Carlos Guerra: Duas versões para uma demissão
Carlos Guerra, gestor do Programa de Desenvolvimento Rural (PRODER) e arguido no caso Freeport , colocou o seu lugar à disposição e vai ser substituído pelo Governo. O anúncio foi feito por José Sócrates, esta tarde, no Parlamento , em resposta a uma pergunta do PSD . Mas, poucos minutos antes do primeiro-ministro dar essa novidade aos deputados, o ministro da Agricultura garantia aos jornalistas, à porta do Plenário, que Guerra continuava em funções.
"Não tenho dados nenhuns, as questões do Ministério Público obviamente não sei e não comento", disse e repetiu Jaime Silva, quando os jornalistas lhe perguntaram se iria manter em funções o dirigente do seu ministério que acaba de ser constituído arguido devido à sua intervenção no processo Freeport, numa altura em que presidia ao Instituto de Conservação da Natureza.
Admite afastar o engenheiro Carlos Guerra?, perguntaram. "Não, admito ouvi-lo", respondeu Jaime Silva, explicando porque razão ainda não tinha falado com Guerra: "Cheguei ontem à noite de Bruxelas, trabalhei toda a manhã, vim para a Assembleia da República e reuno com um director do Ministério logo à tarde."
Para falarem da questão do Freeport? Não, explicou o ministro - seria um encontro normal, que "já estava programado", para falarem de uma reunião que o responsável pelo PRODER teve segunda-feira com a Comissão Europeia. "É normal que eu reuna com Carlos Guerra todas as semanas."
Afinal, explicou logo depois o primeiro-ministro, o homem com quem o ministro dizia que ia reunir já estava afastado de funções desde a semana passada. "O arquitecto Carlos Guerra falou com o senhor ministro da Agricultura na semana passada, imediatamente a seguir ao momento em que foi ouvido pela Polícia Judiciária (PJ), comunicando ao senhor ministro que tinha sido constituído arguido e que, portanto, ele achava que devia colocar seu lugar à disposição e que o Ministério da Agricultura fazia bem em escolher um outro responsável".
"O senhor ministro da Agricultura agradeceu-lhe o gesto, agradeceu essa carta e tomou a decisão de nomear um novo gestor para o PRODER. É assim que se comporta um Governo decente. O Governo vai nomear um novo responsável pelo PRODER", concluiu José Sócrates.
Imediatamente após o anúncio do primeiro-ministro, Jaime Silva voltou a sair do Plenário para falar aos jornalistas. O discurso tinha mudado e, afinal, Carlos Guerra já tinha sido afastado - sem serem necessárias mais reuniões. "O arquitecto Carlos Guerra pôs o lugar à disposição e eu tomei em consideração a iniciativa dele." E agradeceu a "generosidade" do seu antigo subordinado por se ter afastado.
Durante o debate, Diogo Feio, líder da bancada do CDS , notou a discrepância entre o que dizia o chefe do Governo e o seu ministro. Após os trabalhos, Paulo Rangel, presidente da bancada do PSD, apontou o dedo a mais do que uma divergência: "O primeiro-ministro desmentiu o ministro da Agricultura. Isto revela uma grande desorientação do Governo."


José Sena Goulão/Lusa
José Sócraqtes durante o debate quinzenal desta tarde na Assembleia da República
