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Expresso

Viajar era fugir para um lugar que os adultos não compreendiam

É provável que a única solução para isto seja uma sessão de terapia regressiva, mas estou capaz de jurar que o meu primeiro amigo, o meu primeiro amigo sem o apelido Candeias, o meu primeiro amigo de verdade - se por primeiro amigo de verdade se entende aquele que brinca contigo na altura em que o cérebro começa a registar eventos nos quais participas - foi o Richard. É uma convicção frustrantemente suportada pelas fotos de casa que toda a gente faz questão de me lembrar quando tento dizer que a minha memória é prodigiosa e vai mais atrás no tempo do que as memórias convencionais.

Enfim.

Então, lá estou eu e o Richard, um pianinho vermelho com som metálico junto a uma borracheira, eu a rir-me e ele também a rir-se, notoriamente satisfeitos com aquela brincadeira que juntava um puto branco e um quase adolescente africano. Acontece que o Richard não era meu amigo porque sim, mas porque era pago para ajudar na lida do jardim.

Ele tinha duas missões: cortar a relva e regar e podar as plantas e as árvores de fruto, e aturar-me. O Richard acabaria despedido por espreitar uma rapariga africana enquanto esta tomava banho, o que resultou numa grande barafunda entre os dois, um galo na testa dela e um estigma nele.

Antes de partir, o Richard deixou-me lições para a vida, uma involuntária, outra voluntariosamente: o respeito pela privacidade alheia e como andar de bicicleta.

Como compreenderão, dada a delicadeza de um dos temas, só há fotos do segundo momento e a minha mãe conta-me que o Richard tinha uma paciência inacreditável. Corria ao meu lado, apoiava o veículo de duas rodas com uma das mãos, eu caía, ele levantava a bicicleta e repetia o programa, até acontecer aquele instante em que se deixa de sentir o peso de alguém e passamos a viajar sozinhos. Como Lance Armstrong confessa no documentário, a bicicleta é o primeiro ato de independência da criança que deixa de precisar dos seus pais para ir onde quer ir. E como quer ir.

Pode ser depressa ou devagar, ao cavalinho, sem mãos ou com o anedótico queixo partido - sucedeu ao meu primo, já eu safei-me com escoriações e crostas e sangue pisado, e pele rasgada nos joelhos, cotovelos e nos nós dos dedos.

A bicicleta, pois, é um objeto mágico para um miúdo e o cinema usou esta imagem mais do que uma vez, sobretudo nos anos 80, com os “Goonies” ou com o “Karate Kid” - e, claro, com o “E.T.”

Ora, é precisamente este imaginário que serve de base à série “Stranger Things” e que nos leva diretamente para a obra fantástica que definiu a carreira de Steven Spielberg. Há um lugar que é um subúrbio. Há um grupo de miúdos, cada um deles com as suas peculiaridades (um irmão mais velho sorumbático e um mano mais novo brilhante, um gordinho, um romântico, e um medroso) e todos cumprem o seu papel. Há uma rapariga vinda do nada com poderes que parecem do além, tal como seja fazer levitar objetos animados ou inanimados só com o poder da mente. Há, também, um xerife amarrotado pelas circunstâncias da vida e uma mãe solteira igualmente amassada, mas por outras razões. E não podia faltar uma empresa ultrassecreta com uma sede ultraprotegida onde se esconde a solução para a questão que atravessa a primeira temporada: o que é e quem é a Eleven.

“Stranger Things” é maravilhosamente ingénua, faz-nos acreditar naquelas coisas que acreditávamos quando éramos putos e está repleta de cenas em que crianças encavalitadas umas nas outras e em cima de bicicletas conseguem fugir de quem as persegue para finalmente chegarem do ponto A ao ponto B mais depressa do que um carro caracterizado.


Talvez tenha sido isto que todos nós gostámos quando pegámos pela primeira vez na nossa bicicleta: um curso acelerado de emancipação, uma janela aberta para possibilidades infinitas, uma fuga para um lugar que os adultos não conheciam. Nem compreendiam.


P.S. A segunda temporada de “Stranger Things” arranca em outubro

P.S. 2. Apesar de tudo, a minha cena cinematográfica preferida com uma bicicleta passa-se no “Butch Cassidy and The Sundance Kid”. O Paul Newman foi o maior.