I. As caixas de comentários da internet, de blogs ou de jornais, são como as casas de banho públicas: com raras excepções, é lixo atrás de lixo
. É a versão internática do bom selvagem, um bom selvagem protegido pelo anonimato e com uma vaga noção de gramática. É o Homem sem qualquer tipo de filtro ou de controlo. O resultado não podia ser bonito. E, em Portugal, temos de adicionar um outro elemento à fórmula: o ressentimento, aquela raiva mui tuga que vem lá de dentro, viscosa, húmida, indignada, sempre indignada, e que chega a berrar. Quando se mete atrás de um teclado, o tuga revela toda a sua essência de gajo ressentido. É assim todos os dias por essa net fora. E, de vez em quando, surge um caso que baixa ainda mais o nível. O caso Carlos Castro está a ser um desses casos.
II. Perante isto
, eu faço minhas as palavras de Ferreira Fernandes: "não há por aí um advogado que queira acabar com esta sensação de impunidade?"
. Sim, impunidade. As pessoas sentam-se no seu cobarde anonimato, e deitam cá para fora todo o lixo que têm acumulado na cabecinha. A onda anti-gay que anda por aí assusta, porque revela que boa parte da sociedade - além de ter vagas noções gramaticais - tem também uma vaga noção de moral: as pessoas não discutem o assassínio em si mesmo, mas o facto de o rapazinho gostar de mulheres. Aliás, todo o discurso da família e amigos do rapaz vai nesse sentido. É impressionante como não se fala da morte de Carlos Castro, mas sim do facto do "Rogério" gostar de mulheres. Vamos lá parar um pouco: não acham que é mais importante falar do acto imoral (que é matar uma pessoa) do que dos hábitos sexuais? A honra do macho é mais importante do que a questão moral do assassinato? Por favor, digam-me qual é o código moral e religioso que permite esta inversão de prioridades.
III. Este ódio internético assente nesta inversão moral assusta, porque esta gente anónima pode ser minha vizinha. O senhor Aníbal, do 2.º esquerdo, deixa de ser a pessoa educada que segura o elevador e vai para a net declarar "morte aos maricas"? A Dona Laurinda deixa de brincar sobre o cabelo do Jorge Jesus e vai para a net declarar que "esse maricas corrompeu o garoto"? Claro, Laurinda, a culpa, como toda a gente sabe, é sempre dos maricas.
IV. Para os jornais, existe aqui uma questão de fundo: é para isto que a net serve? É para isso que os jornais têm caixas de comentários? É isto a prometida democracia directa que vinha a cavalo da internet, esse tremendo instrumento que ia dar poder aos indivíduos? O espaço público por excelência, o jornal, não pode ter um esgoto privado a um canto.