Sectores agro - pecuários e camionistas levantam a medida de força que bloqueou estradas por todo o país, provocou a falta de abastecimento generalizado e paralisou a economia. A crispação social entra num período de alívio, mas Cristina Kirchner perde popularidade de forma vertiginosa. A sociedade assiste perplexa a uma escalada do conflito que está longe de terminar.
A semana mais explosiva de um conflito que já dura 102 dias deu lugar a uma tensa calma depois de ter chegado a um perigoso limite. O desarme de uma bomba cujo relógio já se tinha disparado aconteceu às zero horas deste sábado, quando os sectores agro - pecuários suspenderam a greve sobre a comercialização de cereais que implicava impedir a circulação de camiões que transportam grãos para a exportação. A medida era uma represália dos agricultores ao aumento do imposto às exportações de cereais, conhecido como retenções, ponto detonante de todo o conflito.
A distensão chegou depois de, na terça-feira, a presidente Cristina Kirchner anunciasse, visivelmente irritada, a decisão de enviar ao Congresso um projecto de lei com a medida que elevava as retenções de 35% a até mais de 50%, de acordo com o preço internacional variável de cada cereal.
Cristina levou 100 dias para ceder o debate do assunto a um Congresso, onde a base oficialista é maioria absoluta. Só o fez depois de ter sofrido dois gigantescos 'panelaços'. Foi o recuo político mais nítido em cinco anos de governos Kirchner (presidente Cristina Kirchner e o seu marido, ex-presidente Néstor Kirchner, apontado por todos os analistas como quem realmente exerce o Poder).
A volta dos panelaços
Os metálicos e ensurdecedores sons de milhares de caçarolas juntas marcaram o limite que a sociedade argentina impôs a um governo que, intransigente se nega a dialogar.
No bairro de classe média e alta de Belgrano, Elena Ruíz, 52 anos, não se cansava de bater duas tampas de panelas. Nesta clássica esquina de Buenos Aires, os famosos panelaços sempre dão os primeiros sinais de vida. As rádios e os canais de TV encarregam-se de propagar o exemplo ao resto do país. Em questão de minutos, a população sai às ruas e ocupa espaços públicos em todo o país. Em Buenos Aires, a multidão também avança até os símbolos do Poder. Os gritos em coro pedem "diálogo" e "fim do autoritarismo".
"A presidente mente na nossa cara. Estamos numa tirania. Temos que tomar consciência de que estes senhores (do governo) são ditadores. Tenho medo que isto termine como a crise de 2001", desabafa Elena, referindo-se aos primeiros 'panelaços' que derrubaram o governo de Fernando de la Rúa e, logo em seguida, de Adolfo Rodríguez Saá.
Ao seu lado, Amalia, 68 anos, concorda indignada: "Sou reformada. Não tenho reforma, não tenho nada. Só peço que as instituições funcionem. Este Governo não deixa funcionar nada. Nem o Poder legislativo nem o Judiciário. É uma ditadura encoberta".
"A palavra que resume o estilo de gestão do casal Kirchner é 'hiperpresidencialismo'. Dos presidentes constitucionais desde o retorno da democracia em 1983, foi o que mais acumulou poder para o Executivo em detrimento do Judiciário e do legislativo", compara o analista político Rosendo Fraga.
"Os 'panelaços' demonstram que a sociedade quer uma solução pacífica. O que existe é um pedido de mudança na forma de governar. Mais qualidade institucional, uma democracia transparente", avalia o analista Sergio Berensztein, director da consultoria política Poliarquía.
Capital político dilapidado
Em apenas seis meses de governo, Cristina Kirchner perdeu popularidade de uma maneira vertiginosa. Segundo uma sondagem da Poliarquia, a imagem da presidente caiu em 26 pontos desde Março, quando começou o conflito com os sectores agro - pecuários, e 36 pontos desde o começo do ano. De Janeiro a Junho, caiu de 56% a 20%.
"Cristina Kirchner repete discursos agressivos e de rupturas. O problema mais sério que está a criar para o seu governo é a fragmentação da sociedade. Nenhum governo fez tanto para dividir a sociedade entre sectores médios e pobres. Cristina acredita que a querem derrubar. Vincula o protesto rural e os 'panelaços' com os golpes de Estado", observa o analista político Joaquín Morales Solá.
