Michael Haneke
trouxe a Cannes 2009
um filme que evoca a "besta" do século XX, o nazismo, sem nunca falar dele. A história de "The White Ribbon" decorre antes do nazismo, no início desse século. Há dez anos que Haneke tinha o projecto em mente. Escreveu o argumento (a meias com Jean-Claude Carrière) e realizou-o agora, de forma subtil e penetrante, com um preto e branco deslavado (e um tanto feio). O filme ousa escavar uma leitura das origens do "monstro", na alvorada da I Guerra Mundial.
"The White Ribbon" ("A Fita Branca" - branca na imagem, branca no som) cria um efeito cinematográfico que se aproxima do cinema nórdico clássico. Falou-se em Bergman, falou-se em Dreyer. Falou-se também, por causa do nazismo e do preto e branco, de "Effi Briest", a adaptação que Fassbinder fez do romance de Theodor Fontane.
Mas o filme de Haneke, e já lá vamos, não nos parece nada disso nem tem largura de ombros para a comparação. E as comparações, para a crítica, não são mais do que muletas. Resta saber se Isabelle Huppert, presidente do júri de Cannes (e por duas vezes protagonista de filmes de Haneke), será sensível ao novo filme do cineasta austríaco, que há muito persegue a Palma de Ouro (em 2001, esteve perto, quando "A Pianista" ficou com o Prémio Especial do Júri, a "medalha de prata" de Cannes).
Adiante. Em "The White Ribbon", tudo é contido e com queda para o ascetismo: câmara fixa, recorte de interpretação teatral, voz off soturna. Passa-se tudo numa aldeia remota do norte da Alemanha protestante, mas na aldeia não há festa. A história do filme é contada em off por Lehrer, o professor primário local (Christian Friedel) e único elemento exterior daquele microcosmos vergado pelo preconceito, pelo fundamentalismo religioso e pela auto-punição.
A aldeia, naqueles que ainda são tempos de Império Austro-Húngaro, é dominada por um barão, fantoche aristocrata. No patamar abaixo da hierarquia há um pastor com seis filhos, três rapazes e três raparigas, que move os cordelinhos. E um médico sinistro. O resto da população são camponeses. Há ainda as crianças, observadas com distância glacial e soturna pelo professor. E as crianças escondem um segredo que, embora sem ter nada de extraterrestre, recorda (este sim) o "Village of the Damned" (1960), de Wolf Rilla.
É óbvio que o filme de Haneke não quer, nem pode, ser o nazismo contado pelas crianças, porque só pensar em tal coisa seria simplesmente abjecto. É preciso ter cuidado nas palavras. O que o filme propõe é isto: interrogar a existência das crianças que, duas décadas depois, permitiriam que o nazismo acontecesse.
Ora, na aldeia, começam a acontecer estranhos crimes, elaboradas tentativas de assassínio. E não se pense que estes vêm, por exemplo, daquele camponês que, às tantas, se revolta e resolve triturar a plantação de couves do barão. Não, o mal é mais profundo, e os crimes vêm de onde menos se espera: são as crianças que estão implicadas.
Mas o filme não convence. Haneke sempre foi um cineasta da vigilância, bem visível em "Caché" (2005), por exemplo. Esta vigilância, que no percurso do austríaco começa depois de "Funny Games" (1997), sempre nos incomodou. É que a câmara de Haneke nunca está ali para salvar nada, muito menos aquilo que é ser humano. Pelo contrário, a sua bizarra vigília do humano só lhe sublinha as fraquezas, como aquele pensamento de Nietzsche: "Àquilo que tomba, é preciso ainda empurrar mais para baixo."
Ora, em "The White Ribbon", a "fita branca" é o que os adultos põem nos braços das crianças mal comportadas, ou seja: a vigilância mudou de campo. Não está mais na câmara: está nas personagens e no modo como os adultos castram as crianças, no modo como os pais punem os filhos. A câmara está longe, protegida. É neutra, como a voz do professor. E este, como se verá, está na aldeia de passagem (para nunca lá mais voltar).
Haneke tira dividendos desta distância. Só que a distância traz água no bico: instala-se como uma análise clínica a um somatório de estereótipos e diz: "Olhem para esta aldeia - está aqui toda a Alemanha provinciana e promíscua do início do século XX. A Alemanha fascista." O bisturi pode ser ambicioso, mas impede o filme de abrir-se a outra dimensão: a do espírito (Deleuze descreveu bem esta dimensão no seu "L'image-mouvement" a propósito de Dreyer). Sentimo-lo minuto após minuto, em cada um dos 144 que o filme de Haneke tem de duração. Até ao enjoo.
Não há lagrimas à Bergman, nem à Dreyer, nem à Fassbinder: Haneke não sabe chorar, ponto final.
"Die Weisse Band"
de Michael Haneke,
com Christian Friedel, Burghart Klaussner, Ulrich Tukur
(Selecção Oficial - Competição)