25 de maio de 2013 às 18:07
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Boa Mesa: Mediano

No restaurante Le Petit, em Algés, não há entradas e prevalece a grelha.

Le Petit
Rua Major Afonso Pala,32
Algés
Tel. 214 112 118
(Aberto todos os dias)

José Quitério (www.expresso.pt)
NUNO BOTELHO

Foi num tempo em que Algés já não era a aldeola pitoresca a oeste de Lisboa mas estava longe do aglomerado urbano em que modernamente se tornaria. Ainda existia a sua praia bem concorrida de banhistas, tinham fama os espetáculos tauromáquicos na sua praça de touros, o seu glorioso clube Sport Algés e Dafundo começava a afirmar-se, entravam em declínio as hortas e os retiros. É precisamente a 1927 que remonta a fundação, com o registo do nome por J. Fernandes Lda., do restaurante (ou casa de pasto?) Le Petit, presumindo-se que fosse essa a alcunha (mas porquê em francês?) desse remoto José (?) Fernandes. Nada sei da atividade do estaminé durante mais de 50 anos, porém clientela nunca lhe faltou, como atesta a durabilidade. Certo é que em 1983 levou uma grande volta, com instalação renovada, outro estilo culinário e novos proprietários, quatro sócios antigos empregados do restaurante Mónaco (Caxias). Ora tudo isto se passa no nº 32 da Rua Major Afonso Pala (propagandista e ativista da República, morto em Angola em combate contra os alemães, em 1916). Tão bem as coisas correram para a nova sociedade que logo em novembro de 1987 abriram do outro lado da rua, no nº 37, outro Le Petit, maior, mais rico e ambicioso. Chegou a ser restaurante da moda, todavia feneceu, creio que em 2004, e voltou a haver só um Le Petit.

Vamos a ele. Desde já o lamento pela morte (vai para dois anos) de um dos sócios, o velho e grande profissional Jorge Seoane. Depois, o registo das obras de remodelação ocorridas há três anos: desapareceu o barquinho plantado lá no meio, substituído por um aquário, o mobiliário é moderno, abunda a luz, claras são as tonalidades e a amesendação.

Não há Entradas. A lista abre com os Pratos Recomendados (sempre os mesmos), onde se destrinçam 10 de Peixes e Mariscos e 4 de Carne. A seguir, 5 Peixes Confecionados, 9 Peixes Grelhados, 17 Mariscos, 6 Carnes (2 repetem as recomendadas) e 5 Sopas. Como se vê, o teor é eminentemente marítimo e prevalece a grelha.

Do que põem na mesa sem se pedir, cuidado com o queijo fresco, que custa €3,30. Avance-se para o "pincho de lulas e gambas com molho de manteiga" (€10,80): agrado pela afluência do molusco e do crustáceo e pela consequente escassez de cebola e pimento, arroz branco (neutro) a acompanhar. "Lagostinha grelhada à ribeira de Algés" (€16,90, 45o gramas): dá para matar saudades a quem as tenha, com arroz idêntico ao anterior. Nos "camarões à Brás com cogumelos salteados" (€11,50), o envolvimento foi o mesmo do do bacalhau, cogumelos vulgares de companhia. Parece que todas as bochechas estão na moda: agora são "bochechas de tamboril com amêijoas à Bulhão Pato" (€11,40), boas estas e nada mau o peixe (previamente cozido), tudo misturado numa travessa com cenoura e brócolos. O "bife de atum à portimonense" (€8,90) foi o normal bife de atum de cebolada à algarvia, aqui com algum tomate e salsa. O "arroz de polvo malandrinho" (€10,50), o octópode em quantidade justa, exagerou na malandrice (dava quase para beber) e ficou aquém no apuro. Grelos sem graça, batatas fritas viçosas e enchido de qualidade na "alheira de caça" (€8,30). O "filet de lombo com pimenta-verde" (€13,80), com batatas fritas e cenoura e brócolos cozidos, revelou carne bastante aceitável, o molho é que rapidamente talhou. Do que se livrou por via da grelha o "entrecôte grelhado com batata e legumes" (€10,50), de carne e acompanhamento semelhantes ao antecedente.

Os doces ultrapassam a quinzena e não caem em vulgaridades. O "pão de rala" (€4,30) e a "sericaia com ameixa de Elvas" (€4,50), por exemplo, deram boa conta de si, pena virem com o frio do frigorífico. A carta de vinhos, sem datas, está forte nos vários tipos de brancos, em coerência com a larga maioria das propostas culinárias: 43 brancos, 9 verdes brancos (3 alvarinhos), 7 espumantes, 1 champanhe e 57 tintos. Serviço correto, contudo algo distante.

A única coisa desconforme nesta Rua Major Afonso Pala é o conjunto de estátuas disformes que lá implantaram. O Le Petit, reduzido à unicidade primitiva, continua conforme à sua vocação marítima, sem pequenez mas também sem o brilho da grandeza, suficientemente seguro para poder atingir o centenário.

Texto publicado na edição da Única de 23 de outubro de 2010

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