24/05/2012 atualizado às 1:52
Página Inicial » Blogues » Daniel Oliveira: Antes pelo contrário » Bye bye New Labour!

Bye bye New Labour!

O New Labour de Blair foi derrotado nas eleições internas trabalhistas. E os sindicatos tiveram um papel decisivo. A social-democracia não voltará ao seu passado. Mas pelo menos presta um tributo à sua memória. Impossível com o PS português. Porque essa memória não existe.

Daniel Oliveira (www.arrastao.org)
9:00 Segunda feira, 27 de setembro de 2010

Um dos enviesamentos do sistema partidário nacional resulta do facto do Partido Socialista português ter uma base sindical incipiente. E essa é uma das razões da sua falta de consistência ideológica, assim como determina o monolitismo político do nosso sindicalismo. Mas não é assim nos países onde, ao contrário de Portugal, a social-democracia contou com uma forte base social de apoio e correspondeu a um projecto ideológico de poder.

Na Alemanha ou no Reino Unido, o SPD e o Labour têm uma fortíssima base sindical. Nasceram do movimento operário do final do século XIX e, ainda recentemente, os sindicalizados contribuíam directamente para o partido que supostamente os representava. Mesmo que já apenas de uma forma simbólica, os partidos trabalhistas e social-democratas viam-se a si próprios como partidos de classe. E a simbologia, na política, nunca é um pormenor. As raízes históricas são, muitas vezes, um regulador do oportunismo político. Algo que impede que os partidos se limitem a seguir a opinião maioritária conjuntural e que mantenham o mínimo de coerência que garanta que continuam a existir, nas democracias, alternativas que se distingam entre si.

Depois da queda do Muro de Berlim, o Estado Social, e com ele a social-democracia, perdeu uma das suas funções para o Capitalismo: comprar a paz e garantir que o "perigo comunista" não ganhava peso político e social no Ocidente.

E foi nesse período que uma espécie de políticos sem qualquer referência ideológica a passaram a liderar. A esse vazio, inspirado em Anthony Giddens, deu-se o nome de "terceira via". As suas figuras políticas mais relevantes foram Tony Blair e Gerard Schroeder. José Sócrates, que no seu analfabetismo ideológico se gosta de juntar à moda de cada momento, também se candidatou ao lugar. Esta espécie de liberalismo temperado mais não foi do que um disfarce para o oportunismo político desistente do centro-esquerda europeu.

Na construção do New Labour, Tony Blair aproveitou bem o trabalho começado por Margaret Thatcher para vergar a espinha dos poderosos sindicatos britânicos. Só que, ao fazê-lo, o partido perdeu a base orgânica que o tornava forte. Passou a depender quase exclusivamente das capacidades do seu líder. Aconteceu uma coisa semelhante na Alemanha. Felizmente, a "Terceira Via" morreu quase à nascença. Mas o curto período em que fez escola chegou para transformar os dois principais partidos social-democratas europeus em duas gelatinas incaracterísticas.

O desnorte ideológico da social-democracia europeia espalhou-se um pouco por toda a Europa: os Partido Socialista francês é campo de batalha permanente, o PASOK, na Grécia, é o executor das mais violentas políticas anti-sociais. Na verdade, a social-democracia não tem hoje quase nada para dizer sobre coisa nenhuma. E isso é trágico para a esquerda europeia.

Num dramático duelo entre os irmãos Miliband pela liderança do Partido Trabalhista britânico o projecto do New Labour foi derrotado. Ed derrotou o seu irmão mais velho, David, o antigo secretário dos Negócios Estrangeiros de Gordon Brown. O vencedor recusa a alcunha de "Red Ed" e não parece que o Old Labour esteja de volta. Mas a verdade é que venceu graças ao fortíssimo apoio dos sindicatos e numa clara condenação do caminho seguido pelo partido nos últimos anos.

Não vou dizer que tenho grandes esperanças. Até porque os partidos de poder, como portadores de uma memória, de uma narrativa e de um projecto ideológico, estão pelas horas da morte. Eles já não organizam pensamento e vontades, porque as vontades estão dispersas e atomizadas. Ainda assim, é animador ver que há quem se aperceba que a social-democracia cometeu, nas duas últimas décadas, um autêntico harakiri ideológico. Ao tentar reabilitar a sua memória o Labour não regressará ao passado. Nem é provável que ganhe coragem para enfrentar a hegemonia conservadora que tomou conta do pensamento político e económico europeu. Mas pelo menos talvez comece à procura do seu lugar à esquerda, não se satisfazendo com o pobre papel de ser igual ao seu opositor em versão meiguinha.

