Portugal é um país rico em história, com uma
oferta histórico-cultural
notável. Ao longo dos tempos, essa história entrelaçou-se muitas vezes com a história do meu país, umas vezes em harmonia - penso na chegada de Dona Filipa de Lencastre, no seu casamento com D. João I e o no nascimento da Ínclita Geração -, outras não - no ano do
centenário da República
muito se tem escrito sobre o Ultimato e as suas consequências.
Ontem, o
Presidente da República presidiu às comemorações de um momento marcante nas relações luso-britânicas - a Batalha do Buçaco
. Entre os presentes esteve também o
Duque de Kent
, primo direito da Rainha Isabel II e antigo oficial do exército; o Marquês do Douro, descendente do primeiro Duque de Wellington; e membros dos regimentos que combateram no Buçaco. A presença de tantos compatriotas é indicativa da importância desta batalha para o Reino Unido, e da sua relação com Portugal.
A batalha em si é uma curiosidade - uma vitória para as forças aliadas, a que se seguiu a sua própria retirada. Também não se tratou de uma batalha à escala do que se viu noutros sítios durante a Guerra Peninsular, ou no resto da Europa durante uma turbulenta época que viria a culminar na Batalha de Waterloo. Mas continua a ser um momento significativo. Porquê? Em parte, porque marcou o surgimento de uma nova relação entre forças armadas britânicas e portuguesas, que lutaram lado a lado pela vitória no Buçaco. Durante o combate, vários batalhões das forças armadas portuguesas se notabilizaram durante a batalha.
O Buçaco é também importante pelo contexto em que ocorreu. Foi a última grande batalha da Guerra Peninsular em solo português, depois de três anos de conflitos. À vitória no Buçaco seguiu-se a defesa das
Linhas de Torres Vedras
, um extraordinário feito da engenharia militar, uma vez mais produto da estreita colaboração entre britânicos e portugueses. A defesa bem sucedida das Linhas marcou o início de um lento mas constante avanço das forças aliadas através da Península Ibérica e Pirinéus, no qual o exército português teve um papel tão importante que levou Wellington a descrevê-los com orgulho como "os galos de combate do exército".
Muita coisa mudou nos 200 anos desde a Batalha do Buçaco. Muitos dos palcos do conflito em Portugal foram transformados em magníficos museus ou em locais de interesse histórico. Mas o mais importante é o facto de países que neste conflito lutaram em lados diferentes, causando muitas mortes e devastação, serem hoje aliados em vários cenários, entre os quais o Afeganistão. Podemos até talvez considerar apropriado que apenas algumas semanas depois das comemorações do Buçaco, Portugal venha a acolher a
Cimeira da NATO
, que servirá para definir os objectivos futuros desta aliança e os próximos passos no Afeganistão. Assim, no Buçaco, podemos recordar as vítimas e os heróis, pisando a história e celebrando uma aliança e uma amizade que perdura até hoje.