A classe média urbana, segmento que já lhe havia negado os votos nas eleições de Outubro passado, acumula uma série de insatisfações que o conflito agro - pecuário encobriu. Escândalos de corrupção, uma escalada inflacionária, crise energética e um estilo autoritário de governar. Para Cristina, os agricultores são "aristocratas" que fazem bloqueios aos quais chama de "piquetes da abundância" porque são ricos que interrompem a circulação. Define os manifestantes como "golpistas" e "desestabilizadores".
Golpe de Estado
Os Kirchner estão convictos de que existe uma conspiração entre a imprensa e grupos de direita para derrubar o governo.
Sandra Butan, advogada, 45 anos é uma delegada sindical que acredita que o país esteja diante de uma tentativa de golpe institucional. "Já vivemos isso antes e não quero que se repita", sentencia. Vê uma classe média a bater panelas "como se com isso pudessem destituir o governo".
"Por isso, quero defender a democracia. Essa gente está nas ruas para defender interesses pessoais e não colectivos. É preciso tocar interesses se quisermos a igualdade. Eu prefiro que nas estradas os bloqueios sejam dos ricos e não os pobres", conclui.
Ao lado dela, o reformado Raúl de 70 anos diz ter o mesmo comportamento. Raúl recebe 710 pesos (142 euros) de reforma. E conta como uma das grandes conquistas durante o governo dos Kirchner que a esposa tenha começado a receber uma reforma de 400 pesos (80 euros). "Não nos sobra, mas damos um jeito. Vivemos o dia-a-dia", conta.
Raúl diz que já viu este filme antes em 1955, quando Juan Domingo Perón foi derrubado. "São sectores que se aproveitam do conflito com os agricultores para criar um ambiente propício a um golpe", avalia. E começa a enumerar a quantidade de presidentes, vítimas dessa estratégia. "(Juan Domingo) Perón, Isabelita (María Isabel Estela Martínez de Perón), (Raúl) Alfonsín, (Fernando) De La Rúa... O povo não se engana mais", garante.
A estratégia de Cristina Kirchner para colocar ponto final à discussão foi criar um plano de redistribuição de renda que dá um destino social ao excedente arrecadado a partir dos 35 por cento de imposto. Porém o plano só foi apresentado três meses depois de iniciado o conflito.
Estradas bloqueadas
Os agricultores consideram o imposto confiscatório, asseguram que a rentabilidade deixa de existir, exigem a anulação do aumento e impuseram desde 11 de Março uma série de protestos que incluíram centenas de bloqueios parciais ou totais, intermitentes ou permanentes nas estradas de todo o país. Nas duas últimas semanas, os camionistas que transportam cereais, sem carga e sem trabalho há mais de três meses, haviam decidido bloquear as estradas para todos os demais camiões com qualquer carga. A consequência foi um quadro de falta de abastecimento em alimentos, medicamentos e combustíveis, além da paralisação da economia, sobretudo no interior do país.
Com a decisão dos produtores de voltar a comercializar as mercadorias, os camionistas também suspenderam os bloqueios. A falta de abastecimento, no entanto, deve levar duas semanas para ser superada. Sem matéria - prima, algumas linhas de produção foram interrompidas.
Das estradas ao Congresso
O conflito desencadeado pelo aumento nas retenções está longe de terminar. O palco passa das estradas ao Congresso, mas não se descarta que volte às estradas. Os agricultores avisaram que vão começar um trabalho de persuasão de cada voto, de cada legislador. O Governo tentou ainda uma última cartada. O ministro da Justiça, Aníbal Fernandez, mandou um recado para disciplinar a tropa no Parlamento: "O projecto não pode ser alterado. Ou será ratificado na sua totalidade ou rejeitado". A oposição diminuta no Congresso contra-atacou: "Se é um texto disfarçado de lei, é mais autoritarismo disfarçado de democracia", acusou a senadora María Eugenia Estensoro. Perante a ameaça de novos protestos, o governo recuou, mas o recado já estava dado.
O oficialismo possui maioria absoluta, mas só precisa de maioria simples para transformar o aumento do imposto em lei. A surpresa poderia vir do lado dos legisladores oriundos das províncias agro - produtoras que poderiam introduzir modificações nas retenções. Nesta Argentina crispada, os bloqueios e os 'panelaços' estão à espreita.
Falta de abastecimento e medo
A falta de abastecimento fez estragos, sobretudo no interior do país onde a economia depende dos sectores agrários. Diariamente quatro milhões de litros de leite deitados fora. Nos mercados menores, ainda falta todo tipo de produtos básicos. Nos grandes com maior capacidade de 'stock', há racionamento. Em todos, aumento de preços entre 30% e 100%. Também faltam combustíveis e medicamentos. A economia começa a sair de uma paralisia.
