras x Odi Ver comentário
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Ainda bem que Portugal é católico e não laico Ver comentário
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A Igreja fora do Estado e do latifundio
Fora do Estado,porque a Igreja não deve intervir na politica.
A Igreja fora do latifundio porque a Igreja não deve ser rica,muito menos milionária.
A Igreja Católica,sobretudo a sua administração superior, apresenta-se como milionária: veja-se o Vaticano,as mordomias e o dia a dia dos seus cardeais.
Esta Igreja católica "oficial" precisa de uma grande vassourada.
Ler mais a Bíblia e praticar mais o seus ensinamentos: é o que se esperaria da hierarquia da Igreja.
Re: A Igreja fora do Estado e do latifundio Ver comentário
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Lindoooooo !! Ver comentário
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'Católico e liberal (esta ordem e sem contradição
Interessante curiosidade histórica. Não sei como a escola está neste momento, mas no meu secundário, a história raramente tinha tempo de chegar às complexidades do século XIX. Regra geral, a dinastia depois dos Filipes é-me mais distante que a pré-história Portuguesa (e mais desconhecida).

Mas este texto vai um bocadinho mais além disso, e mostra um fenómeno de todas as épocas: a tentativa permanente de conciliar a Igreja/religião com as mais diversas correntes político/ideológicas, e vice-versa. O que me é relevante aqui não é verificar que havia quem acreditasse que o liberalismo é mais "mais consentâneo com a revelação cristã" (e note-se que o liberalismo de Samodães, talvez abrangesse quase todos os partidos do nosso parlamento de hoje), é verificar que também existia quem pensasse o contrário. Esta preocupação de conciliação, só existe por consciência do tremendo poder de influência (e autoridade) que a Igreja tinha... o que em si, pode ser uma irónica contra-prova contra os argumentos de Samodães (presumidos do texto acima): Este acreditava genuinamente na Igreja, ou tentava criar as condições para esta não bloquear o liberalismo?

E aqui fica a principal lição a tomar, e talvez uma das razões para alguma da flexibilidade atual da sociedade: a separação Estado/Igreja, o laicismo do estado e o "a César o que é de César". Porque esforços como o de Samodães ou de Clemente seriam hoje sempre interessantes, mas naquele tempo, eram uma questão de sobrevivência.
Por esta ordem e sem contradição.


O meu Deus é aquele que odeia exactamente as mesmas pessoas que eu.

...
Muito bom artigo.
Deu-me a conhecer factos históricos que eu desconhecia, que provam que a Igreja não é (e não era) o 'bicho papão' que muitos ainda alegam ser, como se não tivesse saído do obscurantismo inquisitorial de há umas centenas de anos.

Quanto ao grande Homem que é D. Manuel Clemente, fico contente por saber que também é um liberal. Percebo agora porque é tão apreciado e respeitado no Porto, o berço do Liberalismo português.

Uma das características históricas da urbe portuense é o respeito pela diferença, pelas opções diversas (incluíndo em temas ligados à sexualidade), a valorização do empreendedorismo e o repúdio à intervenção de poderes centrais - as classes sociais mais elevadas do Porto foram sempre empresários (os burgueses) ou imigrantes (Ingleses, ou Minhotos e Transmontanos).

E estas são características que definem o Liberalismo, mesmo o actual.
Re: Muito bom artigo. Ver comentário
Re: Muito bom artigo. Ver comentário
Católico e Jornalista, mas só depois jornalista
O Henrique Raposo insiste em pregar.
A actualidade do país e os problemas sociais ficam aquém das suas pretensões. Talvez por não lhe garantirem a vida eterna.
Antes de ser jornalista assume-se católico, e assim define-se acima de tudo o resto. Por mim podia ficar no armário.

Re: Católico e Jornalista, mas só depois jornalist Ver comentário
Re: Católico e Jornalista, mas só depois jornalist Ver comentário
Re: Católico e Jornalista, mas só depois jornalist Ver comentário
Re: Católico e Jornalista, mas só depois jornalist Ver comentário
Re: Católico e Jornalista, mas só depois jornalist Ver comentário
Re: Católico e Jornalista, mas só depois jornalist Ver comentário
Re: Católico e Jornalista, mas só depois jornalist Ver comentário
o poder
A igreja tem a importância que tem e que fazem crer ter, precisamente, pelo poder da religião.
A luta pelo poder leva a intromissões por parte da politica e vice versa.
Na verdade a politica e a religião, ou melhor, os dirigentes politicos e os dirigentes religiosos, lutam pelo mesmo e debatem-se lado a lado.
QUAL CONTRADIÇÃO?

1. Ponto prévio.
Conheço superficialmente mas pessoalmente D. Manuel Clemente.
Um homem inteligente, bem formado, muito culto e com uma sensibilidade imensa.
Sou, portanto, suspeito.

