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Expresso

Em Westworld, a moral é transferida do sangue e da carne para o óleo e para a eletricidade

Se não foi no natal de 87, foi no seguinte, mas o ano até é irrelevante para a história. Eu tinha o gesso no braço, porque achara por bem saltar de um armário de dois metros e picos encapado de Zorro, e a mobilidade reduzida andava a arruinar frustrantemente as futeboladas pós-TPC. Foi então que eu e o meu primo decidimos criar um código – o chirriar da coruja – e as brincadeiras entraram no nível seguinte.

Passámos a comunicar por sons, escondidos em arbustos, furtivos como ninjas, fortes como o He-Man, corajosos como o Lone Ranger – um Lone ranger maneta, no meu caso. Os jardins, as árvores, os autocarros, as betoneiras, os camiões e as caterpillars abandonados naquele gueto para os brancos privilegiados de Kinshasa transformaram-se nas cavernas, covis e quartéis-generais que víamos nos bonecos animados.

Um espaço infinito onde podíamos ser quem quiséssemos dentro da nossa cabeça; e essa irresponsabilidade inocente encerra a verdadeira (e derradeira) liberdade.

O conceito do mundo faz-de-conta é o ponto de partida da Westworld que passo a explicar. Num futuro não especificado em que a Humanidade está aborrecida de morte, um cientista chamado Robert Ford decide criar um parque de diversões para adultos ricos que procuram experiências role-playing no velho faroeste. Quem quiser entrar, paga uma fortuna para ser um cowboy bom (de chapéu branco) ou mau (de chapéu preto) - ou uma cowgirl boa ou má com as mesmas escolhas cromáticas - e entra numa vila cheia de clichés: xerifes, empregados de saloons, prostitutas, bêbedos, aventureiros a cavalo e gente indiferenciada que está lá apenas para fazer número e dar contexto, tal e qual um bom western.

Só que nenhuma destas personagens existe.

Vá-se lá a saber como, e embora se perceba o porquê, Robert Ford (Anthony Hopkins) inventou cyborgs praticamente indiferenciáveis dos humanos, o que torna a experiência dos visitantes muito mais realista e intensa – e, no limite, selvagem e primitiva. Porque interagem com robôs programados para seguirem um guião, os clientes do Westworld sabem que os seus atos nunca, mas nunca, terão consequências.

Ou seja, os clientes são livres para amar no sentido carnal do termo, se assim o entenderem, mas também para torturar, se lhes der para isso, dentro de um ambiente controlado e seguro para o Homem, sobretudo para alguns homens revelarem a merda de que são feitos, manipulando e violando e matando mulheres. Porque para eles, elas são literalmente máquinas e as máquinas não têm memória e por isso são imunes a fragilidades como traumas e depressões. Melhor ainda, estas máquinas nunca se poderão vingar do que não se lembram que lhes aconteceu – é que, no final de cada jornada, os cyborgs e as cyborgs são reconduzidos à oficina onde Bernard Lowe (Jeffrey Wright) os reprograma, revista e reatualiza para o dia seguinte.

É como o “Groundhog Day”, mas sem o humor do Bill Murray, e isso funciona para toda a gente, e especialmente bem para os que escolhem ser os vilões. Como o Man in Black, do magnífico Ed Harris, que vive calcorreando o cenário da Westworld chacinando quem encontra pela frente à procura do segredo vital daquele parque de diversões.

Até aqui, a Westworld, que se arrasta num longo bocejo nos dois primeiros episódios, seria apenas uma ideia bem executada, com bons atores e bons efeitos especiais; depois disso, dá-se o ponto de inflexão e aí começa a viagem. As máquinas deixam de ser máquinas e começam a sonhar com as memórias supostamente apagadas pela equipa de tecnologia.

Aos poucos, Dolores (Evan Rachel Wood) e Maeve Millay (Thandie Newton) humanizam-se, fazem alianças e revoltam-se contra os criadores, e a moral é transferida do sangue e da carne diretamente para o óleo e para a eletricidade, como se os cyborgs fossem uma versão melhor de nós num ambiente sem regras e constrangimentos sociais. E é aqui que Hobbes derrota Rousseau.