Claro que nada disto é assunto em Portugal. Porque o Partido Socialista se implantou tardiamente no País (quando os seus congéneres europeus tinham quase cem anos de história) sem uma base sindical significativa e tendo como principal marca identitária o anticomunismo. Nunca desenvolveu um pensamento verdadeiramente autónomo ao da direita e apenas é o pai do nosso embrião de Estado Social porque calhou ser ele a estar no poder quando as condições sociais e políticas a isso obrigaram. Fosse o então o PPD a ocupar esse lugar e provavelmente seria sua a paternidade. Infelizmente, o PS não tem, nunca teve, um compromisso com o Estado Social. E não foi precisa nenhuma "terceira via" para que tivesse um papel central na sua destruição.

Da esquerda à direita, há muitos estatistas em Portugal. Social-democratas? Nunca os vimos. Não é por isso provável que venha a acontecer um dia ao PS o que está a acontecer aos trabalhistas. Porque o Labour está a lidar com um passado que o PS não tem. Infelizmente para a esquerda portuguesa, o "pensamento único" não  pode sequer temer o regresso do PS a um lugar onde nunca esteve.

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Uma visão incontornável da esquerda Portuguesa
Runaldinho (seguir utilizador), 2 pontos , 10:05 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
Daniel Oliveira no seu melhor!
O seu artigo é excelente, e demonstra que você quando quer escreve de forma impar.
Parabéns!
 
 Regras da comunidade
    O Bloco de Esquerda vai fundir-se no PS ?    Ver comentário
águiadois (seguir utilizador), 2 pontos , 14:48 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
    Re: O Bloco de Esquerda vai fundir-se no PS ?    Ver comentário
Runaldinho (seguir utilizador), 2 pontos , 15:16 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
    Sócrates e Louçã,ou Louçã e Sócrates    Ver comentário
águiadois (seguir utilizador), 2 pontos , 16:13 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
    John Major tinha a 4ª classe e Lula...    Ver comentário
José Telhado (seguir utilizador), 2 pontos , 16:36 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
    Uma trêta, é uma trêta    Ver comentário
águiadois (seguir utilizador), 2 pontos , 16:39 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
    Re: Uma trêta, é uma trêta    Ver comentário
Runaldinho (seguir utilizador), 2 pontos , 17:01 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
    Re: Uma trêta, é uma trêta    Ver comentário
José Telhado (seguir utilizador), 2 pontos , 17:08 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
Bye bye New Labour!
José Telhado (seguir utilizador), 2 pontos , 10:20 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
A verdade é que o Labour quando ganhou as eleições, fê-lo com um afastamento dos radicais dos sindicatos.

Será que o radicalismo nos tempos atuais dá votos? Claro que não e é por essa razão que quando a esquerda sindical toma o poder dentro da social-democracia, começa com exigências que afastam os eleitores mais sensatos.

Os tempos estão maus para a festa!

E a esquerda sensata sabe isso; quando é que os folclóricos compreendem a economia?
 
 Regras da comunidade
CGTP e UGT-correias de transmissão do PCP e PS
águiadois (seguir utilizador), 2 pontos , 10:33 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
Só faltava agora essa da "consistência ideológica " ser uma coisa exclusiva do sindicalismo: Na CGTP sempre mandou o Partido Comunista e a UGT é uma criação do PS.
Infelizmente o que as Centrais Sindicais tem sido é "correias de transmissão" dos interesses partidários, funcionando de acordo com as suas cúpulas e em prejuizo do mundo do trabalho e da sua luta.
A sociologia e as palavrinhas "mansas" de alguns teóricos- onde se inclui agora o Dr.Carvalho da Silva, da CGTP,só tem conduzido ao recuo da luta dos trabalhadores
.Há muito folclore, muita "passeata", muita feira.
A luta mais geral é a luta do POVO, no seu conjunto alargado de interesses e direitos.Uma luta que não se senta á mesa do orçamento nem se esconde nos salões de veludo do poder.
 
 Regras da comunidade
Os floreados da política versus realidade
CM84 (seguir utilizador), 2 pontos , 11:27 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
Mantendo a tradição do “copia e cola”, DO proporciona-nos uma relação de factos e figuras “wikipedianas”. Mas o que nos pretende “dizer”?

- Se o PS tivesse uma maior componente sindical as coisas seriam diferentes – é isto que nos quer transmitir.

Fez-me recordar o Brasil; em que uma forte componente sindical do PT, não evitou um aumento da já endémica corrupção.

Porque estou convicto que o problema em Portugal, não é “políticas”, mas a corrupção. Sempre existente, mas “explodindo” com a actual governação PS.

Corrupção sempre “conduzida” na legalidade. Tudo se passa defronte dos nossos olhos, no estrito cumprimento da Lei.

DO, transporta-nos sistematicamente para a ideologia, quando o deveria fazer para a ética.

Infelizmente, o crescimento do Estado num emaranhado de Leis tortuosas, tudo permite.

Tal como um ingénuo tem a convicção que, o facto de uma pessoa ir à missa a torna virtuosa; DO tenta-nos convencer do mundo” binário”: socialismo bom; capitalismo mau; esquerda bom; direita mau.

