23/05/2012 atualizado às 17:40
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Bordalo, de kitsch a fashion

A conhecida loiça da folha de couve saltou da cozinha da avó para as casas mais "trendy" e até para uma exposição em Nova Iorque. Bordalo Pinheiro volta a estar na moda 

Mafalda Ganhão (www.expresso.pt)
8:22 Sábado, 27 de novembro de 2010

Visto de perto, o caranguejo impressiona. Não só pela dimensão, mas pelo pormenor da reprodução. Está lá tudo: cada relevo da espécie original, cada nuance da coloração, o mais pequeno detalhe da sua forma. Não só neste caso, mas em todos os animais deixados por Rafael Bordalo Pinheiro, há um rigor, um tamanho e uma riqueza de textura difícil de captar pela máquina fotográfica. Da mesma forma, a lente não capta todo o trabalho que dá esta faiança até atingir tal estado de perfeição.

Os objetos espelham a genialidade artística de Bordalo Pinheiro, o fundador da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, em 1884. Depois, o seu grau de exigência. Bordalo rodeou-se dos melhores oleiros, insistiu no apuramento das técnicas e dos materiais, trabalhou cada molde até não lhe encontrar defeito. Por causa disso, é bom de ver, prevaleceu o aspeto artístico em detrimento dos objetivos económicos, pelo que a história da fábrica não se fez sem vicissitudes várias, sempre à beira de lhe ditar o fim. Que foi fintado quando, após perder a fábrica original, o seu filho fundou em 1908 - três anos depois da morte de Rafael - a Fábrica Bordalo Pinheiro, no terreno contíguo ao local onde fora edificada a do pai e, mais recentemente (em 2009), quando o grupo Visabeira adquiriu a fábrica, evitando o seu encerramento.

Voltar ao detalhe do original


Prevalece a obra "excecional", como não se cansa de repetir Elsa Rebelo, diretora artística da atual Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro. E até com condições acrescidas para se acreditar que pode vir a ser melhor divulgada e reconhecida, acrescenta. "Nos últimos anos, um dos grandes trabalhos tem sido a recuperação de moldes originais antigos, já muito deteriorados pelo uso e pelo tempo", o que permite voltar a produzir algumas das peças entretanto descontinuadas, revela Elsa Rebelo.

Recorre-se agora a materiais de maior durabilidade e resistência, para que se não percam as matrizes. Mas, não contente com este esforço, Elsa chamou a si a tarefa de catalogar toda a produção bordaliana, elaborando uma ficha técnica para cada artigo, onde regista as cores a empregar e o modo de as aplicar em cada peça, tal como o autor originalmente a idealizou: "É um trabalho imenso e demorado, porque exige também muita pesquisa, mas julgo importante garantir esta 'base de dados', para perpetuar o legado artístico do autor", justifica Elsa Rebelo. Esta artista plástica entrou na Bordalo Pinheiro para dar formação técnica e acabou perdidamente apaixonada pelo espólio que viria a descobrir.

A típica loiça "folha de couve", que nos habituamos a ver nas mesas das casas das avós, é apenas uma das imagens de marca. Além desta loiça utilitária - depois relegada para a prateleira das coisas kitsch e que agora começa a ser redescoberta à luz de um novo olhar -, Bordalo produziu artigos menos conhecidos, como azulejos e obras cerâmicas de cariz mais revivalista, destinadas a um público mais culto e sofisticado. E ainda outros pelos quais se viria a distinguir na vertente das peças artísticas e decorativas, seguindo duas linhas muito marcantes.

A influência naturalista marca uma dessas linhas criativas. "São peças em que Bordalo se inspirou na natureza e em toda a fauna e flora que o rodeava", explica Elsa. Pode não ter sido ele o criador do estilo, explica, "mas foi o artista que o levou mais longe, apurando técnicas e alcançando um grau de aperfeiçoamento que ainda hoje surpreende".

