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Expresso

Ele deu-nos os mundos em que nós vivemos

Spielberg, o homem que mudou a forma como olhamos para o mar. E talvez para tudo o demais

Tive umas braçadeiras da cor do sol que eram especiais e mágicas e assim nada me podia acontecer quando pulava para a água. Eram como uma extensão artificial do colo maternal e é possivelmente por isso que as adorei e estimei muito além do tempo necessário; quer dizer, bem depois de alguém me ter dado aquele empurrãozinho final sem pré-aviso para a autossuficiência nas piscinas da Seaza ou da Amical em Kinshasa.

Diz-se que é assim que os miúdos perdem o medo, só que tenho tendência para desconfiar das teorias baseadas em nada, especialmente as que envolvem episódios submergidos.

Mas, pronto, o que interessa aqui é que lá me desenrasquei e com o tempo a hora da piscina passou a ser a mais importante do dia durante muitos dias da minha vida. E, depois da piscina, vieram o rio e o mar, as travessias no Zêzere e as tardes em Milfontes. E o “Jaws”.

Pois então, os primeiros mergulhos que se seguiram ao filme do Steven Spielberg foram tímidos e envergonhados, tal como eram, pelos vistos, os meus conhecimentos de zoologia. Porque na minha cabeça, e durante alguns tempos, andaram nas águas frias do Alentejo o Chief Martin Brody, o Matt Hooper, o Quint e aquele tubarão branco.

– You’re gonna need a bigger boat.

O “Jaws” foi um filme terrivelmente assustador e Spielberg mudou a forma como olhámos para o mar usando um gigantesco tubarão mecânico tipo touro mecânico das feiras, duas notas musicais e bons diálogos construídos em cima de punch lines. Com as suas insinuações e sugestões, fomos levados a acreditar que aquilo realmente era possível: numa terriola chamada Amity, um xerife com medo da água e um curioso e palavroso biólogo marinho conseguiram derrotar um bicho rebentando-lhe uma botija dentro da mandíbula.

“Jaws” foi o primeiro blockbuster do cinema e a seguir a esses Spielberg fez muitos outros, alguns melhores e outros não tão bons, criando mundos que preencheram o imaginário de putos, adolescentes e graúdos.

Obviamente, o “E.T.” é a história de todas as histórias, porque junta um miúdo tímido de uma família quebrada com um extraordinário ser de outro planeta que só quer voltar a casa – o tema da vida fora desta Terra fora explorado antes, no “Close Encounters of The Thrid Kind”, mas sem a mesma expressão.

Quando Spielberg cristalizou que aspeto teria o seu extraterrestre, passámos a assumir para sempre que, a existirem, eles seriam bípedes e teriam dois braços, só porque sim, e o mesmo aconteceu, anos mais tarde, com os velociraptors criados nos laboratórios do Mr. Hammond em “Jurassic Park”. Em ambos os filmes, a coisa poderia resumir-se à técnica e aos efeitos especiais, mas há sempre uma gentileza, uma delicadeza e uma moral e muitas vezes um enredo familiar que ele filma à refeição.

E este é o toque de Spielberg, que criou o charmoso e corajoso Indiana Jones e que também esteve ligado ao Han Solo e ao Darth Vader de “Star Wars”, personagens que se entranharam no dia a dia e na cultura popular ao ponto de serem replicados e recriados ad eternum. O fenómeno “Stranger Things” é, basicamente, Spielberg reatualizado: o subúrbio, as BMX dos anos 80, o monstro e os miúdos são do E.T; e o chapéu do xerife Jim Hopper que quase fica para trás numa caverna onde há bicharada que se move como cobras são do Indiana Jones.

Mas o homem que criou o Indy é o mesmo que filmou o duro e cru “Schindler’s List”, orquestrou o violento desembarque da Normandia em “Saving Private Ryan” ou dirigiu o notável Daniel Day-Lewis em “Lincoln”, obras que contrastam em absoluto com todos os outros que citei há bocadinho. E isso torna difícil categorizá-lo enquanto autor, porque ele é aquilo que quiser, faz aquilo que quiser e tudo lhe sai bem.

É provável que Spielberg seja um génio.