A vida mostrou-me que a coberto da ideologia (tal como a religião), uma mente perversa actua com maior impunidade.

A direita é melhor? Não. Mas, pelo menos em democracia, não se escuda – naquilo que é privilégio da esquerda e das religiões - na superioridade moral.

Por favor DO, não seja mais um cúmplice, distraindo-nos com conversas da treta.

Obrigado
 
 Regras da comunidade
Contagem
Cruzadas (seguir utilizador), 1 ponto , 10:45 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
Militantes do bloco de esterco: há 14 dias sem comentarem as declarações de Fidel acerca do modelo de esquerda e sem comentarem os despedimentos da função pública em Cuba.
 
 Regras da comunidade
O ESTADO SOCIAL DO D.O..
csra (seguir utilizador), 1 ponto , 12:10 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010

D O, você continua a viver num mundo à parte. Por certo num mundo onde ainda não chegaram as notícias de Cuba… Mas vou continuar a convida-lo para a minha adega. Espero que goste dum tinto acompanhado com nozes, ou uma sardinha frita. Coisas do povo. Então o PS destruiu o Estado Social. Você fala do Estado Social como se fosse algo criado por decreto do Conselho da Revolução no 25 de Abril que agora uns malandros querem destruir. Achei sempre uma enorme piada à “sua” Esquerda. Qualificam o PS como de esquerda, quando pretendem sustentar que em Portugal existe uma maioria sociológica de esquerda. Qualificam-no de direita, quando este chega ao poder e governa sem vos passar cavaco (Não confundir, aqui «cavaco» significa nada ou coisa nenhuma). É um verdadeiro «partido» este PS. Deixe lá, quando o Povo acreditar em si e nessa tal imensa maioria de esquerda, voltam a cria outra vez o Estado Social. Por decreto. Custa alguma coisa homem?!...

 
 Regras da comunidade
Mais um bom artigo
Durruti Blak (seguir utilizador), 1 ponto , 13:27 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
Os meus parabéns.
 
 Regras da comunidade
Demasiadas palavras para dizer algo simples
MárioJTAlmeida (seguir utilizador), 1 ponto , 13:42 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
O actual Partido Socialista (PS) não é herdeiro ideológico ou histórico do antigo partido socialista do tempo da monarquia constitucional, um partido, pelo menos em projecto, baseado nos modelos sociais-democratas como o SPD.
O antepassado do actual PS é o PRP, mais propriamente o Partido Democrático de Afonso Costa, o racha-sindicalistas. É natural pois que o PS não possa regressar àquilo que nunca foi - um partido de classe de raíz operária. O PS fundado em 1973 sempre foi um partido do tipo catch-all e se alguma raíz sociológica tem a mesma é burguesa e de classe média. Foi nisso que o Labour se teve de transformar nos anos 90 para voltar a ganhar eleições.
Receio que o ensaio de Daniel Oliveira tenha sido sobre coisa nenhuma.
 
 Regras da comunidade
    Re: algo simples    Ver comentário
José Telhado (seguir utilizador), 2 pontos , 15:10 | Segunda feira, 27 de setembro de 2010
Um artigo enviesado
vera borges (seguir utilizador), 1 ponto , 6:59 | Terça feira, 28 de setembro de 2010
Algo que Daniel Oliveira faz bem, baralha, tira conclusões precipitadas e não informa. Desinforma, o que é pior.
Se o Labour de Blair foi anulado, tal como a política de Brown tal deve-se ao facto de eles perderem o contacto com o seu eleitorado. E isso conduziu ambos ao afastamento definitivo do poder.
Os irmãos Miliband pertencem a uma geração mais jovem , por isso com outra visão da política e do papel do Estado na sociedade.
Quanto ao partido socialista em Portugal abstenho-me de comentários, porque na verdade quando o senhor escrever com ética e isenção, eu posso comentar da mesma forma.
Ética jornalística. Algo que devia conhecer...
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Tribunal censura denúncias de ilegalidades
8:00 Quarta feira, 23 de maio de 2012, 34
Miguel Relvas: obviamente, demita-se
8:00 Terça feira, 22 de maio de 2012, 92
Relvas, as pressões aos jornalistas e os silêncios
9:47 Segunda feira, 21 de maio de 2012, 67
Catastroika
8:00 Sexta feira, 18 de maio de 2012, 50
Tribunais aliados da corrupção
8:00 Quinta feira, 17 de maio de 2012, 32
Austeridade? Nem muita, nem pouca.
8:00 Quarta feira, 16 de maio de 2012, 59
Os sermões de Pedro e a realidade
8:00 Terça feira, 15 de maio de 2012, 81
Um rapazola a quem calhou ser primeiro-ministro
8:00 Segunda feira, 14 de maio de 2012, 222
Na vanguarda do servilismo
8:00 Sexta feira, 11 de maio de 2012, 53
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
IAB