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Expresso

Dark: não é onde estamos, mas quando estamos

O anúncio de uma viagem de carro com o meu tio antecipava aborrecimentos contínuos intervalados por semáforos, cruzamentos, portagens ou pelas raras ocasiões em que atestava o depósito connosco lá dentro. À velocidade em que circulávamos no Citroën AX, a probabilidade de os seis contos de reis de gasolina durarem uma eternidade (e ainda um troço da Mimosa) era real. O meu tio não passava dos trinta dentro de localidades, nem dos oitenta em estradas nacionais e chegava aos cem na A2 nos dias mais arriscados.

Dizia ele:
– Isto é que é andar em velocidade de cruzeiro.

E eu a pensar em barcos e ele a discorrer explicações técnicas sobre pontos de embraiagem, red lines, rotações e a força e o pesos exatos a exercer no pedal do acelerador.

Além de vagaroso, poupado, exageradamente cauteloso e abstémio, o meu tio tinha conselhos a dar quando nos preparávamos para fazer coisas perigosíssimas como andar de bicicleta ou a pé em estradas onde passariam 20 carros por dia em dias de muita pesca.

– Ai, filhos, olhem que há uns tempos alguém foi apanhado aqui na curva.

Na verdade, houve um carro que se despistara contra o muro do jardim da casa e esse episódio foi recuperado várias vezes com um dedo apontado às marcas dos pneus no alcatrão e outro dedo à pintura desfeita junto ao portão.

Custava acreditar que aquele homem era o mesmo que caçara antílopes e cobras e gazelas em África, com uma barba formidável e cigarros na boca, como um Ché emigrado. Não fossem as fotos de família, dele e do meu pai, ao lado de carrinhas pick-ups a sorrir, com o bronze único da linha do Equador, todas essas histórias do caçador branco pareciam-me agora duvidosas, como memórias construídas a partir de sonhos de criança.

Mas, do nada, numa tarde preguiçosa, encavalitou-se numa motocrosse de um primo meu, pisou o kick, rodou o punho e deu uma ruidosa volta à aldeia da minha mãe, se não me engano calçando uns sapatos de pala e uma camisa de manga curta vestida. E riu-se como um puto e o meu pai também se riu e piscou-me olho.

Afinal de contas, o fogo ainda lá estava dentro do corpo, entalado entre o cinto de presilhas cruzadas e a letargia. A partir daí, reavivaram-se as proezas africanas e todas as malandrices boémias do meu tio, o que me levou a acreditar em duas coisas que tenho como fundamentais: nunca conhecemos realmente alguém e uma pessoa são várias pessoas.

Talvez seja este o ponto de partida da “Dark”, melhor dizendo, talvez seja este um dos pontos de partida da “Dark”, uma série com múltiplas camadas sobrepostas em cima da questão mais complexa do universo: como funcionam os relacionamentos humanos.

Há uma cidadezinha suburbana no sul da Alemanha chamada Winden que fica no meio de um bosque onde há uma caverna que conduz a um túnel onde coisas estranhas acontecem. Também há uma central nuclear e o ano é 2019. “Está tudo ligado”, diz uma voz off, e neste momento ficamos irremediavelmente afastados do ambiente adolescente que rodeia “Stranger Things”.

Há um miúdo, Erik, desaparecido e outro, Mikkel, que desaparecerá depois; e Mikkel é irmão da ex-namorada de Jonas, um rapaz traumatizado pelo suicídio do pai e cuja mãe se anda a deitar com Ulrich, que é pai de Mikkel e da sua ex-namorada.

Sim, confuso, cruzado e consanguíneo, como uma telenovela.

Também há uma senhora que tem uma caixinha misteriosa com uma carta que só deve ser aberta numa data específica, um marido gay, um sinistro CEO de uma central nuclear, um homem de capuz e de barba que ciranda como um profeta anunciando o futuro mas também o passado e o presente.

Há segredos, pássaros mortos, ovelhas mortas, um padre com figura de Adónis e uma tatuagem notável, miúdos e miúdas em revoluções hormonais e diálogos como este: “A questão não é ‘onde está Mikkel’, mas ‘quando está Mikkel’”. Porque Mikkel não se esfumou no éter, apenas recuou até à Winden de 1986 para perceber que o pai, o rigoroso polícia Ulrich, foi um rebelde delinquente e mal formado e que a mãe, a atenciosa e carinhosa Katharina, era fisicamente violenta e insuportável.

Não querendo revelar outros pormenores que só vos iriam confundir mais,“Dark” é, então, uma série sobre viagens no tempo e no espaço – entre 1953, 1986 e 2019 –, teorias do caos, religião, o Bem e o Mal, a decência e a indecência e, acima de tudo, sobre nós. Sobre as nossas transformações e as nossas dependências e sobre como, por vezes, nos vamos construindo à medida das expectativas dos outros, embalados pelo contexto.