Tuga, sempre tuga


Nos seus trabalhos, Bordalo fez questão de não ceder à influência estrangeira. Batalhou para dar um cunho português à sua fábrica e dar forma só ao que era mais genuinamente nacional. Aproveitou as tradições locais no conteúdo e na forma, recorrendo ao saber da olaria das Caldas da Rainha para criar peças diferentes, que traduziam o que via, como galinhas, rãs, peças de fruta ou cestos de vime.

Não só. Outra vertente lhe havia de trazer fama até à atualidade: a cerâmica humorística, onde se enquadra o eterno Zé Povinho e a sua mulher, Maria Paciência, mas também toda uma galeria de figuras populares, misto de uma visão etnográfica e caricatural, que não poupou nenhuma classe ou meio social. São disso exemplo as chamadas figuras de movimento, os bules com cabeças divertidas e, mesmo, algumas peças com uma vertente satírica ainda mais agressiva, como escarradores e penicos ironizando a figura de John Bull, símbolo da nação britânica - influência do abalo político nacional provocado pelo "Ultimatum" britânico de 1890.

Perante o peso deste espólio, a intenção atual é, segundo Pedro Bau, diretor de marketing da Visabeira Indústria, "evoluir sendo fiel a Bordalo".

É isso que está a fazer na comemoração dos 125 Anos da Faianças Artísticas Bordalo. A empresa convidou sete artistas para reinterpretar uma peça original de Bordalo. São eles Joana Vasconcelos, Fernando Brízio, Henrique Cayatte, Susanne Themlitz, Bela Silva, Catarina Pestana e a própria Elsa Rebelo.

Atrair novos clientes


No âmbito "de um plano de maior aproximação ao consumidor, também já é possível encontrar peças Bordalo Pinheiro em lojas Vista Alegre Atlantis" e está em cima da mesa o projeto de abrir uma série de lojas próprias, revela Pedro Bau.

O mercado externo também tem potencial de crescimento e já é "responsável por cerca de um terço da nossa faturação", esclarece o diretor de marketing. "Recentemente, a visibilidade da marca foi reforçada com a presença no MoMa, em Nova Iorque", recorda, e, "não sendo ainda possível quantificar o resultado dessa exposição", é pelo menos possível perceber o interesse que as peças Bordalo Pinheiro despertam lá fora. Na Internet, por exemplo, em qualquer site de comercialização de faianças são muito procuradas.

Podem ter-se registado algumas quebras nas vendas, mas Pedro Bau garante que já estão a recuperar, particularmente nos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França, Austrália, Dinamarca e Holanda. "Couves, Coelhos, Folhas, Coutada, Vinha Brava e Perus são as linhas mais vendidas internacionalmente", afirma. Um orgulho nacional.

Publicado na Revista Única do Expresso de 20 de Novembro de 2010

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Os Bordalos!
Marta Marques (seguir utilizador), 1 ponto , 0:26 | Domingo, 28 de novembro de 2010
Bordalo era português e como não fez questão de seguir as modas estrangeiras e sim fazer um grande trabalho artístico sobre o que é Portugal, ganhou! Vê-se já desde Camões, Fernando Pessoa ou Lopes-Graça! Porquê? Porque não fazem parte da moda mundial (um estilo inglês só será realmente bem feito por um inglês, um italiano por um italiano etc.) ... Saem da banalidade, com genialidade e por isso são eternos. Os artistas seja de que nação forem devem ser fiéis ao seu ambiente natural e não fazer uma obra de arte que nasce na falsidade! Obviamente que se se aprendeu numa determinada escola e estilo, vai haver uma grande ingluência desta, mas o artista deve entretanto saber personalizar esse estilo (por exemplo Camões seguiu os passos de Dante - e este provavelmente terá seguido os passos de outrém - mas relatou a vida e viagem dos portugueses, com a palavra de quem viveu e elevou os feitos do seu próprio povo, porque era este o mundo que ele conhecia...). Bordalo era realmente um grande artista e, mais ainda, um grande sabedor da sociedade em que vivia (assim como o seu irmão Columbano que apesar disso seguiu uma vertente mais erudita e europeia, de um estilo de pintura não menos genial, mas mesmo nele se denota uma preocupação em retratar a sociedade portuguesa e não confundí-la com um qualquer modelo estrangeiro)!
 
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