Brad Pitt a fazer de Fernando Mamede
Um filme de culto não é necessariamente uma obra-prima. Moneyball não é perfeito, mas tem aquele encanto impreciso dos filmes que se transformam em objetos de culto. Este encanto inqualificável nasce da química entre o Adónis, Brad Pitt, e o Badocha, Jonah Hill, os dois protagonistas do filme. De forma, digamos, encantadora, a força da natureza (Pitt) estabelece uma relação de cumplicidade com a força do intelecto (Hill). É como se o quarterback e o geek do liceu começassem a trabalhar juntos. Esta podia ser a fórmula de um fracasso muito pindérico, mas Moneyball funciona, porque a química entre Pitt e Hill é alimentada por essa metralhada de diálogos chamada Aaron Sorkin, que faz aqui o seu segundo filme pós-West Wing, depois de Rede Social.
O encanto do filme continua na forma como descreve as entranhas da sociedade americana. Pitt e Hill são o D. Quixote e o Sancho Pancha do basebol. A personagem de Hill é um geek matemático que consegue ver o jogo através de uma fórmula revolucionária, uma fórmula que muda a percepção sobre a utilidade dos jogadores. Através desta visão científica, Pitt (o manager) e Hill (o adjunto) montam uma equipa de underdogs que mais ninguém leva a sério. No final, não são campeões, mas estabelecem um recorde de vitórias e mudam para sempre o jogo. Ora, esta glorificação do underdog é algo profundamente americano. Como diz Kishore Mahbubani, a América é o único sítio do mundo onde o porteiro olha nos olhos o Sr. Dr. que entra no hotel. Além disso, o filme mostra o interior de uma sociedade que contrata e despede a uma velocidade única, uma sociedade onde a liberdade individual é acompanhada por uma prestação de contas implacável, uma sociedade que premia o risco e a novidade, uma sociedade dura mas com um brilho único.
Mas Moneyball não é apenas uma crónica da sociedade americana. Este filme é, acima de tudo, uma história universal sobre fracasso e redenção. A personagem de Pitt (Beane) era uma grande esperança, mas fracassou como jogador. Era uma espécie de Fernando Mamede do basebol: tinha um talento insuperável, mas bloqueava na hora da verdade. Pensava demasiado. Não por acaso, Beane acaba por procurar uma segunda oportunidade como manager, como alguém que pensa o jogo. E a aposta na visão revolucionária do mago matemático é a forma que Beane encontra para destruir os seus fantasmas. Em Hollywood, a redenção é normalmente servida com planos em câmara lenta e banda sonora a pedir lágrima. Contra a corrente, Moneyball conta a história de uma redenção com uma sensibilidade enxuta.


