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Cartas ao Diretor

Nota editorial: as investigações do Expresso e o Sindicato de Jornalistas

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A direção do Expresso responde a uma carta do Sindicato de Jornalistas, que foi tornada pública, a propósito de uma notícia sobre o “saco azul do GES”

Exmos. Senhores,

Confirmamos boa receção do vosso email, que questiona os critérios editoriais do Expresso na revelação de que há jornalistas na lista que está na posse do Ministério Público sobre alegados pagamentos do Grupo Espírito Santo através da ES Enterprises, apelando à revelação dos seus nomes.

Há um ano e meio que o Expresso está a investigar a ES Enterprises, a sociedade offshore do Grupo Espírito Santo conhecida como “saco azul do GES” desde que o Público, em 2014, revelou a sua existência. Esta sociedade operou durante mais de 20 anos em total segredo.

O trabalho do Expresso cruza duas investigações em curso: a investigação à ES Enterprises, mais antiga, e a investigação internacional Panama Papers, que trouxe novos dados. A notícia que motivou o vosso email resulta da investigação autónoma à ES Enterprises, não está enquadrada no consórcio internacional de jornalistas de investigação aos Panama Papers. Como se percebe lendo a notícia, a lista de alegados pagamentos não está nos Panama Papers. Está no Ministério Público. E ela resulta de várias fontes, incluindo de autoridades suíças.

O critério editorial do Expresso em relação à existência de jornalistas na lista foi, é e será rigorosamente o mesmo usado em relação a todas as profissões referidas. Retirar qualquer uma delas seria fazer uma diferença de classe. Assim escrevemos sobre a existência de “mais de uma centena de nomes que constam nessa lista de várias páginas”, que “incluem várias pessoas influentes”, “políticos”, “pagamentos durante vários anos a gestores do BES e da Portugal Telecom”, “ex-gestores, autarcas, funcionários públicos, gestores, empresários e jornalistas”.

O critério foi, é e será sempre idêntico em relação à revelação de nomes: só quando o trabalho jornalístico de recolha de fontes, confirmação, contraditório e audição de partes atendíveis o permite publicamos nomes. De jornalistas ou de quaisquer outras pessoas. Tem sido esse o critério sempre nas investigações em causa: todos os nomes têm sido publicados logo que o trabalho de confirmação esteja concluído mas nunca antes disso.

Sabemos que o assunto é sensível e ele foi debatido e ponderado internamente. As pressões externas para publicação de nomes tem sido grande, o que é compreensível tendo em conta a vontade de ser informado e sabendo que quem lê não conhece os pormenores da investigação nem eles podem ser revelados, por implicarem segredo, reserva e proteção de fontes. Mas informar com rigor não é publicar listas de nomes mesmo quando a existência dessa lista esteja confirmada, é analisá-los um a um e fugir à gratuitidade (e irresponsabilidade) de simplesmente arrolar nomes. O Expresso não deixa que os seus critérios editoriais sejam alterados por pressões. Como sempre fizemos até aqui, a informação será publicada no momento em que o trabalho de investigação estiver concluído, ainda que isso implique sujeitarmo-nos à análise crítica de alguns, que respeitamos mas que não nos condiciona.

Tem sido o trabalho jornalístico que tem desvendado muitas informações de grande interesse público em relação ao Grupo Espírito Santo. Escrevi-o nessa mesma edição, citando vários jornais em Portugal sem os quais o escândalo Espírito Santo nunca teria tido os desenvolvimentos que teve e tem tido. É um trabalho coletivo de vários jornalistas que dura há quase quatro anos, até porque os trabalhos de investigação exigem muita perseverança de quem escreve e paciência de quem quer ler. Mas é a competência do jornalismo português – e mesmo a sua nobreza – que tem ajudado a construir uma democracia melhor. Por causa de um escândalo financeiro sobre um grupo tentacular, por causa da utilização de offshores para ocultação de riqueza ou por causa do uso de programas de regularização de dinheiro. Mesmo quando isso implica demarcarmo-nos daqueles que não estão à altura da exigência da profissão. E isso não enfraquece a imagem dos jornalistas, fortalece-a.

Com os melhores cumprimentos,
Pedro Santos Guerreiro

PS: uma vez que o vosso email foi tornado público, publicarei também esta resposta