O advogado Fernando de Castro, 38 anos, não deixa de temer que a crise se torne em colapso.
"Tenho duas filhas pequenas. Sempre que o conflito aumenta e os sinais de falta de abastecimento aparecem, compro alimentos a mais: leites e laticínios. Encho o frigorífico de carne e frango. Tenho uma previsão para 15 dias", explica.
A comunidade portuguesa, com o perfil de classe média e concentrada na sua maioria na periferia de Buenos Aires, tem um comportamento semelhante.
"Faço um 'stock' de alimentos não perecíveis para 10 dias. E este tem sido o comportamento da nossa comunidade de um modo geral. Mas o que falta mesmo é paz social. Estamos todos muito preocupados porque há uma escalada do conflito. Só falta que alguém morra para isto virar um pandemónio. E o governo, em vez de liderar uma pacificação, só incentiva a confrontação", indica o conselheiro das Comunidades Portuguesas, António Canas Antunes.
Nos portos de Buenos Aires e de Rosario, mais de 100 navios esperam pelas cargas. O custo diário é de 80 mil dólares por navio. O prejuízo já chega a 5 milhões de dólares.
Pela desconfiança dos investidores, os títulos públicos argentinos não param de cair. Assustados, muitos argentinos retiram a poupança dos bancos. Só em Maio, saíram 2.500 milhões de dólares do sistema. O Banco Central interrompeu a sua estratégia de acumular reservas para segurar a cotação do dólar. No período, gastou 3.000 milhões de dólares quando normalmente teria aumentado as suas reservas em 3.000 milhões de dólares com as exportações de cereais. Uma perda de 6.000 milhões de dólares.
O maior conflito sectorial da história argentina derivou numa crise política e social de dimensão nacional. Mas, segundo a presidente Cristina Kirchner, não existe crise - "O que existe é um sector que não aceita perder parte dos seus lucros extraordinários" -, nem existe inflação ("Existem alguns movimentos de preços"). Para a presidente crise é uma sensação provocada pela imprensa.
Cronologia de uma semana em ebulição
A última semana poderia sintetizar a anarquia de protestos que transformaram o país num cabo de guerra. De um lado, os sectores agro - pecuários com o apoio da classe média urbana. Do outro, um governo cuja ordem aos seus membros era a "inflexibilidade" e vencer os agricultores pelo cansaço "até se ajoelharem rendidos". Há mais de 100 dias, a sociedade é refém de um estado de confrontação de conflito sem precedentes na história do país.
Num período de alta internacional dos alimentos, o governo de um dos maiores produtores mundiais que, com 40 milhões de habitantes produz alimentos suficientes para 400 milhões de pessoas, impôs um aumento substancial nas retenções. Metade do que se exporta fica com o Estado, sem considerar posteriormente os demais impostos. O conflito agrário contribuiu à actual alta global da soja. Só no que se refere à soja, a Argentina é o terceiro maior exportador do mundo e o maior produtor de óleo e de farelo.
Sábado, dia 14
O governo dá o assunto por terminado, apesar dos 234 bloqueios registados ao longo do país. A Polícia do Exército recebe ordem para acabar com o bloqueio num dos principais pontos de conflito: a estrada 14 que une Buenos Aires com o Nordeste do país, além de Uruguai, Paraguai e Brasil. As forças de segurança avançam sobre os produtores agro - pecuários e camionistas. Prende 19 manifestantes, entre os quais o líder do protesto, o carismático Alfredo De Angeli.
Foi como uma faísca no combustível para uma revolta popular.Imediatamente, os ânimos incendeiam-se. Milhares de pessoas que acompanham a repressão policial pelos meios de comunicação vão até o bloqueio para apoiar os agricultores. Famílias inteiras de cidades e de povoados partem para estrada empunhando bandeiras argentinas e gritando palavras de ordem.
O protesto ganhou mais força com a adesão da classe média urbana. Voltam os famosos 'panelaços'. A Presidente Cristina Kirchner dá a ordem de recuar. Superada em número e em força, a Polícia do Exército abandona a estrada. O número de bloqueios sobe para 324 em todo o país.
