Primeira sequência: Paris. Marguerite Muir (Sabine Azéma), dentista, solteira e classe-média entra numa loja de sapatos. Há-os de todas as cores. Resnais
é um fascinado por objectos e não começava um filme assim, a filmar pés e sapatos, desde "Muriel." Marguerite sai da loja. Roubam-lhe o seu saco amarelo. O saco amarelo tem uma carteira vermelha lá dentro e muita da sedução do filme começa por este jogo de cores. A carteira, que um larápio deixou no parking de um centro comercial, é encontrada por Geoges Palet (André Dussolier), homem maduro, reformado, burguês, pai de dois filhos.
Georges fica intrigado com a dona da carteira. Começa a procurar Marguerite. À moda antiga. Vê o seu nome no BI, a sua morada na lista telefónica. Uma deslocação à esquadra da Polícia transforma um agente, Bernard (Mathieu Amalric), em intermediário da busca. Uma busca estranha, já que Georges começa a desenvolver por Marguerite a mesma fascinação que a câmara de Resnais mostrou pelos sapatos da loja.
Georges faz o que pode para encontrá-la. Ela não quer vê-lo, agradece a história da carteira e é tudo. Mas ele persegue-a, com delicadeza. Telefonemas a meio da noite. Mensagens no atendedor e postais na caixa do correio. Quando é menos delicado, esventra-lhe os pneus do carro e deixa no pára-brisas o testemunho do seu desconsolo: ele quer vê-la.
Marguerite começa a passar mal. O trabalho no consultório ressente-se. A sua única escapatória (e o seu único ponto em comum com Georges) é a aviação: ela tem um brevet e, nos tempos livres, lança-se pelos ares num velho Spitfire que está guardado numa academia dos arredores de Paris. Ou seja: é nos ares que as personagens de Resnais estão bem. Seja muito alto, seja dois palmos acima do solo, mas nunca com os pés na Terra.
A 'cantiga' não é nova em Resnais. Estar nos ares é dizer que o tempo parou. Estar nos ares é mostrar que a vida é um romance em que a linguagem nada quer dizer. Um romance que parece um filme de ficção-científica e um jogo com a arte moderna: saco amarelo, carteira vermelha. O que há aqui de afectivo? Nada. Também não há ódio, desejo, violência. E amor, é mais que certo, também não. O jogo passa-se todo entre a angústia e o divertimento: alimentam-se um ao outro.
Ora, qual é a palavra que resume tudo isto? A indiferença. E a indiferença, prova-o Resnais mais uma vez, é uma coisa terrível. Terrível porque não tem resposta e só dá silêncio, como aquele avião que no final se despenha, sabe-se lá em que abismo.
A 'cantiga' não é nova, repetimos. Mas o que é radicalmente novo em "Les Herbes Folles" é o modo como Resnais, ele que não vinha a uma competição de Cannes
há quase 30 anos (a última vez foi com "Mon Oncle d'Amérique", em 1980), se afasta do teatro dos seus últimos filmes, o teatro que começou em "Smoking/No Smoking."
Em "Les Herbes Folles", a inquietude das personagens (e este filme não fala de outra coisa: de gente anulada pela inquietude), desta vez, não está presa ao palco: voa em liberdade como o Spitfire de Marguerite, não se rege mais pelas leis da gravidade. O mundo ainda é um décor, mas um décor assumidamente virtuoso que trabalha com as memórias da velha Hollywood. É um manacial de invenções, como se Vincente Minnelli tivesse atravessado todo o cinema moderno e acabasse de chegar ao século XXI. Digamos que esta travessia é uma fonte de juventude. Uma fonte com 86 anos de vida: chama-se Alain Resnais.
"Les Herbes Folles"
de Alain Resnais,
com André Dussolier, Sabine Azéma
(Selecção Oficial - Competição)