Um dos enviesamentos do sistema partidário nacional resulta do facto do Partido Socialista português ter uma base sindical incipiente. E essa é uma das razões da sua falta de consistência ideológica, assim como determina o monolitismo político do nosso sindicalismo. Mas não é assim nos países onde, ao contrário de Portugal, a social-democracia contou com uma forte base social de apoio e correspondeu a um projecto ideológico de poder.
Na Alemanha ou no Reino Unido, o SPD e o Labour têm uma fortíssima base sindical. Nasceram do movimento operário do final do século XIX e, ainda recentemente, os sindicalizados contribuíam directamente para o partido que supostamente os representava. Mesmo que já apenas de uma forma simbólica, os partidos trabalhistas e social-democratas viam-se a si próprios como partidos de classe. E a simbologia, na política, nunca é um pormenor. As raízes históricas são, muitas vezes, um regulador do oportunismo político. Algo que impede que os partidos se limitem a seguir a opinião maioritária conjuntural e que mantenham o mínimo de coerência que garanta que continuam a existir, nas democracias, alternativas que se distingam entre si.
Depois da queda do Muro de Berlim, o Estado Social, e com ele a social-democracia, perdeu uma das suas funções para o Capitalismo: comprar a paz e garantir que o "perigo comunista" não ganhava peso político e social no Ocidente.
E foi nesse período que uma espécie de políticos sem qualquer referência ideológica a passaram a liderar. A esse vazio, inspirado em Anthony Giddens, deu-se o nome de "terceira via". As suas figuras políticas mais relevantes foram Tony Blair e Gerard Schroeder. José Sócrates, que no seu analfabetismo ideológico se gosta de juntar à moda de cada momento, também se candidatou ao lugar. Esta espécie de liberalismo temperado mais não foi do que um disfarce para o oportunismo político desistente do centro-esquerda europeu.
Na construção do New Labour, Tony Blair aproveitou bem o trabalho começado por Margaret Thatcher para vergar a espinha dos poderosos sindicatos britânicos. Só que, ao fazê-lo, o partido perdeu a base orgânica que o tornava forte. Passou a depender quase exclusivamente das capacidades do seu líder. Aconteceu uma coisa semelhante na Alemanha. Felizmente, a "Terceira Via" morreu quase à nascença. Mas o curto período em que fez escola chegou para transformar os dois principais partidos social-democratas europeus em duas gelatinas incaracterísticas.
O desnorte ideológico da social-democracia europeia espalhou-se um pouco por toda a Europa: os Partido Socialista francês é campo de batalha permanente, o PASOK, na Grécia, é o executor das mais violentas políticas anti-sociais. Na verdade, a social-democracia não tem hoje quase nada para dizer sobre coisa nenhuma. E isso é trágico para a esquerda europeia.
Num dramático duelo entre os irmãos Miliband pela liderança do Partido Trabalhista britânico o projecto do New Labour foi derrotado. Ed derrotou o seu irmão mais velho, David, o antigo secretário dos Negócios Estrangeiros de Gordon Brown. O vencedor recusa a alcunha de "Red Ed" e não parece que o Old Labour esteja de volta. Mas a verdade é que venceu graças ao fortíssimo apoio dos sindicatos e numa clara condenação do caminho seguido pelo partido nos últimos anos.
Não vou dizer que tenho grandes esperanças. Até porque os partidos de poder, como portadores de uma memória, de uma narrativa e de um projecto ideológico, estão pelas horas da morte. Eles já não organizam pensamento e vontades, porque as vontades estão dispersas e atomizadas. Ainda assim, é animador ver que há quem se aperceba que a social-democracia cometeu, nas duas últimas décadas, um autêntico harakiri ideológico. Ao tentar reabilitar a sua memória o Labour não regressará ao passado. Nem é provável que ganhe coragem para enfrentar a hegemonia conservadora que tomou conta do pensamento político e económico europeu. Mas pelo menos talvez comece à procura do seu lugar à esquerda, não se satisfazendo com o pobre papel de ser igual ao seu opositor em versão meiguinha.
Claro que nada disto é assunto em Portugal. Porque o Partido Socialista se implantou tardiamente no País (quando os seus congéneres europeus tinham quase cem anos de história) sem uma base sindical significativa e tendo como principal marca identitária o anticomunismo. Nunca desenvolveu um pensamento verdadeiramente autónomo ao da direita e apenas é o pai do nosso embrião de Estado Social porque calhou ser ele a estar no poder quando as condições sociais e políticas a isso obrigaram. Fosse o então o PPD a ocupar esse lugar e provavelmente seria sua a paternidade. Infelizmente, o PS não tem, nunca teve, um compromisso com o Estado Social. E não foi precisa nenhuma "terceira via" para que tivesse um papel central na sua destruição.
Da esquerda à direita, há muitos estatistas em Portugal. Social-democratas? Nunca os vimos. Não é por isso provável que venha a acontecer um dia ao PS o que está a acontecer aos trabalhistas. Porque o Labour está a lidar com um passado que o PS não tem. Infelizmente para a esquerda portuguesa, o "pensamento único" não pode sequer temer o regresso do PS a um lugar onde nunca esteve.