24/05/2012 atualizado às 1:52

Cannes 2009: Os abraços de Pedro

Ainda não tinhamos falado de "Los Abrazos Rotos", de Almodóvar.

Francisco Ferreira, enviado a Cannes
18:00 Domingo, 24 de maio de 2009
Penélope Cruz (no seu melhor papel até à data) e José Luis Gómez em "Los Abrazos Rotos."
Penélope Cruz (no seu melhor papel até à data) e José Luis Gómez em "Los Abrazos Rotos."

Neste conjunto de postais de Cannes, ainda não tinhamos trazido prosa sobre "Los Abrazos Rotos", de nuestro hermano Pedro Almodóvar. É um bom filme, embora nada de especial para a escala almodovariana.

Apesar disso, e depois de tudo o que vimos de uma competição com apenas duas obras-primas (Tarantino e Resnais) e outros tantos escândalos (Gaspar Noé e Lars von Trier), ou seja, uma competição a roçar o médio-baixo, o filme do espanhol foi mesmo um dos melhores a concurso.

Almodóvar começa na obscuridade, através de Harry Caine (papel de Lluís Homar), escritor, argumentista e ex-cineasta. Há 14 anos, Harry perdeu a visão e a mulher que amava num acidente de automóvel. Mantém a actividade da escrita (em braile), mas, devido à cegueira, nunca mais pôde voltar ao cinema. E nunca mais saiu do luto. É um fantasma del cine, digamos assim.

Como qualquer escritor que se preze, a Harry (que, de baptismo, se chama Mateo Blanco), viver uma só vida não lhe basta. Enquanto exerceu a profissão de realizador, jamais filmou 'remakes', sequelas e 'biopics.' No entanto, é a sua própria vida que ele vai retrospectivar em "Los Abrazos Rotos" e o passado da personagem é a história do filme de Almodóvar.

Surge o primeiro flash-back e conhecemos Lena (Penélope Cruz, uma vez mais radiante), o amor perdido de Harry. Lena era empregada de escritório e amante de um empresário mafioso que, em meados dos anos 90, resolveu torná-la actriz e 'oferecer-lhe' um filme, produzindo-o. Harry foi o realizador escolhido para o projecto. Só que ele envolveu-se com ela. Contar o resto a partir daqui já seria contar de mais.

Esta estrutura de film noir em que vivos recordam mortos é um bico de obra. O filme de Almodóvar tem outros filmes lá dentro e aquele zigue-zague de flash-backs entre a actualidade e o passado tornam-no um pouco pesado. Almodóvar é muito mais certeiro e eficaz (mesmo quando se trata de evocar os mortos) quando trabalha com a surpresa e a urgência do presente, mas aqui preferiu o saudosismo e quase chega à auto-citação.

Mas resta o prazer de filmar, que é imenso. De filmar Penélope, em particular - e o seu trabalho convence como nunca.

Tsai perdeu a mão.

Quanto ao último filme que Cannes apresentou a concurso, "Visage", a décima longa-metregem de Tsai Ming-liang, desiludiu. Quem nos acompanha sabe como defendemos os filmes do realizador do Taiwan, mesmo os menos bons, onde sempre encontrámos qualidades. Mas "Visage" é um projecto que tem ambições exteriores à sala de cinema: parece uma instalação 'chique', no limite do que se pode suportar - e é indefensável.

"Visage" foi encomendado pelo Museu do Louvre e inventa um realizador, Hsiao-Kang (Lee Kang-sheng) que roda a história do mito de Salomé no museu da encomenda. A influência para o filme vem de "São João Baptista", de Leonardo da Vinci. E o mito de Salomé traz outro consigo, já que Tsai, em simultâneo, presta homenagem ao cinema francês moderno, em especial a François Truffaut.

Hsiao-Kang, alter-ego de Tsai e realizador desse 'filme dentro do filme', chama Jean-Pierre Léaud para o papel do Rei Heródes. E chama-lhe Antoine (Antoine Doinel é a mítica personagem inventada por Léaud nos filmes de Truffaut).

Laetitia Casta fica com o papel de Salomé. Só que o projecto é brutalmente interrompido com a morte da mãe de Hsiao-Kang, que fica em estado de sonambulismo, obrigando a produtora do filme (papel de Fanny Ardant, outra musa de Truffaut), a voar para Taipé, para as obséquias.

Os outros actores dessa "Salomé", Nathalie Baye, Jeanne Moreau e Mathieu Amalric, perdem-se no drama que se instala e "Visage" decide, lentamente, sair do espaço do Museu, descendo às suas catacumbas e ao subsolo de Paris.

Tsai cria uma instalação poseur para um filme de luto que dedicou à memória da sua mãe. Nos seus melhores momentos, "Visage" parece que está a imitar Matthew Barney. Nos piores, é inconsolavelmente vazio. Que Tsai volte depressa ao que tão bem sabe fazer: cinema.

"Los Abrazos Rotos"
de Pedro Almodóvar,
com Penélope Cruz, Lluís Homar, Blanca Portillo
("Selecção Oficial - Competição")

"Visage"
de Tsai-Ming-liang,
com Laetitia Casta, Lee Kang-sheng, Jean-Pierre Léaud
("Selecção Oficial - Competição")

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