20 de junho de 2013 às 0:28
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Boa mesa: Ares de Tires

No restaurante O Fiorde, o estilo é nacional, simples e com significativa atração pela grelha.

 

O FIORDE
Largo dos Duartes, lote B - Tires
Tel. 214 441 707
(Fecha às segundas ao jantar e às terças todo o dia)

José Quitério (www.expresso.pt)
Restaurante O Fiorde
Restaurante O Fiorde
José Ventura

De Tires, sabe-se da existência dum aeródromo. Tirando a limpo, de seu nome Aeródromo Conde de Monte Real - o benemérito que doou os terrenos para tal fim -, tem, segundo José d'Encarnação no seu prestimoso livro "Recantos de Cascais" (Edições Colibri/Câmara Municipal de Cascais, 2007), condições sobejas para ser um aeroporto a sério. É centro importante de escolas de aviação, da publicidade aérea, da aviação de recreio e de tráfego de aviões particulares. Todavia, não lhe faltando infraestruturas e demais indispensabilidades, segundo este autor, circunstâncias várias têm impedido que se torne no verdadeiro aeroporto de Cascais, sonho cascalense de algumas décadas.

Como aglomerado populacional, Tires não é propriamente um modelo de atração estética. Para ver se há outro motivo para além do aeronáutico, saiamos então da A5 por onde a placa aponta Tires/Abóboda e depois sigamos as que indicam Tires/Centro. Nas traseiras, por assim dizer, da Farmácia Guimarães, há de chegar-se ao Largo dos Duartes (não é bem um largo, mas sim um cruzamento de três ruas). Ora aí está, no Lote B, sem tirar nem pôr, o restaurante O Fiorde.

A sala de refeições, com capacidade para 48 praticantes, é idêntica a tantas que por aí há, modesta e limpa, de mesas singelas revestidas ao de cima por toalhas e guardanapos de papel, ressaltando nas paredes cartazes turísticos da Noruega e respetivos fiordes. Conforme se virá a verificar, a única ligação ao rico e civilizado país nórdico e aos seus antigos vales glaciários invadidos pelo mar - nem sequer neste estabelecimento se trabalha intensamente o bacalhau - tem a ver com o passado do proprietário. Armindo Almeida, transmontano valpacense prestes a tornar-se septuagenário, além do seu labor em casas conhecidas de Lisboa e arredores, também trabalhou na marinha mercante e em barcos de cruzeiros. Dessas andanças ficou-lhe especial afeto pela terra dos fiordes, daí a homenagem batismal quando abriu este restaurante em 1 de agosto de 1979, com a colaboração de sua mulher, Julieta Almeida, e o auxílio um pouco posterior do cozinheiro José Gonçalves Carriço. Antes mais pequeno, a feição atual é de 1995.

A lista tem o seu ponto mais forte nos Pratos do Dia (normalmente 7 de Peixe e 8 de Carne). Os únicos de dia fixo são "arroz de cabidela de leitão" às quintas-feiras e "feijoada à transmontana" às sextas. O resto são 3 Entradas (presunto, amêijoas e gambas), 6 pratos de Peixe e 10 de Carne, mas destes muitos vão sendo cooptados para diários. O estilo é nacional, simples e com significativa atração pela grelha.

Apresentem-se ao serviço. Das "amêijoas à Bulhão Pato" (€12,50), o serem pequenas não lhes afetou a qualidade, no molho é que não competia entrar (mesmo que pouco) vinho branco. Regulares as "lulas à lagareiro" (€9), grelhadas mas banhadas num molho excessivo. Nos "filetes de pescada com arroz de grão" (€8,50), este desenxabido (e não me parece que possa melhorar a não ser com a junção de nicos de chouriço, presunto ou coisa que o valha), os filetes o melhor possível para pescada congelada. O "arroz de polvo" (€8,50) bastante líquido, octópode pouco generoso, razoável. Também com abundantes e finas fatias de toucinho entremeado, a "caldeirada de borrego" (€8,50) resultou num excelente guisado muito bem apaladado. Corretamente temperado e executado a preceito, o "coelho na grelha" (€9) conseguiu a suculência e a sapidez. O "pato assado no forno com arroz" (€8,50) foi servido em separado: o arroz, bem adubado dele, sequinho sem menosprezo pela humidade suficiente, saborosíssimo, um perfeito, consolador e patriótico anti-risoto; igualmente caprichado o pato assado, embora o sabor a laranja avultasse aqui e ali.

Os doces andam pela dezena. Imperdível o "leite-creme" (€2,50), cuja feitura é um exclusivo da patroa. A carta de vinhos sem datas, por regiões, de marcas médias e preços acessíveis: 45 tintos, 13 brancos e 5 verdes. Serviço despachado e simpático.

Restaurante familiar, no sentido do acolhimento e em que toda a gente parece conhecer-se, a prudência aconselha a que se telefone antes para saber dos pratos do dia (que permitam fugir ao trivial). De resto, a cozinha é estimável e o preçário amigo.

 

Texto publicado na edição da Única de 17 de julho de 2010

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