2. Ponto prévio.
Não vejo qualquer contradição.
Sou católico e liberal.
Sou, portanto, suspeito.

Não vejo qualquer contradição.
Não nos tempos de hoje.
Terá sido uma contradição porque os interesses da IC e dos liberais eram antagónicos na luta pelo poder.

Porque a Igreja foi contra a República a favor da Monarquia e mais tarde a favor do Estado Novo? Porque uns a trataram mal e outros bem. Não foi bonito, não senhor.

Alguém se lembra dos comunistas cristãos?
Também não vêem contradições.
Ou, melhor, onde as há, optam por um dos caminhos.

Na minha modestíssima opinião, Cristo estava-se perfeitamente nas tintas para o sistema político-económico.
O que se inventou, defendeu ou atacou depois disso e em seu nome, é pouco importante.

Os católicos portugueses não votam de acordo com a sua religião, mas de acordo com as suas convicções políticas. Sejam elas quais forem. Muitas vezes discuti política na minha paróquia e nunca me foi apontada nenhuma contradição.

Curiosamente,

Samodães denunciou corajosamente o regalismo e o despotismo do Marquês de Pombal.
E fê-lo por alturas do 1º. centenário da morte do famigerado ministro.
E foi por isso ferozmente atacado, pela maçonaria, na Galeria Republicana e nas caricaturas de Rafael Bordalo. Pº.
Curiosamente os auto-proclamados "liberais" herdaram o regalismo e o anti-congregacionismo de Pombal.
Particularmente o anti-jesuitismo.
E à sua maneira foram também despóticos.
Que outra designação poderemos nós dar à acção que já vinha detrás, do tempo de Joaquim António de Aguiar, por exemplo.

Colocar Salazar nos antípodas da posição de Samodães, parece-me despropositado. Descabido mesmo.

Enfileirar Samodães nos "vencidos do catolicismo" como tão bem rotulou o mais ilustre deles - Bénard da Costa- parece-me um tanto surrealista.
Quem se faz de mel ...

Há o provérbio - não sei se é árabe - que diz:
«Quem se faz de mel as moscas o comem...»

Deixei aqui este brocardo á reflexão e aos comentários que eventualmente aparecerem
Re: Eu concluiria assim ... Ver comentário
Então em que é que ficamos?

O texto começa assim:
"Manuel Clemente, um liberal católico..."

Mas o título já tinha avisado:
"Católico e liberal (por esta ordem e sem contradição) "

Então em que é que ficamos?
Bom católico e liberal também

Para um bom católico, a liberdade de cada um não deve colidir com a liberdade do outro.

Um bom católico acredita na liberdade de escolha, na liberdade de decisão, no livre arbítrio, portanto.
Um bom católico não aceita o determinismo, pelo menos na sua forma absoluta.

Um bom católico é assim desde a vinda de Cristo e nesse espírito e nesse proceder, atravessou os tempos até hoje, igual a si mesmo.
Não se deixou emperrar na Idade Média, nem ficou a dever nada aos tempos do chamado "liberalismo".
Com os quais, nada aprendeu.

Um bom católico, aceita de qualquer corrente ou doutrina (que pode incluir o chamado "liberalismo") aquilo que ele vir que é cristão e rejeita o que é anti-cristão.

Estou certo ou errado?
Re: Bom católico e liberal também Ver comentário
Miguelismo
O miguelismo é, em Portugal, o representante da monarquia de raíz popular. Uma monarquia que vai buscar ao povo - e não à Igreja ou à aristocracia - o seu suporte e o suporte da sua legitimidade. Não esquecer que foi o Senado da Câmara de Lisboa que, em 25 de Abril (!!!) de 1828, aclamou D. Miguel como rei. E Oliveira Martins, no que julgava ser uma crítica, acusava de serem os miseráveis e as prostitutas quem apoiava D. Miguel em Lisboa. A burguesia nascente e alguma aristocracia afrancesada é que apoiava a causa de D. Maria da Glória. Na sua sábia ignorância, o povo sabia que precisava do Rei para se proteger da burguesia e da aristocracia, e da sua opressão. O Rei não era opressor, mas libertador. Por isso o carlismo, em Espanha, movimento de ideias paralelo do miguelismo, se assumiu como auto-gestionário, defensor da posse dos meios de produção pelos trabalhadores, e defensor dos direitos comunitários a todos os níveis. Foi por este carácter popular do miguelismo que a maçonaria, representante por excelência dos interesses burgueses e capitalistas, se tornou na inimiga feroz da legitimidade de D. Miguel I, sancionada em Cortes tradicionais, com forte representação popular. Se a monarquia voltasse um dia a Portugal, só interessaria se fosse numa versão actualizada desse miguelismo vinculado ao povo.
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