O governo não precisava de apresentar o projecto de resolução do PEC ao Parlamento. Só duas razões podem justificar esta decisão: a vontade de comprometer uma maioria com as medidas que irão ser apresentadas em sua consequência ou criar um ambiente de dramatização. Se fosse o primeiro caso, o governo quereria que esta aprovação acontecesse com o líder do PSD que eleito hoje. Não quis.
O PS sabia que as eleições internas do PSD eram hoje. Por isso, com a esperteza saloia que caracteriza o engenheiro Sócrates, marcou para a véspera a votação do PEC. A data até era má para o debate, já que coincidia com um Conselho Europeu fundamental para o país e impedia a participação do primeiro-ministro na discussão do mais importante documento deste ano. Mas era a melhor forma de entalar o maior partido da oposição.
Manuela Ferreira Leite, por seu lado, mostrou mais uma vez que vive mal com a democracia interna. Sabendo que está de partida não juntou os candidatos para saber o que pensavam. Mas nem precisava. Os seus dois possíveis sucessores disseram claramente que eram pelo voto contra. E Ferreira Leite votou a favor - não vale a pena perder tempo a explicar que as cedências do governo valem zero em termos práticos.
Ainda os deputados estavam dentro do hemiciclo e já o governo dizia que esperava que o PSD não fizesse uma coisa num dia e outro dia seguinte. Elogiou Manuela Ferreira Leite para deixar claro que ia cobrar ao próximo líder o resultado do seu truque.
Se o PS quisesse realmente um compromisso em torno do PEC tinha esperado para negociar com o líder do PSD que realmente vai decidir do voto sobre as medidas concretas do PEC. Escolheu, como é costume, o pequeno truque para o "sound bite" que usará até à exaustão nos próximos meses em vez de algumas garantias de estabilidade na decisão que foi tomada hoje. E para tal contou com o autismo da líder do PSD.
Escrevo isto por sentir as dores do PSD? Nem pensar. Até porque acho que os social-democratas só não querem aprovar este PEC por razões eleitorais. O seu conteúdo é a cara chapada do PSD.
O que é preocupante para todos é perceber que, na situação em que o País está, o governo não só se recusa a negociar realmente com seja quem for, como ainda se entretém com habilidades que só podem juntar à crise financeira, económica e social uma crise política.