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Expresso

O bairro engoliu-o e o orgulho perdeu-se nas passas que dá no cigarro enquanto se apaixona

Não era só o frio, nem eram só os cachecóis e os kispos e as botas e os impermeáveis e as calças - um puto habitua-se ao choque térmico, à roupa quente e à chuva fria, e até acha piada ao tempo que muda à medida que o tempo passa, amplitude notável e inesperada para quem apenas sentira a paz do sol na pele durante anos.

Também eram outras coisas. Era, por exemplo, um quinto andar de um prédio da Póvoa de Santo Adrião que dava para uma rua de dois sentidos e para umas escadinhas que terminavam num ângulo de 90º graus coladas à fachada de outro prédio onde eles estavam escondidos, à espera e a pedir trocos. Era a nota de 100 paus do lanche debaixo da palmilha da sapatilha que se descalçava no cubículo envergonhado da casa-de-banho para comprar a merenda na escola. Era o banco do cemitério nas costas do prédio onde um dos filhos da Marreca, o mais assustador dos dois, se sentava com os olhos esgazeados, o cabelo liso e mal lavado e a cara pustulenta:

- Puto, passa o que tens, senão já sabes.

Era o Rúben karateca, ou seria kickboxer?, uma das duas variantes do pontapé na boca seria de certeza porque ele esticava a perna até ao céu infinito, a ser cortado pelo Carlitos no lábio no dia em que disse ao Carlitos que não havia pão para malucos, que aquilo acabava ali.

Era o café onde a malta parava onde um dia roubaram o capacete da WSR à Ana, altura em que o bom malandro do Jójó garantiu a toda a gente que o Arai colorido ia aparecer, porque ninguém palmava um amigo ou uma amiga do Jójó e ficava a rir-se.

Era o Jójó com um cachimbo de água, o Jójó com uma arma à cintura, o Jójó com os olhos vermelhos e o ar de quem já tinha visto e feito o que nós só víamos nos filmes com tiros e sexo de quarta-feira à noite.

Nunca me vou esquecer da gargalhada de fumador do Jójó.

E vou lembrar-me sempre das nêsperas roubadas e certeiramente disparadas ao quadro, as idas aos gambozinos, os jogos de palavras, expressões como “bumbos”, “pulas”, “ché, comé”, de correr à frente de quatro ou cinco gajos que me queriam roubar, as esperas à saída da escola, “lá fora apanho-te, sais a pontapé”, os canaviais ao lado da Pedro Alexandrino onde alguns juravam que o amor acontecia até ao dia em que rolou a história de uma violação macabra de uma rapariga que ia para a escola e foi apanhada por um velho.

Recordei-me disto tudo quando li “As Primeiras Coisas” de Bruno Vieira Amaral, onde ele escreve e descreve o bairro Amélia e as gentes imaginadas por ele e que por lá viveram. Começa com alguém que se divorciou e regressa ao lugar em que cresceu para se refazer da desilusão amorosa e profissional, separado de fresco e despedido pela “Ana Mendes, grande cabra”. Levado pelo fotógrafo Virgílio, Bruno Eugénio recompõe a vida do bairro, personagem a personagem, e lá dentro cabem os bêbedos, a aguardente, os “pretos”, os mulatos, os ciganos, os brancos, as mulheres da vida e as mulheres com a vida difícil, os retornados, os bruxos, as crendices, o craque da bola chamado Beto que fica manco num acidente estúpido, o Teixeira e a Vera, o Lito Capone e a violência gratuita de quem intimida e tem poder.

Bruno Vieira Amaral

Bruno Vieira Amaral

D.R.

Enquanto conta a história de cada uma destas figuras cheias de tiques e marcadamente estereotipadas por ordem alfabética, o narrador vai-se reconstruindo e recompondo no calão e nos hábitos que entretanto deixara para trás. Ele era aquele que tinha sobrevivido ao bairro, que saíra do bairro, e isso fazia dele melhor do que os outros, até que o bairro o engoliu novamente e o orgulho se perdeu nas passas que dá no cigarro enquanto se apaixona pela empregada do café que namora com um tipo qualquer.

“As Primeiras Coisas” está cheio de referências literárias e também populares, de época, daquela época, mas o que realmente surpreende é o ritmo da escrita e a linguagem crua, direta, as notas de rodapé que representam uma segunda trama dentro da trama original que, de alguma forma, se completam. É uma escrita em mosaico como os filmes mosaico, em que os tempos e os episódios estão aparentemente desprendidos uns dos outros e se concluem mais à frente, quando viramos a página e encontramos a solução.

Na crítica à obra, Pedro Mexia diz que Bruno Vieira Amaral tem o “génio do detalhe”; eu acho que ele tem o génio dos grandes contadores de histórias.