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Expresso

E então ele pega na Magnum 44 e pergunta-nos: “Do you feel lucky? Well, do ya, punk?”

Tenho um tio que era um assobiador dos diabos e pudesse eu trocar por palavras os sons que ele fazia vocês ficariam igualmente espantados com os cantos que viviam dentro dele. Quando lhe dava para aquilo, o meu ti’ Zé entreabria os lábios e encostava a língua aos dentes, e então havia piscos e tentilhões e melros a passarinhar por ali.

Na perspetiva da pequenada, era ao mesmo tempo bizarro e bastante divertido ver o homem corpulento transformar-se em ave canora à nossa frente. Porque aquele homem-pássaro era o mesmo treinador que amestrava corvos e antílopes, que alimentava papagaios à boca e que tinha um furão como animal de estimação.

Mas África ficou para trás e lá ficaram quase todos os assobios, menos um, que me acompanhou toda a vida. Um que ele partilhava com o meu pai e que era uma adaptação criativa do tema de “O Bom, o Mau e o Vilão”, de Sergio Leone.

Obviamente, o passo mais lógico a seguir a isto seria falar de Clint Eastwood nesta crónica – e sou óbvio e sou pelas coisas lógicas, como já perceberam.

A minha porta de entrada para o mundo de Clint Eastwood não deve ter sido muito diferente da dos outros que nasceram nos oitenta. Começámos por assistir com os nossos pais aos western spaghetti de Leone e o Man With No Name a cirandar com o seu poncho e a cigarrilha na boca em “A Fistful of Dollars”, “For a Few Dollars More” e “The Good, the Bad and the Ugly”. Pela primeira vez, vi um anti-anti-herói no faroeste, porque a personagem de Clint nada tinha de trágico ou de mártir, nem tão pouco carregava com ele o charme desprendido dos bonzinhos que não querem ser vistos como tal.

Pelo contrário, o Man With No Name era frio e limitava-se a tratar da saúde a quem lhe fazia frente, com poucas ou nenhumas falas e sempre com aqueles olhos azuis hipnotizantes que enchiam o ecrã – a cara de Clint nestes filmes é irresistivelmente carismática e foi assim que aguentou sozinho e praticamente mudo três filmes tão mal produzidos que se tornaram bons.

Depois, cheguei à aborrecida e previsível série dos filmes do Dirty Harry, o polícia protofascista, na Lotação Esgotada. Havia aquele plano contrapicado em que ele brande a “Magnum 44,the most powerful handgun in the world” e o momento em que dispara a histórica e inimitável punch line: “You've got to ask yourself one question: ‘Do I feel lucky. Well, do ya, punk?’”.

O Dirty Harry falava mais do que o Man With No Name, é verdade, mas fazia-o sempre entredentes e a gritar baixinho – a extensão vocal de Eastwood é semelhante à de um diapasão – e sobretudo com o ar de quem estava quase, quase a explodir.

O carisma estava lá, porque não se treina, mas a má representação também, e a modos que a carreira do homem estava ali parada, num limbo entre o Burt Reynolds e o Charles Bronson.

E então Clint realizou “Unforgiven” e tudo que se disse sobre ele ficou imediatamente sem efeito. Este filme é, provavelmente, o melhor Western alguma vez feito e li algures que o argumento lhe andou na cabeça desde os anos 70; decidiu esperar e envelhecer para poder interpretar o misterioso Bill Munny que aceita enfrentar o poderoso facínora Little Bill Daggett (Gene Hackman).

É um filme que segue à risca a narrativa clássica – a partida, a recusa, o chamamento, o regresso, etcetera –, mas junta-lhe gentileza, humanismo, dor e vulnerabilidade.

Clint Eastwood humanizou-se e na década seguinte pôs-se a dirigir fitas como “Million Dollar Baby”, “Gran Torino” e “Letters from Iwo Jima”, em que os protagonistas lidam sucessivamente com a culpa e o abandono, a família quebrada, o racismo e o preconceito, e a morte.

Mais do que tudo, Clint transformou-se num contador de histórias americanas com gente ambígua lá dentro. Gente como ele, que se diz Republicano e defende o controlo de armas; que apoia o casamento homossexual e condena as atitudes imperialistas dos Estados Unidos, e ainda assim apoiou Donald Trump nas últimas eleições; que é um mulherengo incorrigível e um péssimo pai e que filmou algumas das cenas mais doces e subtis sobre o amor paternal ao lado de Hillary Swank.

Clint Eastwood anda por aqui há muito tempo mas parece que ainda não o conhecemos. O mais certo é que ele nunca nos venha a dizer quem realmente é. E isso não tem mal, porque não é nada da nossa conta, dir-nos-ia ele, com os dentes à mostra e o lábio superior subido.

P.S. - Não referi “Invictus”, “J. Edgar”, “Flags Of Our Fathers”, “American Sniper”ou “Sully” para não parecer o groupie que sou.