Segunda-feira, dia 16
A crispação social está ao máximo. O país vive uma anarquia de protestos. Numa dimensão ainda maior, a população ocupa as ruas e praças de todo o país. As palavras de ordem nas ruas apontam contra a postura de um Governo que ao invés de promover a paz social incentiva a confrontação.
Terça-feira, dia 17
Na sua primeira aparição pública desde sábado quando o país passou a fervilhar em protestos populares, Cristina Kirchner convoca rede nacional de rádio e televisão. Irritada, critica os 'panelaços' e as afrontações ao seu poder. "Não basta a decisão de uma Presidente eleita há apenas seis meses", constata. Os 'panelaços' recomeçam nas janelas de alguns bairros de Buenos Aires. Contrariada, a Presidente anunciou que vai enviar a medida que elevou as retenções ao Congresso só para "dar mais democracia" à sua decisão.
E para demonstrar que também tem apoio popular, convocou os argentinos a defenderem a democracia na Praça de Maio. Horas antes, o seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner disse que os 'panelaços' não foram espontâneos e sim convocados pela imprensa que conspira a favor dos agricultores. E como se houvesse um risco de golpe de Estado contra o autoritarismo. Por coincidência, os 'panelaços' contra o Governo também pedem o fim do autoritarismo dos Kirchner.
Quarta-feira, dia 18
A presidente Cristina Kirchner usou todo o aparelho oficialista para encher a Praça de Maio. A ordem era mostrar apoio popular a qualquer custo. Os principais sindicatos do país, governadores, organizações sociais e toda a estrutura do partido peronista distribuem dinheiro do Governo para todo aquele que participa nos actos oficiais. Bancos, transportes públicos e até aeroportos param para que os funcionários participem do acto. Os canais de TV e as rádios são obrigados à transmitir o acto em rede nacional.
Cristina coloca os 'panelaços' e os bloqueios na mesma altura. "Buzinões, panelaços e piquetes não resolvem nada", diz. Na medição de força por quem tem mais apoio popular, os agricultores optam pelo caminho contrário à confrontação e promovem missas nas estradas.
María Baygorria tem 33 anos e seis filhos. Foi até a Praça de Maio, levada em autocarro pela organização piqueteira Federación Tierra y Vivienda. Não sabe de golpes de Estado nem percebe muito bem por que o Governo e agricultores discutem tanto. Sabe que para continuar na lista de subsidiados pela organização social e pelo município precisa de comparecer nos actos oficiais de Cristina. E Maria recebe dois subsídios mensais. Um Plano Vida de 100 pesos (20 euros) pelo filho de um ano e oito meses que leva ao colo e 150 pesos (30 euros) de outro plano municipal.
Maria entende que a falta de abastecimento piorou as suas economias. "Já havia inflação, mas agora todos aproveitam para aumentar ainda mais. Não sabemos o que fazer", exclama. Conta que o quilo do pão subiu de 1,80 para 5,60 pesos, que um litro de óleo passou de 3 para até 15 pesos e que o açúcar foi de 1,30 para 3 pesos. Sobre a carne, base da dieta alimentar dos argentinos, Maria diz que "come quando tem" porque o marido, um apanhador de lixo que ela prefere definir como "um trabalhador da reciclagem" deixou de ganhar os 70 pesos que conseguia por dia. Custa-lhe muito calcular os gastos mensais. Prefere ilustrar que antes do conflito gastava 20 pesos por dia com alimentos. Agora gasta o dobro e leva menos comida. "Estamos sempre no limite", sintetiza.
Também com o filho de apenas três meses no colo "porque não tinha com quem deixar", Yolanda Brandoni de 32 anos diz que ninguém no Governo faz as coisas como deve ser. Contrariada, confessa que só foi à Praça de Maio em substituição da mãe que não pôde ir. A mãe precisa de comparecer aos actos de Cristina se quiser começar a receber um subsídio de 150 pesos para o qual já está inscrita pelo município de La Matanza.
Segundo as os números oficiais, a inflação do mês de Maio foi de 0,6% e no total do ano, o número chega a 3,5%. Os primeiros a denunciar a manipulação dos dados são os próprios funcionários. Para os analistas privados e, segundo a percepção social, medida em sondagens, a inflação verdadeira ronda os 30%.
"É como eu disse: não acredito em ninguém deste Governo", conclui Yolanda. Rodrigo de 14 anos e Sebastián de 17 foram levados pela organização piqueteira Corrente Classista Combativa. "Só estou aqui porque me dão um lanche e 70 pesos. Venho sempre que precisam fazer número", conta Sebastián.